sexta-feira, 24 de maio de 2013

Eu sei que a gente se acostuma...





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Não escrevo há muito tempo, mas a tempo suficiente para ter estabelecido boas amizades, bons vínculos. Creio que conquistei o respeito de muita gente justamente por não confrontar os caminhos que cada uma decidiu trilhar pra si. Nunca me meti em polêmicas, embora nunca tenha conseguido ficar por muito tempo calada. Faço isso não com o intuito de não incomodar, mas por um traço característico da minha personalidade mesmo.





De uns tempos pra cá, resolvi revolver a terra que me cercava. Mexi, chafurdei mesmo. Descasquei feridas. Olhei pra trás. Estou tentando me descobrir, me redescobrir, me reinventar. Não sei que nome dar a  esse processo. Nem sei se isso tem um nome. Não importa, é só um processo. Que tem me modificado de uma maneira...





Consigo enxergar coisas que antes passavam despercebidas sob os olhos apáticos de quem estava acomodada. Ganhei lucidez. Talvez tenha ganho maturidade. Mas a busca continua e ela vai além. Busco assertividade, quero parar de me atrapalhar, de me boicotar, de dar ouvido àquela vozinha interior que sempre barra meus projetos, que sempre tenta me fazer menor do que eu realmente sou. Quero apagar essa voz que tem origem no outro e dar o verdadeiro valor à voz que vem de dentro. A voz que me conhece.





Já falei sobre vários assuntos aqui nesse espaço que construí pra mim e é natural que eu fale sobre essas minhas experimentações. É natural que compartilhe o meu olhar admirado sobre as coisas que tenho descoberto. Óbvio que esse caminho que estou percorrendo, já foi percorrido por muita gente. Não sou uma desbravadora. Entretanto, aprendi com meus filhos, que cada um tem o seu tempo. E algo só passa a existir pra mim, a partir do momento que eu vejo ou vivencio tal coisa. Não há ineditismo.





Hoje, vendo um vídeo que geral compartilhou no facebook esses dias, onde Ana Thomaz fala sobre o processo da desescolarização, ela falou algo (dentre tantas outras coisas) que me tocou lá no fundo.





"Quando vc transmuta a cultura, você não pode ir contra ela.  O antagonismo me faz crescer. Cada vez eu me incomodo menos - cada vez mais estou criando uma outra cultura dentro de mim, um outro modo de agir e me relacionar - e cada vez menos eu incomodo. [...] Então eu aceito todo o antagonismo, me alimento dele, transmuto para que ele seja fonte de crescimento, e não antagonizo de volta. Quem não ataca para de ser atacado."




Lembrei de todas as vezes em que me senti atacada com os pensamentos, com as vivências de outras pessoas. Tudo aquilo me soava como provocação. Até porque, tem gente que gosta mesmo de provocar e não convidar ao debate, né? E pensei, que essa é mais uma das coisas que devo aprender.





Não preciso fazer da minha caminhada, motivo para menosprezar ou diminuir a vivência das outras pessoas. O caminho é um só, mas que comporta vários pontos de partida.





Que possamos nos cruzar e nos dar a mão muitas e muitas vezes ao longo dessa caminhada.







terça-feira, 21 de maio de 2013

Faces da Maternidade - Mães que seguem sozinhas


Todo mundo em algum momento idealizou como seria sua vida. Acontece que ela não comporta roteiros predeterminados e quando menos esperamos, somos surpreendidas. 





Ainda hoje, há quem defenda o modelo tradicional de família, aquele composto de papai-mamãe-filhinha(o) que um dia já foi consagrado em lei, mesmo que essa instituição, com todas as mudanças sociais, admita novos contornos. Existem muitas pessoas que vivem um relacionamento falido por medo de tomar uma decisão. Pensam em se preservar, usando o casamento como um escudo. Isso é mesmo necessário atualmente?





Há quem defenda a família acima de tudo. Mas de que família estamos falando?





Para existir família, deve existir amor, confiança, amizade e, sobretudo respeito. Hoje, o que a configura não é mais o casamento, é a afetividade.








