segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para se conectar, desconecte





Fiz uma proposta dia desses aqui em casa, que foi encarada com muita desconfiança por todos. Não era nada demais, nem exigiria muito de cada um. Propus à família de passarmos os finais de semana desconectados: evitando internet e televisão.





Essa ideia surgiu por causa de uma viagem que fizemos no carnaval, no ano passado. Alugamos uma casa escondidinha, perto da praia, rodeada por dunas. Lá não tinha televisão, não pegava internet e não bastasse tudo isso, também não tinha sinal para celular. Estávamos ilhados, perdidos no meio do tempo, incomunicáveis. Isso gera, num primeiro momento, um desconforto enorme. Mas essa experiência foi tão positiva! Pudemos estar juntos, no sentido mais amplo que essa palavra possa ter. Aproveitamos os jogos de tabuleiro, fizemos muitos bolos, conversávamos bastante e ainda assim, o tempo parecia nos sobrar.





Esse ano fizemos duas viagens para o interior do Estado de Santa Catarina. Uma foi mais curtinha, para a serra e a outra nos levou ao extremo oeste, para uma cidadezinha bem simpática de colonização alemã. Resolvemos seguir a mesma proposta, só que dessa vez, de forma voluntária. 











autonomia, cada um na sua, desligue a tv, livre de consumismo
No caminho, pausa pra registrar








Fizemos a viagem de carro e eu sempre dispenso aqueles gadgets para entreter crianças. Considero isso o cúmulo do desnecessário. Até por que não faz sentido estarmos perto, sairmos de férias para ficarmos ausentes da convivência com o outro. Cada um com sua telinha, cada um com seu fonezinho de ouvido. Para nós o importante é a viagem e não a chegada. 





Pra que coisa melhor para entreter uma criança, do que olhar a mudança das paisagens pela janela? Pra que oportunidade melhor, para conversarmos sobre os mais variados assuntos? Pra que oportunidade melhor, pra ouvir todas aquelas músicas que adoramos e conhecer outras mais?







autonomia, cada um na sua, desligue a tv, papo de mãe, desconecte
Ao redor, tudo é bem mais bonito.








Nessas condições, tivemos a melhor viagem como uma família. Lá, além de estarmos juntos o dia inteiro, sem compromissos, ainda tivemos meios de incentivar a autonomia dos nossos filhos, mesmo estando ao lado. Bia fez muitas amizades, que eram só dela. Otto fez um amigo só dele, assim como nós, os pais. Bia tinha liberdade para transitar no hotel com seus amigos, sempre com supervisão. Isso fez um bem tão grande, que quando saímos de lá, os amigos ao trocarem e-mails, se abraçaram e choraram e juraram que nunca mais iriam esquecer aquelas férias.










desconecte, cada um na sua, otto, cachoeira, natureza, conexão
Pela primeira vez, viu e viveu uma cachoeira










Com essas experiências, voluntárias ou não, percebi o quanto reforçamos o vínculo.





Continuei fazendo isso de forma não sistematizada em casa e a cada vez que desligava tudo, pude ver o quanto de horas extras que ganhávamos. As crianças voltam se concentrar, procuram novas formas de diversão e ao contrário do que possam pensar, não dão o menor trabalho.





Otto já passou quatro horas contadas no relógio revezando entre a massinha e seus inúmeros moldes e a lousa onde brinca de descobrir as letras. Bia, no sábado leu um livro inteirinho de cem páginas. Sempre é bom permitir e incentivar a capacidade de criar universos a partir de si, descobrindo possibilidades. 





E eu, ando impressionada e assustada ao constatar o quanto o tempo rende. Já não me sinto atropelada pelas horas, já não reclamo do tédio e não sinto cansaço. 





