terça-feira, 29 de outubro de 2013

Parto domiciliar humanizado - o relato de um pai






Somos amigos há bastante tempo e fiquei muito feliz quando soube que seriam pais. Foi lindo ver a busca desse casal por um nascimento respeitoso para seu filho com a clareza de quem sabe que caminhos seguir.



Segundo a psicoterapeuta argentina Laura Gutman " O homem e a mulher só conseguem se transformar em um casal de pais quando há apoio mútuo."




Fiquei ainda mais feliz quando o Lucas aceitou meu convite para que escrevesse este relato de parto, mostrando que o pai tem um papel essencial na gravidez, no parto, no puerpério e principalmente, na vida do seu filho. Mostrando também como é importante estarem juntos, conscientes e conectados para essa grande travessia que é o parto.








parto domiciliar humanizado, relato de parto do pai, paternidade ativa, paternidade





* por Lucas Brito



Uma e meia da manhã: - Vem cá...acho que a bolsa estourou. Com estas palavras, me levanto da rede e me encaminho para o banheiro. Lá chegando, vejo minha esposa num estado de tranquilidade aparando aquele líquido translúcido que não parava de descer. 





A partir desse momento começou-se um processo de transmutação, talvez tão intenso quanto a de uma terra plana para uma terra redonda; como se alguém tivesse ajustado as lentes da vida. O nascimento de meu filho, sem dúvida, foi o momento mais espiritual, sagrado e divino pelo qual já passei e, também sem dúvida, é o evento que mais desejo para todos aqueles que terão filhos e principalmente, para aqueles que irão nascer.





Ok, bolsa rompida. O que fazer? Ela enviou mensagens de aviso para a equipe de plantão (doula, amiga, parteira e enfermeira) e eu...bem, naquele momento meu primeiro impulso foi o de esvaziar por completo meu guarda-roupa, dobrar cada roupa e reorganizar cada peça (acho que na hora pensei: como vou criar alguém se não consigo manter um guarda-roupa?) =) Com uma boa dose de humor ela perguntou o que eu estava fazendo e voltou a se deitar. Feito isso, coloquei panelas de água para ferver e fui varrer varanda, sala e cozinha. É válido deixar claro que isso não foi feito de modo a dissipar uma suposta tensão, pelo menos não de modo consciente, mas sim de plena tranquilidade. Num sentimento de deixar a casa limpa para receber o pequeno ser. 





Quarenta minutos após a bolsa estourar as contrações já estavam de cinco em cinco. A mãe buscava qualquer posição que pudesse lhe amenizar o desconforto. Em alguns momentos eu lhe perguntava  sobre seu estado, apenas para perceber que ela havia entrado em outro transe. Aos meus olhos, a cada minuto que passava aquela menina bela e risonha ia ganhando a força e presença de uma guerreira matriarca. A cada minuto que passava eu ia me sentindo mais dentro de uma força condutora da vida. Isso trazia tranquilidade. 





Aproximadamente às 4:30 da manhã uma amiga "convidada especial" chegou. Ficávamos sentados, calados, observando cada movimento da mãe. À medida que as contrações aumentavam e ela entrava nestes transes, eu ia me sentindo cada vez mais envolvido por uma força feminina; como se estivesse tendo a permissão de participar de uma espécie de ritual secreto pertencente às matriarcas. 





Ao vê-la posicionada de joelhos de frente para a cama, instintivamente fui para trás e me posicionei de modo a receber aquele pãozinho que há 39 semanas cozinhava ali dentro. Observava cada contração, cada gesto. Às 5:40 a parteira chegou. Pedi para a amiga abrir o portão. Não podia sair dali naquele momento por nada. Pensei: "como será que faço para saber a dilatação?" Quando olhei por entre as pernas, já era possível ver os cabelos molhados...estava coroando. Posicionei a mão direita de modo a sustentar a cabeça e com a mão esquerda fiquei pressionando o períneo. Quando a parteira chegou, mostrei a coroação e ela confirmou que o momento estava bem próximo. Com muita delicadeza e vendo que eu estava ali preparado, ela se posicionou ao meu lado e ficou ali como que uma rede de segurança.





Contração...contração...contração...e eis que a cabeça sai. Olhei. Sorri. Aquela carinha roxa-azulada me tomou a atenção. Após saber que essa coloração era normal, me tranquilizei. Na próxima contração seria o corpo. Durante a contração fiquei com medo de não aparar com uma mão e acabei removendo a outra mão do períneo.





Numa fração de tempo, que era ao mesmo tempo instantânea e eterna, tive a bênção de poder viver o milagre da vida. As cores mudaram, os sons, os cheiros...