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"Sou Isabela Kanupp, tenho quase 23 anos, sou aspirante a
escritora e mãe da Beatriz de 3 anos.





Quando eu tinha 15 anos falei pro meu pai que, se nada desse certo até meus 25
anos – emprego bacana, faculdade federal, etc – eu teria um filho e não somente
isso, seria produção independente.
  





Claro que meu pai me chamou de louca.


E chamou de louca novamente  aos 18 anos,
quando contei para ele que estava grávida do meu namorado, que na época já
morava na mesma casa que eu.   







Com esse cara, pai da minha filha, vivi por quase 5 anos, dividimos o mesmo
teto, dividimos contas, dividimos problemas, dividimos cervejas, dividimos
muitos cigarros na madrugada. Tivemos nossos momentos bons, mas para mim –
talvez para ele também, não sei – o último ano foi um inferno. 




Entendi porque dizem que quando acaba o respeito acaba tudo, acaba mesmo, acaba
o amor, acaba o “auto” respeito também. Porém, é muito diferente entender isso
e conseguir tomar uma atitude.



Eu demorei um ano para terminar um casamento que já estava acabado fazia tempo.


O medo faz com que não tomemos certas atitudes, o que falam de como é ser mãe
solteira, a insegurança, o medo de não dar conta de colocar comida em casa e
ser mãe. Tudo. Dá um desespero, mas chegou ao ponto de, ou eu enfrentava o medo
ou eu ficaria parada E com medo.






Enfim, passou. E eu me vi solteira com uma filha de 3 anos
me enchendo de pergunta. E não somente isso, me vi solteira, com uma filha de 3
anos me enchendo de perguntas e muitas pessoas querendo responder por mim. 





Na minha ingenuidade, jamais imaginei que ainda existisse tamanho preconceito
com mães solteiras, claro que sabia da existência, mas não em meio a pessoas
jovens, esclarecidas, informadas, ditas tão... modernas. 


E não é que tem gente?


Tem e é tão feio.







Primeiramente o que aconteceu foi que alguns amigos, mesmo sabendo de todos os porquês do término, questionaram se eu tinha certeza, se não era melhor
permanecer casada e “ aguentar”, porque né... tinha de pensar na Beatriz. Mas
eu estava pensando na Beatriz, justamente na Beatriz que pensei em todos os
momentos.




Algumas pessoas em momento de dificuldade – precisar deixar a Beatriz com
alguém para resolver algo, precisar de 5 reais emprestado no auge do desespero,
e por aí vai – se recusaram a ajudar com o argumento de: separou agora aguenta.





Ouvi de pessoas jovens que se eu arrumei filho eu DEVERIA
continuar casada, porque criança precisa de família, e se eu escolhi não
permanecer, que aguentasse. 




Também chegou ao ponto absurdo dessas mesmas pessoas dizerem que sou folgada,
porque pasmem, eu achava muito justo a Beatriz passar os fins de semana com o
pai. Dois dias. Eu era folgada, porque onde já se viu né? 






Outras pessoas já estão tentando arranjar casamento para mim, com  maravilhosos argumentos como: sua filha
precisa de um pai, coitadinha de você precisa de alguém que cuide de você, mas
mulher não se vira sem homem.








Em poucos meses aprendi a ignorar. Porque não compensa,
sabe? A vida já é difícil demais gente, difícil demais para perdermos tempo
batendo boca com pessoas assim. Descobri que o melhor para pessoas que não
acham que somos capaz é mostrar que somos.
  







A separação fez com que houvesse uma seleção natural de pessoas na minha vida,
ver quem vale a pena para estar ao meu lado, quem me apoia, quem me da força e
até mesmo bronca. Vi que tenho alguns amigos maravilhosos, que desde o primeiro
dia que me separei estiveram comigo e hoje, meses depois, estamos ai, juntos,
todos os dias cuidando um dos outros. 






Vi que minha filha tem pai sim. Que eu sei me cuidar sozinha apesar de tudo. E
que não, definitivamente não preciso de um homem. E quando precisar, eu to
super de boa de pedir ajuda para terceiros.