Espero poder aos poucos, estender esse hábito para os dias de semana. Não seria nada mal.













sexta-feira, 19 de abril de 2013

Tudo o que é sólido, derrete




tudo o que sólido pode derreter, segundo filho, filho mais velho, relacionamento, papo de mãe, briga de irmão
via





Uma das tranquilidades que levava comigo, como mãe, era de ter a certeza de que a chegada do Otto fora muito bem assimilada pela Bia. Não houve ciúmes apesar de ter havido uma dolorosa adaptação. Aqueles ciclos naturais de progresso e desgaste - presentes em todos os relacionamentos.





É inevitável: sempre que se tem uma certeza, a vida vem e a desconstrói.





Como a Bia não é mais uma criança, nem é adolescente, muito menos adulta, anda tentando se adaptar aos seus próprios conflitos internos. Tem sido difícil vê-la ora num mau-humor, ora num isolamento voluntário sem saber ao certo o que a aflige.





Estava estranha com muita gente, não só em casa, como supunha. A professora, muito atenta e muito comprometida, notou a mudança dela do 3° ano para cá e a convidou não só para uma conversa franca, mas para um resgate.



Do lado de cá, já não suportava mais a forma como ela tratava o irmão. Era de um desprezo, de uma arrogância, de uma superioridade, de uma brutalidade...incapaz de ser deixado de lado ou de ser visto como algo normal. Ressentimento, raiva e infelicidade são sentimentos que não podem de forma alguma ser vistos como natural.





Otto por sua vez, chorava sentido e chamava sempre a irmã de egoísta. O curioso, é que ele nunca se queixou a mim, buscava respostas de forma direta, assertiva. Perguntava porque ela a tratava assim; porque ela nunca respondia quando ele dizia que a amava e porque nunca ficava feliz com as músicas que ele cantava.





E num dia qualquer, depois de presenciar várias cenas, a chamei para conversar. Como mãe, tenho o dever de não negligenciar essa demonstração clara de disputa, infantil decerto, mas que poderá moldar como esses dois se relacionarão no futuro.





Olhei nos olhos dela fingindo uma segurança que na hora não possuía e pedi que me contasse o que estava acontecendo de errado, queria saber qual o motivo que ela teria que justificasse aquele comportamento. Estava tão curiosa como receosa da resposta que ouviria.





No começo não ouvi nada, ela só chorava. Acho que ela confundiu minha suposta segurança com autoritarismo e poderia estar chorando por medo. Resolvi abraçá-la e tranquilizá-la. Insisti na pergunta de uma forma que parecesse menos assustadora.





Depois de um longo silêncio e de um eterno funga-funga, ela disse que não poderia contar, estava envergonhada demais para isso. Ó céus! Nessas horas, aposto que a perna de toda mãe bambeia. 





Para resumir esse momento de tensão mãe & filha, ela confessou sentir ciúmes do irmão. A julgar pela vergonha que sentiu, esse é um daqueles sentimentos que a intimidade e a consanguinidade tornam a revelação ainda mais difícil, mais penosa. Afinal, quem não teme o julgamento?





Seria um caso para um psicólogo? Sim, porque a partir dessa simples declaração já vislumbrei um futuro sombrio. É a mexicanização do drama!!! A deixei chorando no sofá, sob o pretexto de buscar um copo de água para ela, quando na verdade, era apenas uma saída estratégica para por as ideias em ordem. Respirei, bebi água e pensei.





Por um momento, voltei a minha adolescência e lembrei com clareza tudo o que sentia, as dúvidas que tinha e do ciúmes que naturalmente sentia dos meus irmãos mais novos. Mais uma vez: esse não é um caso para ser resolvido numa clínica.





* * * * * * * *





A conversa foi longa e franca.