Pude sentir e vivenciar a magia desse ritual essencialmente feminino. Vivi meu feminino e tive prazer nos ensinamentos apresentados.  Às 5:55, com o cantar dos pássaros e com os primeiros raios de sol, nasceu o pequeno grande Otto.





Instintivamente pensei em trazê-lo para perto. Sabiamente a parteira disse que o cordão era curto que deveríamos passar ele por baixo das pernas da mãe. Passei a criança para a parteira, que limpou a boca do pequeno com gaze e logo o entregou a sua mãe. Eu, mãe e filho ficamos ali, no chão de nossa sala, abraçados. Pouco depois chegou a enfermeira. E na sequência nossa querida amiga doula que ainda tentou dirigir mais de 200 km para chegar a tempo, mas não deu. =)



Lentamente fomos limpando aquele ser...

Limpávamos com abraços, limpávamos com com amor. Vinte minutos depois dele, veio a placenta. Esperamos parar de pulsar, a enfermeira colocou o grampo e tive o privilégio de cortar o cordão.



Enfim...20 dias vividos. Posso dizer que muitas revoluções no campo das ideias e concepções ocorreram e continuam a ocorrer. Despreparo médico generalizado (mas não absoluto), violência disfarçada por trás dos partos hospitalares, desconsideração da mulher e criança como principais protagonistas, falta de crença na própria biologia corporal por muitos, incompatibilidade entre carga-horária de trabalho e atividades parentais, processos educativos, etc. Agora acho que o tempo vai encaixar cada coisa em seu devido local. Por ora vou me ocupando esfregando e trocando fraldas, fazendo as refeições, sucos e chás buscando dar a ambos o merecido período de resguardo.



No final, não posso deixar de expressar minha mais sincera gratidão à equipe de acompanhamento Mãe do Corpo (Kelly e Semírames), nossas queridas Karla e Liana e a linda obstetra que conhecemos recentemente, Drª Liduína Rocha. Foram todas pessoas de muita luz que surgiram em seus devidos momentos para que pudéssemos chegar ao tão esperado momento em que O holofote acendeu em nossa sala.



Grato.



* * * * *



Que mais homens possam romper com os paradigmas e se permitam se construir como pais.

Que a paternidade ativa reverbere!






sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Maternidade e carreira - como não conciliar essas duas coisas - BC - FemMaterna



blogagem coletiva, carreira x maternidade, desafios da mulher no mercado de trabalho





O primeiro sentimento que tive ao receber a notícia da (primeira) gravidez foi: vergonha.






A recebi como uma sentença, como uma fatalidade. "Sua vida acabou", ouvi de várias pessoas e senti o peso de cada uma dessas letras. Não era tão nova, mas sentenciada estava por ter posto meu futuro promissor em risco.





Naquele momento e no ambiente de trabalho opressor, tudo o que eu conseguia sentir era incômodo e inadequação. Sentia-me desnuda aos olhares dos outros. Minha sexualidade nunca foi tão exposta. Estava grávida e isso indicava uma vida sexualmente ativa. A gravidez veio para mim como um castigo.






Com o pouco apoio que tive no ambiente de trabalho e o apoio incondicional do meu marido, ergui a minha cabeça e decidi seguir em frente, com a gravidez inclusive. Esta seguiu tranquila e sem intercorrências que me fizessem sair do ambiente de trabalho, mas sempre que precisava me ausentar por conta das consultas de rotina do pré-natal, este afastamento devidamente justificado com atestados médicos era visto com um quê de desconfiança. E os olhares eram sempre muito pesados e jocosos.





É muito difícil ser mãe e empregada celetista. (regida pelo CLT)





Lembro do frio na barriga que senti no retorno da licença-maternidade. É sabido que muitas mulheres perdem seus empregos nesse período em que tanto precisam deles, embora a legislação garanta a estabilidade da empregada gestante a partir da confirmação de gravidez, mesmo se o contrato de experiência e de acordo com a Lei 12.812/13 que acrescentou o art. 391-A à CLT:  a empregada gestante passa a gozar de estabilidade provisória desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto, ainda que durante o aviso-prévio trabalhado ou indenizado. Felizmente nada aconteceu comigo.





Naquela época, eu tinha vínculo empregatício e meu marido não. Foi então que ele decidiu ficar em casa com a nossa filha e assumir os cuidados diários com a casa e com o bem estar da pequena. Não posso negar que para mim, foi um alívio. Evitou a ida (precoce) dela para um berçário e possibilitou minha ida para o trabalho em tranquilidade. Tive esse apoio e aquelas que não tem?