E desde que me separei levo como mantra o que uma pessoa falou quando ficou
sabendo: ser mãe solteira não é tudo o que falam.



Realmente não é, não é tão glamouroso, mas também não é tão triste e solitário.
Talvez seja uma eterna busca do equilíbrio."






*** Isabela Kanupp, já plantou uma árvore, já teve uma filha e agora está escrevendo um livro. No blog Para Beatriz, além de deixar seu legado materno, debate temas para qual, muitas mães torcem o nariz.









sexta-feira, 17 de maio de 2013

Faces da Maternidade - Mães que retratam a Violência Obstétrica - Projeto 1:4


A palavra nos priva do mundo.





Um discurso muitas vezes causa menos impacto que as imagens. Neste projeto, as imagens mostram apenas parte dos corpos das mulheres violentadas e seus relatos vêm como uma tatuagem, simbolizando a marca das dores e o rompimento do silêncio.



Por que 1:4? No Brasil 1 em cada 4 mulheres sofrem algum tipo de violência durante o atendimento ao parto.




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Eu adoro quando a vida vem com uma coisa que se combina com outras tantas que aconteceram lá atrás e essa mistura produz algo maior. Minha vida é cheia disso. 






No dia em que eu acessei uma conta de e-mail que nem uso
mais para procurar um contato antigo, aconteceu de novo. Eu achei uma mensagem
da Caroline Ferreira, uma amiga que eu amo e que é meio desastrada e escreveu para
esse endereço antigo – olha a vida aí: eu poderia nunca ter lido essa mensagem.
Ela citava um projeto sobre violência sexual na infância e arrematava com a
pergunta: “você nunca pensou em fazer algo assim sobre a violência obstétrica?”.


E então a epifania toda aconteceu. Minha boca ficou aberta
por vários segundos enquanto eu visualizava o que eu queria fazer. Era
totalmente diferente do projeto que ela citou, mas era incrível. Quando meu
queixo voltou para o lugar, eu não conseguia parar na cadeira, porque o que eu
vi era algo que eu já procurava há algum tempo.


Quer ver a vida aí de novo? Eu tive um filho no começo de
2011 – eu, que dizia que não queria ter filhos “nunca nessa vida”, engravidei
sem planejar. Abracei isso pra mim e comecei a me envolver com os grupos de
apoio ao parto humanizado. Tive um parto respeitoso, em casa, do qual eu tenho
saudade de cada minuto. Isso mudou tanto a minha vida que eu investi em algo
que já me atraía muito, a fotografia, e logo depois mudei de carreira: sou
fotógrafa de partos humanizados –e com isso pago minhas contas, sou feliz pra
caramba e faço minha militância mostrando pro mundo uma referência desse evento
que ainda é muito nova por aqui: o parto pode ser lindo, desejável,
fotografável, pode ter risadas, carinho, respeito, cachorro de estimação, mãe
que dança com o pai, pai que pega o filho, pai que pari junto com a mãe.


Desde que eu comecei a fotografar de verdade, já havia
pensado em ter um projeto fotográfico, mas só olhava para a fotografia de
partos, e ela não sustentava isso. A mensagem da Carol causou um eureca!: eu
olhei para o outro lado, para a outra ponta do processo. Meu engajamento pela
humanização podia ir por esse caminho também: eu luto a favor de partos
humanizados e contra os partos violentos.


Voltando ao momento em que meu queixo voltou para o lugar:
eu precisava ver aquilo pronto, executado. Eu já conseguia imaginar as fotos, a
logo do projeto, tudo. Sei que parece clichê, mas ali eu vi que eu podia e
precisava colocar o que sei fazer a serviço de um mundo melhor, mais de acordo
com o que eu acredito. E olha a vida aí de novo: a Carol foi vítima de várias
violências obstétricas durante o trabalho de parto. Estava feito, eu tinha alguém
para o piloto do projeto. E também tinha alguém pra me ajudar, caso a coisa
crescesse muito.