Achei interessante o fato de ela se sentir constrangida em assumir um sentimento tido como inadequado. Ela sabia que algo não ia bem, só não sabia voltar atrás. Durante nossa conversa, disse que era bastante comum sentir ciúme do irmão mais novo, mas que, para ser saudável, isso teria que ter um limite. Aproveitei para contar a história dos lobos, que a deixou bem impressionada. (aqui ó)





Reforcei todo o amor e o carinho que todos temos por ela e fiz questão de frisar as diferenças e semelhanças entre os dois. Nisso ela percebeu que qualidades que ela tinha não foram listadas para o Otto e que havia defeitos dela que o irmão não tinha. Cada um é especial por aquilo que é, da forma que é. 





Ressaltei que esse momento de sua vida apesar de confuso, pode ser maravilhoso e desejei que ela não perca a confiança em si mesma e que não deixe de buscar respostas.





E se por um acaso ela esquecer, estarei ao seu lado para lembrá-la.





* * * * * * * *





Semanas se passaram e Bia melhorou de uma forma surpreendente. Tanto em casa, como na escola e fizemos questão de mostrar como ela é capaz de se superar.





Agora segue mais segura e sobretudo mais autoconfiante, por saber que tem o poder de fazer a própria história.










quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dia de Feira - um projeto pedagógico com destino certo


projeto pedagógico, viagem programada, feirinha,






O ano letivo começou e sobre ele, ainda não escrevi uma linha. A verdade é que está tudo dentro dos conformes, principalmente para a Bia, que ano passado experimentou alguns dissabores. Merecido para ela e para meu coraçãozinho de mãe, que estava tão estraçalhadinho.





Esse é seu último nessa escola que tanto adoramos. Para marcar o fim do 5° ano e para celebrar toda a trajetória, eles têm o costume de fazer uma viagem de encerramento. O destino é escolhido pela professora, de acordo com o projeto de maior destaque durante o ano. Adivinha pra onde esses pequenos irão? Salvador - conhecer a primeira capital do Brasil.





A viagem será feita sem os pais, o que nesse caso específico, me deixou um tanto desapontada. Sonho conhecer a Bahia e de quebra dar um abraço numas blogueiras queridas que tem por lá (oi, Ivana! oi, Mari Sá!), fora que é uma oportunidade desperdiçada de comer um legítimo vatapá.





Funciona assim: a viagem não é um prêmio. O que significa, que os pais não devem simplesmente pagar por ela, preparar as malas e dar tchauzinho choroso no aeroporto. Há todo um trabalho pedagógico por trás de tudo isso. E o grande estímulo, é fazer com que eles, batalhem por isso. No fim, não será um presente papai-pagou, mas uma conquista.





Como conseguirão? Fazendo feirinhas semanais na própria escola.





Escolhem o que será vendido, discutem o preço que será cobrado, discutem técnicas de vendas, como conquistar e fidelizar os clientes, fecham o caixa e, ou comemoram o sucesso das vendas ou sentam juntos pra descobrir o que deu errado. Isso os fortalece como grupo. Isso os amadurece, favorecendo a autonomia.





Ontem foi dia e, eu estava lá como sempre, registrando e torcendo por eles.


De quebra, Bia fica toda orgulhosa de ver minha animação.


Essa participação na vida escolar deles, favorece ainda mais a convivência mãe-e-filha.





Rumo a Salvador. o/







segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ele não corresponde às minhas expectativas - ops! derrapei na maternidade


viagem em família, aceitação, birra, papo de mãe, expectativas de mãe, respeito a infância








Quando não temos filhos, imaginamos como a vida seria se os tivéssemos. Com quem seriam parecidos, de quem herdariam as qualidades e muito otimistas, os imaginamos sem defeitos. Imaginamos também, que tipo de pais seríamos: severos, permissivos, parceiros e diante de uma lista infinita, não vislumbramos nem de longe o desafio que é encarar de frente, a maternidade/paternidade.





É a ideia errônea de que ter filhos é como estar diante de um painel de controle, onde podemos escolher tudo da forma mais conveniente.





