Cresci sem a necessidade de fazer nenhum trabalho doméstico (pesado) em casa. Minha mãe sempre trabalhou dois expedientes e por causa disso, sempre tivemos empregada. Apesar disso, nunca ficamos - meus irmãos e eu - eximidos das responsabilidades. Não era por luxo, como ela dizia, mas por necessidade (dela, de sair para trabalhar)
Arrumávamos a nossa própria cama e preparávamos o próprio lanche. Tudo isso com a nobre missão de nos preparar para a vida, pois passávamos por breves intervalos sem empregada. Quem nunca? E nesse interstício, mamãe botava todo mundo pra ajudar.
Lembro de uma vez, que eu muito bem deitada, gritei o nome da empregada e pedi que me trouxesse água. De repente não mais que de repente, surgiu uma mulher em fúria - a minha mãe. Levei um sermão tão grande, mas tão grande, que dói no meu ouvido até hoje. "Ela está aqui pra arrumar as coisas, pra ficar com vcs e não para satisfazer suas necessidades. Tá aleijada? (perceba a delicadeza em suas palavras) Se levante e vá pegar sua água." Isso num tom agradabilíssimo de uns 362529 decibéis.
Daí eu casei. E como já falei pra vcs, o fiz sem ter nenhum bem para declarar num imposto de renda. Ou seja, financeiramente prejudicada. As facilidades da casa da mamãe, ficaram para trás. Tinha que me virar do meu jeito, com minhas próprias coisas.
Lembro com carinho da dificuldade que foi limpar a geladeira pela primeira vez. Gente, que difícil. Ainda sim, limpei melhor do que qualquer profissional do lar. Comecei a ficar orgulhosa de mim. Estaria eu diante de um futuro promissor nessa carreira?
Daí me vi diante de uma pilha de roupas e sem máquina de lavar. Deve ser bem fácil - pensei, baseada nas minhas experiências como lavadora de calcinha no box do banheiro. Nunca pensei que fosse tão difícil. Lavava e praguejava e desejava que todas as lavadeiras do mundo ganhassem milhares de reais pra compensar a dor que vem em seguida, nas costas.
Passar roupa pra mim sempre foi um mistério. Nunca havia tentado. Daí com aquela vontade louca das recém-casadas de mostrar serviço, resolvi me aventurar. E descobri uma vocação surreal pra fazer origami com roupas. Só não entendia o porquê de o Paulinho nunca usar as camisas passadas com tanto amor e tanto afinco.
Um mistério até hoje não solucionado: qual a finalidade de vinco em calça? Pra mim, aquela marca, continua sendo um amassado.
Nem precisa falar da gola da camisa, né? Eu as deixava como o cabelo do bozo.
Paulinho interveio e contratamos uma lavadeira/passadeira, já que a cozinha sempre foi meu forte. Diz ele que era para o meu bem, já que grávida estava, mas desconfio de que ele não aguentava mais passar roupa escondido na madrugada.
Hoje, passados dez anos, já posso dizer que superei muita coisa.
Quer dizer...exceto por ainda separar ~ roupas difíceis ~ para que ele passe pra mim e por me negar a fazer vinco de calça.
De resto, sou uma amélia.
Ou finjo muito bem ser.
Começo de vida é sempre assim?

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