Passamos algumas semanas buscando mais algumas mulheres que
foram vítimas e tentando explicar o que era o projeto e como seriam as fotos e
buscando a melhor solução para escrever as histórias nos corpos das mulheres.
Semanas de frustração, fazendo testes com coisas que nem existem mais, como
papel hectográfico e desodorante em bastão. Enquanto isso, eu desenhava a logo
e deixava a página pronta. E o projeto foi lançado em 8 de março.






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Projeto 1:4 Retratos da Violência Obstétrica por Carla Raiter




O que veio depois foi um furacão. Temos recebido relatos de
mulheres de todas as regiões do Brasil. Relatos tristes, que nos fazem chorar
de soluçar, relatos revoltantes de corpos invadidos e de partos roubados, de
mulheres que, de tão traumatizadas, decidiram após o primeiro parto não ter
outros filhos. As sessões de fotos nunca são só uma sessão de fotos: são
conversas com mulheres que se abrem porque sabem que são compreendidas;
mulheres que querem usar sua história para ajudar outras mulheres a não passar
pelo mesmo, ou que veem no processo de participar um jeito de virar a página.


E o 1:4 está aí, Nós pensamos num projeto de denúncia, e
sabíamos que o alcance disso era limitado. Mas, de repente – e olha a vida aí
de novo –, vimos que além da denúncia e das fotos, ganhamos uma missão mais
importante e, talvez, mais eficaz: ajudar a curar feridas.







*** 1:4 é um projeto fotográfico, idealizado por Carla Raiter e Caroline Ferreira, que busca materializar as marcas invisíveis deixadas por esse tipo de violência e traz à luz uma reflexão sobre a condição de nascimento no Brasil e as intervenções desnecessárias que ocorrem no momento do parto.









quarta-feira, 15 de maio de 2013

Faces da Maternidade - Mães que lutam pelos direitos de outras mães


Muitas mulheres vivenciaram - inclusive eu - mas nenhuma de nós sabia que isso tinha um nome. Uma violência silenciosa, que sob o verniz dos procedimentos médicos (invasivos) se escondia. Hoje não só a nomeamos, como a encaramos de frente.



A discussão acerca da violência obstétrica atinge um público cada vez maior, ganhando espaço inclusive, na mídia hegemônica. É um avanço!



Informação gera consciência, que por sua vez gera indignação. Uma dessas mulheres que trazem no corpo e na alma as marcas da violência obstétrica, resolveu dar um basta! Resolveu levar ao conhecimento do Judiciário essa violência que nos assombra e nos maltrata há anos.



É a primeira ação judicial do gênero no país e tem implicações sérias na vida de todas as outras que passam pelo que ela passou. E por que ela é tão importante? Porque ao conjunto de decisões judiciais sobre o mesmo tema, chamamos de jurisprudência, que é fonte do Direito, ou seja, tem influência nos próximos julgados.



Com cada um agindo na sua área, a mudança na realidade obstétrica é apenas uma questão de tempo.








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"Sabe aquela chance? Daquelas grandes, boas, tipo cavalo que só passa selado uma vez? Um dia me apareceu uma. Uma oportunidade maravilhosa de fazer o meu trabalho e, de bônus, ajudar a melhorar o mundo. Parece sonhos, né, gente?




Conheci uma moça que tinha sofrido violência obstétrica. Até aí, igualzinha a 1/4 da população feminina deste país. Só tinha uma diferença: ela sabia que aquilo era intolerável. Tinha que mudar. Nenhuma outra mulher merecia passar por este tipo de experiência, ela não podia viver aquilo de novo, em seus próximos partos. Procurou a Maternidade, o Plano de Saúde e não teve resposta. Denunciou à Assembleia, ao Ministério da Saúde, mas nada de concreto aconteceu. Viu seu caso parar nos jornais, ao mesmo tempo em que outras mulheres eram violentadas de maneira parecida, nos mesmos lugares.




A moça precisava de uma advogada. Eu precisava de uma cliente como ela. Foi o encontro perfeito.




O nome da moça é Ana Paula Garcia e ela é autora da primeira ação contra a violência obstétrica deste país. Depois dela, outras vieram ao meu escritório, contaram seus casos, me fizeram chorar junto, me deram o orgulho de representá-las. Sem que eu planejasse, me tornei uma mãe que defende o direito de outras mães. Isto me fez voltar a amar o meu trabalho.