O meu medo era projetar nos meus filhos os sonhos inacabados da minha vida. Nunca imaginei filho médico, filha juíza, delegada, falando esperanto, escrevendo em latim. Sempre disse que não queria criar "vencedores", desses meninos prodígio que aos seis anos sabem se comunicar em cinco línguas diferentes. Penso assim, talvez por não levar em conta, que projeto neles o meu desejo mais secreto: o de querer que eles sejam felizes e seguros de si, justamente por não ter tido autoconfiança. 





Sempre fui uma entusiasta das diferenças que conseguia estabelecer entre a minha personalidade e a personalidade dos meus filhos. Simplesmente, por achar que a reprovação paterna, tira muito do viço e da espontaneidade que é só deles. Reprovamos o diferente. Reprovamos aquilo que incomoda.





Vibro com a habilidade manual da Bia e da forma como ela tenta aprimorá-la, de como fica feliz escrevendo suas poesias e de como é perseverante ao não desistir de praticar esporte, mesmo dizendo que não leva o menor jeito pra coisa; vibro com o jeito desconcertantemente feliz com que o Otto encara a vida, da maneira honesta e limpa com que fala dos seus sentimentos, de como questiona tudo aquilo que é incoerente.





Mesmo não querendo criar filhos dentro de uma caixa, mesmo sem querer robotizar a espontaneidade inerente às crianças, eu cansei





Otto está prestes a fazer cinco anos. Deixou de ser bebezinho há tempos, mas ainda assim tem uns rompantes típicos de quem não sabe falar, finge que não existem combinados, pior, na hora do pega pra capar, finge que é surdo. 





Há tempos, ele me dá uma canseira na hora de sair da escola. Tento driblar a infelicidade do retorno para casa com uma esticada no parquinho, até porque sempre temos que esperar pela Bia, que sai um pouco mais tarde. O tempo é sempre pouco, não o satisfaz nunca. Sempre vem chorando, mas considero esse choro normal, tamanha a frustração dele! Nutri a ilusão de que esse ano, nossos combinados seriam levados a sério e que não teria mais que sair de lá, segurando mochila e moleque insatisfeito, que chora e tenta se jogar ao chão. Afinal, ele não é mais bebê, como mencionei. Já vai fazer cinco anos!!!





A verdade é que o choramingo continua, a dissimulação quando me vê também. Ele sempre finge que não estou ali e principalmente, que não me escuta. Tirei o privilégio do parquinho e passei a reforçar os combinados em casa, explicando ad infinitum...





Até que na semana passada, ele descumpriu mais uma vez o nosso combinado. E eu descumpri o combinado com a maternidade afetuosa. E gritei. E gritei muito. Exigia dele respostas (!!!) para esse comportamento tão...tão...tão infantil!





No que ele me responde chorando e também aos berros: "MAS MAMAIN, EU SOU SÓ UMA CRIANCINHA. APENAS ISSO, MAMAIN. Vc me desculpa? Você me des-cul-pa, mamain?"





Daí, quando vi aquela carinha linda tão assustada, articulando sua própria defesa, a minha ficha caiu. Fiquei tão envergonhada....nos abraçamos. Aceitei suas desculpas e ele aceitou as minhas.





Então, hoje li um texto muito bacana, no MMqD que fala sobre a habilidade nata que as crianças têm de ser felizes e de como os pais acabam por sufocar essa capacidade.





Só sufocaremos essa propensão infantil à felicidade se confundirmos exercício da função parental com permissividade. Só sufocaremos, se insistirmos naquela velha educação robotizada, mecanicamente amadurecida. 





Aprendi que não é justo exigir do Otto a maturidade que ainda não tem, mas sei que posso afetuosamente lhe indicar os limites - mesmo que repetindo-os à exaustão





Educar com amor, não é ser condescendente. Educar com amor, é nortear - sendo referência, dando orientação, é assumir uma responsabilidade.





E eu que achava que a maternidade perderia a graça à medida que os filhos fossem envelhecendo. Tsc, tsc.