Fiz uma proposta dia desses aqui em casa, que foi encarada com muita desconfiança por todos. Não era nada demais, nem exigiria muito de cada um. Propus à família de passarmos os finais de semana desconectados: evitando internet e televisão.
Essa ideia surgiu por causa de uma viagem que fizemos no carnaval, no ano passado. Alugamos uma casa escondidinha, perto da praia, rodeada por dunas. Lá não tinha televisão, não pegava internet e não bastasse tudo isso, também não tinha sinal para celular. Estávamos ilhados, perdidos no meio do tempo, incomunicáveis. Isso gera, num primeiro momento, um desconforto enorme. Mas essa experiência foi tão positiva! Pudemos estar juntos, no sentido mais amplo que essa palavra possa ter. Aproveitamos os jogos de tabuleiro, fizemos muitos bolos, conversávamos bastante e ainda assim, o tempo parecia nos sobrar.
Esse ano fizemos duas viagens para o interior do Estado de Santa Catarina. Uma foi mais curtinha, para a serra e a outra nos levou ao extremo oeste, para uma cidadezinha bem simpática de colonização alemã. Resolvemos seguir a mesma proposta, só que dessa vez, de forma voluntária.
| No caminho, pausa pra registrar |
Fizemos a viagem de carro e eu sempre dispenso aqueles gadgets para entreter crianças. Considero isso o cúmulo do desnecessário. Até por que não faz sentido estarmos perto, sairmos de férias para ficarmos ausentes da convivência com o outro. Cada um com sua telinha, cada um com seu fonezinho de ouvido. Para nós o importante é a viagem e não a chegada.
Pra que coisa melhor para entreter uma criança, do que olhar a mudança das paisagens pela janela? Pra que oportunidade melhor, para conversarmos sobre os mais variados assuntos? Pra que oportunidade melhor, pra ouvir todas aquelas músicas que adoramos e conhecer outras mais?
| Ao redor, tudo é bem mais bonito. |
Nessas condições, tivemos a melhor viagem como uma família. Lá, além de estarmos juntos o dia inteiro, sem compromissos, ainda tivemos meios de incentivar a autonomia dos nossos filhos, mesmo estando ao lado. Bia fez muitas amizades, que eram só dela. Otto fez um amigo só dele, assim como nós, os pais. Bia tinha liberdade para transitar no hotel com seus amigos, sempre com supervisão. Isso fez um bem tão grande, que quando saímos de lá, os amigos ao trocarem e-mails, se abraçaram e choraram e juraram que nunca mais iriam esquecer aquelas férias.
| Pela primeira vez, viu e viveu uma cachoeira |
Com essas experiências, voluntárias ou não, percebi o quanto reforçamos o vínculo.
Continuei fazendo isso de forma não sistematizada em casa e a cada vez que desligava tudo, pude ver o quanto de horas extras que ganhávamos. As crianças voltam se concentrar, procuram novas formas de diversão e ao contrário do que possam pensar, não dão o menor trabalho.
Otto já passou quatro horas contadas no relógio revezando entre a massinha e seus inúmeros moldes e a lousa onde brinca de descobrir as letras. Bia, no sábado leu um livro inteirinho de cem páginas. Sempre é bom permitir e incentivar a capacidade de criar universos a partir de si, descobrindo possibilidades.
E eu, ando impressionada e assustada ao constatar o quanto o tempo rende. Já não me sinto atropelada pelas horas, já não reclamo do tédio e não sinto cansaço.
Espero poder aos poucos, estender esse hábito para os dias de semana. Não seria nada mal.