Quando meu filho nasceu, trabalhar se tornou muito penoso.
Era sofrido sentar no computador, quando poderia estar olhando-o dormir. Os
peitos pingando durante as audiências doíam mais na minha cabeça do que no
corpo. Cada minuto no escritório era um momento nosso que era roubado.




Quando comecei a me envolver com defesa do Direito das
Mulheres, fiz as pazes com o meu trabalho. Dedico ao João cada minutinho
passado longe dele. É um tempo que vale a pena, pois pode ser que eu esteja
ajudando seus futuros amigos a nascerem de forma respeitosa. As futuras
parceiras. A mulher da vida dele. Seus filhos e os filhos dos seus filhos. E eu
acredito, do fundo do coração, que nascer com respeito é essencial para o ser
humano.




Orgulho estar neste grupo, de mulheres que protegem as
mulheres."



*** Gabi Sallit, advogada e socióloga, hippie demais para o Direito e muito engomadinha para as Ciências Sociais, encontrou na maternagem algo no que se encaixa perfeitamente. É autora do blog Dadadá.





Saiba como denunciar a violência obstétrica AQUI.







segunda-feira, 13 de maio de 2013

Faces da Maternidade: Mães que mudam os planos.



Um dia vc vai achar que sabe tudo sobre a vida e sobre vc mesma. Até que vem a maternidade e muda tudo completamente. Aguça a intuição, te apresenta novos desafios, novos limites e uma infinidade de possibilidades.





"As mulheres desenharão portas onde não houver nenhuma. E elas as abrirão e passarão por essas portas para novos caminhos e novas vidas. Como a natureza selvagem persiste e triunfa, as mulheres persistem e triunfam. Aguarde. Confie. Faça sua parte. Você descobrirá seu próprio caminho." Clarissa Pinkola Estés.





Não há como negar: a maternidade é o melhor e mais eficiente convite à transformação. 








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Não sei como as outras pessoas costumam fazer suas escolhas para uma vida, mas posso garantir que as coisas que mais amo me escolheram. Foi assim com a minha cara metade, com meus filhos e com a costura! Estava à toa na vida e...fui arrebatada. 


Sou jornalista, trabalhava com isto havia uns sete anos. Trabalhei em redação de jornal, assessoria de imprensa. Pensava que, depois da chegada do segundo filho, iria trabalhar como freelancer e terminaria meus estudos na área para definir melhor o campo de atuação.







Eu gostava do trabalho: admiro quem faz jornalismo com ética e seriedade. Acho interessante aquela rotina maluca de não saber o que vem pela frente. Aquele sonho de entrevistar pessoas admiráveis, contar histórias marcantes, com um bloquinho na mão e mil sonhos de grandes coberturas na cabeça. 




Mas o mercado de trabalho tem outra realidade, principalmente em Santa Catarina. Logo de cara, sofri certa desilusão amorosa com a profissão. Precisava amá-la mais do que amava e, grávida do segundo filho, comecei a desistir. 


A jornalista resolve dar um tempo, e entra em cena a mãe, aquela que resolveu fazer o caminho inverso das amigas: não saía mais para o trabalho, mas ficava em casa, cuidando do ninho e das crias. Seria temporário até o desmame do bebê - dois anos, mais ou menos. A filha mais velha aprendendo a ler, descobrindo um mundo novo; o bebê ainda precisando muito de mim. 




Assim, à toa na vida, uma amiga me chamou pra fazer aulas de costura. Achei graça: logo eu, uma desajeitada - não ia dar muito certo. Resolvi testar e, na primeira peça costurada, toda torta ainda, meu coração bateu forte. Estava apaixonada. Outra vez. 




O possível hobby tem sido meu trabalho atualmente. E nele exercito a liberdade. Trabalho nos horários em que meu marido fica com as crianças, ou depois que elas dormem. Escolho com quem quero trabalhar, o que quero fazer (isso é bom demais da conta). Não sei  até quando, não sei qual será o retorno financeiro da empreitada. Estamos encaminhando o caçula para a escola e, em breve, poderei me dedicar mais à minha nova profissão: costureira! Ela tem me ensinado a criar, colorir o mundo do meu jeito. Nela exercito a paciência, persevero e vou atrás. 




O velho bloquinho de jornalista continua ali, cheio de ideias, desenhos, cores e páginas a preencher."





*** Cibele Garrido Godoy, ex-jornalista que é tão crafter que produziu as duas coisas mais fofinhas hand made do mundo: Bruna e Lucas.





quinta-feira, 9 de maio de 2013

Faces da Maternidade - Mães que geram com o coração


Houve um tempo em que o casamento objetivava apenas gerar filhos legítimos. Hoje o que caracteriza uma família é o vínculo afetivo, tendo inclusive, relevância jurídica. Casais se unem para ter uma comunhão de vidas. Isso é amadurecimento social!



Lembro de estar em sala de aula quando ouvi um relato muito fervoroso em favor da adoção. Era do professor, que apesar de não ser casado, sonhava com o dia em que seria pai e não o queria ser da forma tradicional. Questionado, ele respondeu:  amar, cuidar e respeitar um filho que foi gerado por vc é até uma obrigação prevista em lei; agora, não existe ato mais abnegado que escolher (ou ser escolhido) o filho de alguém para amar como se fosse seu. É essa é a capacidade de amar que quero pra mim.




"Adotar é acreditar que a história é mais forte que a hereditariedade, que o amor é mais forte que o destino." - Lidia Weber, psicóloga -














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"Neste extato momento, vivo uma fase tão gostosa de minha maternagem que escrever sobre este tema é realmente um prazer. Mas na verdade, como lá no "Contos de uma Mãe Pandora", eu quero começar contando uma conversa que aconteceu ontem aqui em casa:



Após uma traquinagem de meu filho mais novo (5a6m), sentei e conversei com ele em tom mais firme, sobre o que ele havia feito e após a bronca, emendei a seguinte frase:



- "Filho, a mamãe está brava com o que você fez e lembre-se, faço isto porque eu te amo."



Mas eu não sou mãe de poucas palavras e falo pra caramba, então, emendei mais esta:



- Tem muita mamãe que deixa os filhos fazerem o que querem e fecham os olhos pra muita coisa, mas eu não sou assim filho, faço isto porque quero o seu bem, você é muito importante pra mim. Eu amo você."



Bom, este hábito já é comum aqui em casa e o discurso também, então, meu filho entendeu e tudo ficou bem, MAS...meu filho mais velho (há nove dias de completar sete anos) completou:



- "Mas todas as mamães amam seus filhos e eu penso que se elas não estão nem aí pra eles, não deveriam tê-los. Deveria ser proibido uma mamãe que não sabe cuidar de seus filhos." (Claro que o português desta frase não foi dito desta forma, mas enfim, a ideia foi esta).



Olhei pra ele como quem olha para uma daquelas pessoas sábias, de cabelinhos brancos e com muitas histórias pra contar. E na verdade, apesar da pouca idade, posso dizer que é bem isto mesmo. Meus filhos chegaram até a mim de uma forma especial, ou seja, através da adoção. Os dois irmãos biológicos que quase foram separados um dia, chegaram até nós. G. estava com quatro anos e o L. com quase três.



Bom, retomando ao conto, olhei para meu filho e pensei em quantas conversas ainda teremos sobre este assunto. Quantas dúvidas e angústias ainda estão por vir dentro de um quadro como este, afinal, ser mãe é bem isto mesmo. É estar preparada para a realidade que bate a sua porta, independente da forma como você se tornou uma.



Dia 31 de maio deste ano, completaremos três anos juntos e posso dizer que dentro dos altos e baixos que vivemos, permanecemos mais tempo no alto. De lá pra cá muita coisa mudou na Juliana mulher. A Juliana do início, já não existe mais. O amadurecimento veio intensivo e as aprendizagens também. Assumimos (apesar do tema ser Dia das Mães, o maridão faz toda a diferença), eu e meu marido com "unhas e dentes" e um dia, ao chorar de exaustão, ele me segurou nos braços, me reergueu e ajudou a me livrar do fantasma família - gravidez - bebê - gutiguti - e foram felizes para sempre que ainda rondava de vez em quando esta mãe aqui. Quem nunca? Meu marido foi a peça fundamental para o sucesso da nossa adoção, da nossa relação parental e não me esqueço do dia em que ele me disse:



- "Esta é a nossa realidade. E olha que realidade mais linda!"



Eu diria que naquele momento o fantasma do comercial de margarina descrito acima, sumiu e com ele todas as questões mal resolvidas que eu ainda tinha em relação à minha infertilidade (abordo este assunto, pois sei quantas mulheres ainda passam por isso neste momento). O meu companheiro não me exigia nada convencional e isto foi e é muito bom ao optarmos pela adoção.



E digo, mesmo se a medicina criasse uma pílula de última geração para que eu pudesse engravidar neste momento, eu ainda assim, optaria pela adoção. Acredito que optaria novamente pois já faz parte de mim, é normal, é minha vida, é meu clube. AMO tanto meus filhos que não consigo vislumbrar nenhuma diferença entre as formas de amar, de amor. E quem sabe um dia, esta turma ainda não ganha mais um membro?! A única diferença é que não poderei fazer surpresa ao maridão:



- "Oi amor, escapou..."



Feliz Dia das Mães a toda e qualquer mãe que cuida, que educa e que deseja o melhor para seus filhos."






*** Juliana, escreve o Contos de Uma Mãe Pandora, onde narra a trajetória de uma mulher desde a descoberta da infertilidade até se transformar em uma mãe adotiva. Os co-autores são os filhos G. e L., irmãos biológicos, que nasceram em outra família, viveram em um abrigo durante dois anos e hoje moram na Suíça, onde possuem um lar, uma família e muita, mas muita história pra contar.








quarta-feira, 8 de maio de 2013

Faces da Maternidade - a série




Pensando numa ação para o dia das mães, resolvi convidar várias mulheres para falar da maternidade sob um prisma diferente, já que é pacífico o entendimento do quão impactante é ser mãe. Nessa série chamada Faces da Maternidade, quero enaltecer o trabalho de mulheres que lutam coletivamente para encarar esse papel da forma mais consciente possível.


Mães que ajudam a quebrar paradigmas; mães que inspiram com sua incessante busca, que mudam seus planos, que arriscam, que abraçam causas, que mudam de opinião, que geram com o coração, que lutam pelos direitos de outras mães.


Mães como eu e como vc.


Essa série foi pensada com muito carinho e vai durar todo o mês de maio. Porque não há melhor maneira de se comemorar o dia das mães, que contemplando as mais variadas formas de maternagem.








Linda ilustração da Anne Pires, especialmente para a série 










"Quando o poder do amor superar o amor do poder o mundo conhecerá a paz."









terça-feira, 7 de maio de 2013

O mito da caverna - o que essa alegoria tem a ver conosco?


Imagine um grupo de pessoas que habita o interior de uma caverna subterrânea. Esta é separada do mundo externo por um alto muro e que existe uma única fresta por onde passa um feixe de luz exterior. Todos que ali estão nasceram e cresceram presos por correntes, de costas para a entrada. Sem liberdade para se movimentar, sem nunca ter visto a luz do sol, sem nunca terem visto uns aos outros nem a si mesmos, eram forçados a olhar somente para a parede do fundo da caverna que é iluminada pela luz gerada por uma fogueira.



Nesta parede são projetadas sombras representando pessoas, animais, plantas e objetos - cenas e situações do dia a dia. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros acabam os associando às sombras. Os prisioneiros ali sentadinhos, no escuro, ficam dando nomes às sombras, analisando e julgando as situações. Tomam sombras por realidade e essa confusão, porém, não tem como causa a natureza dos prisioneiros e sim as condições adversas em que se encontram.











Acontece que um dos prisioneiros foi impelido a quebrar seus grilhões, inconformado que estava com aquela escuridão. Livre, decide se movimentar lentamente. A luz é tão forte que ele pouco consegue enxergar. Acostuma-se. Fica maravilhado com as cores, com os contornos precisos das coisas, com os animais, com as flores, com os sons. Fica dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Qual é a sua realidade afinal? Tudo que vê agora ou as sombras em que sempre viveu? Então, ao ver o sol brilhando no céu, ele compreende que é ele o responsável por dar vida a tudo que existe na natureza e que era, graças ao fogo da caverna que ele podia ver as sombras projetadas na parede.



Sente vontade de voltar para a caverna, onde tudo parece mais acolhedor. Mas ele precisa ver e esse aprendizado é doloroso. Superada a dor, ele se encanta e deseja nunca mais voltar para a caverna, para seus grilhões, para o mundo das sombras. Então ele começa a pensar nos outros companheiros e lastima a má sorte deles. Por fim, toma uma difícil decisão: voltaria a caverna para contar aos seus companheiros tudo o que viu e que aquelas sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade. Precisaria convencê-los a se libertarem também. Não por vaidade, mas por compaixão.









O que acontece nesse retorno?



Ninguém acredita nele. Zombam dele. Apontam para a parede e dizem que aquilo é tudo o que existe. É a única verdade. É a realidade. Por fim, acabam matando aquele que veio lhes dizer mentiras; aquele que perdeu o senso de realidade; aquele que é louco.



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O que a caverna? O mundo de aparência em que vivemos.



O que são as sombras projetadas no fundo? As coisas que percebemos.



O que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos e opiniões, nossa crença de que o que estamos percebendo é a realidade.



O que a luz do sol? A luz da verdade.



O que é o mundo iluminado pelo sol da verdade? A realidade.



Por: Marilena Chauí.



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O que a maternidade tem a ver com a alegoria mais lida no mundo filosófico? Qual a realidade que acreditamos ser imutável? Como agimos com aqueles que buscam a verdade?



Raiva.



Foi a primeira coisa que senti quando a primeira blogueira materna ousou sair da caverna, apresentando um mundo de possibilidades que escapavam às sombras que me eram tão familiares. Tudo soava tão presunçoso, tão cheio de raiva, tão intolerante, tão despeitado!



Já não me bastavam as noites insones? Já não me bastava a administração da culpa? Que tinha eu que me envolver naqueles discursos, que julgava teóricos demais para por em prática na minha vidinha doméstica?



Ao perceber que não se tratava de uma luta pessoal e que aquelas senhoras que antes trocavam fraldas não eram corruptoras da ordem vigente, resolvi sair da caverna em que me encontrava. Nunca me apeteceu o conformismo dos grilhões. Posso dizer que a luz é mesmo dolorosa. Transpor os obstáculos idem. Mas então vem o deslumbramento, que literalmente, significa ferido pela luz.



Do lado de fora é mais fácil perceber o sentido de todas as propostas e que a aceitação delas, visa tão somente o conhecimento - a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade. Entendida a premissa, não poderia me escudar na desculpa universal: de que o mundo é de determinado modo, que a realidade é essa e que nada poderemos fazer.



O que nos acorrenta é invisível.



O aprendizado é de fato, doloroso. Difícil não querer voltar pro lugar sombrio que sempre foi tão acolhedor. Como diz o Sakamoto, a ignorância é mesmo um lugar quentinho.





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"Na nossa cultura fomos treinados para nos diferenciarmos dos outros. De modo que ao olhar para uma pessoa, nossa reação imediata é inseri-la num modelo rico - pobre - preto e fazemos todas essas diferenciações dimensionais colocando-os em categorias e os tratando dessa maneira específica. Aí conclui-se que só vemos os outros separados de nós da forma em que eles estão afastados e caracterizados. E uma das mais dramáticas características da experiência de estar com outra pessoa e de repente reparar que certos aspectos são exatamente como vc, e não muito diferentes de vc, é experimentar o fato de que a essência que há em vc e a essência que há em mim, são no fundo, uma só: a compreensão que não existe um outro. Somos todos UM."



via Zeitgeist



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A vida é muito mais que as sombras projetadas.