Essa tranquilidade durou poucos meses. A necessidade de dinheiro o compeliu a procurar trabalho o que mudou por completo a configuração inicial. Decidimos contratar uma empregada para que a Bia não tivesse que sair de casa, mas era muito doído sair e deixá-la sob os cuidados de uma estranha. Trabalhar deixou de ser um prazer, um objetivo de vida e passou a ser um tormento.



Era uma situação muito pouco confortável. Tinha em minha casa uma mulher que também era mãe para cuidar da minha filha para que eu pudesse trabalhar. Essa mulher por sua vez, deixava os filhos dela com outro alguém para poder, também, trabalhar e contribuir para a renda em seu lar. Ela tinha seus motivos para faltar ao trabalho. O que me levava a faltar também.



Passei a nutrir o desejo de não ter que sair de casa para trabalhar. Sentia uma necessidade enorme de estar junto com a minha filha e assumir a autonomia na minha maternagem.



Tudo mudou quando meu marido passou num concurso público federal, o que nos levou de mala e cuia para Manaus. Numa cidade estranha sem conhecer ninguém, sem o apoio de parentes ou amigos, decidimos que ficaria em casa. Sozinha e com minha cria.



Ao contrário do que apregoa o senso comum, me senti realizada por estar em casa. Absolutamente plena, o que aumentou a cobrança social. As pessoas não entendem e não acolhem as opções de vida do outro:











Nesse tempo dedicado a minha maternagem, me redescobri, planejei e pari outro filho! Nos mudamos de cidade e para ele pude me dedicar todo o tempo de que dispunha.

Todos esperavam que por eu estar em casa o tempo inteiro, sem trabalhar, todos os cuidados relativos aos filhos estariam sob minha exclusiva responsabilidade. Mais uma vez contrariamos o senso comum e meu marido passou a ouvir a seguinte pergunta no ambiente de trabalho, sempre que se ausentava (amparado na Lei 8112/90, art. 83): esses meninos não tem mãe, não?



Nesse sentido Iara Domingos questiona:





O FILHO DA MÃE! Da mãe que trabalha!!!








"Como Conciliar o trabalho( os afazeres domésticos) e o filho dentro de um relacionamento "igualitário"? Essa resposta eu não tenho, aliás até onde vai a igualdade das relações MATERNA/PATERNA com a cria? talvez ela não exista e o tal mito do "instinto materno", seja realmente verídico e alimentado pela sociedade patriarcal, afinal de contas, que chefe irá enxergar com bons olhos e romantismo a falta do seu empregado para o acompanhamento de uma consulta médica do filho, O FILHO É DA MÃE oras. Quantas mães tem que se desdobrar para deixar o filho a com a avó, em creches com o peito apertado para enfrentar mais um dia de trabalho? será que é o mesmo drama do pai ao cruzar a porta para mais um dia de trabalho? Sou estatutária, professora (ou seja péssimo salário, mas estabilidade trabalhista) abri mão de dar aula em mais de uma escola, de uma renda extra para poder criar e educar meu filho, mas e o pai será que faria o mesmo? Não, não faria e meu drama é até onde eu consegui implantar minhas ideologias feministas na maternagem e onde deixei de ser feminista para maternar?"




Sempre considerei o meu afastamento do mercado de trabalho como um tempo e não como algo cristalizado, imutável. Senti necessidade de voltar para a minha graduação, que não foi deixada de lado por conta da maternidade. O motivo foi outro. Voltar a estudar naquele momento, com meus filhos mais crescidos e com o apoio do meu marido foi reparador.



Mas enquanto escrevia esse texto, percebi os desafios que também me acompanham no ambiente acadêmico. Agora que estou no turno da noite, sou obrigada a faltar mais do que gostaria. E por que sou "obrigada"? Porque meu marido tem viajado muito e passa a semana fora, como essa por exemplo. Com quem deixar meus filhos? Embora eles já fiquem sozinhos, tem dias que simplesmente não consigo cruzar aquela porta. E falto aula. Alguns professores que não sabem da minha história, nem teriam como saber o caminho que cada aluno precisa percorrer pra estar "presente", me olham torto, me julgam. Faltar significa que me falta comprometimento. Olha, até poderia ir (como vou muitas vezes) mas deixar meus filhos sozinhos durante uma semana inteira é uma responsabilidade muito grande que jogo na Bia, então prefiro deixar meu coração falar mais alto e optar pela tranquilidade.



Este foi o comentário da Dany Santos, que ilustra bem essa pressão no meio acadêmico:









Gostaria muito de voltar a trabalhar, mas não tenho como assumir uma jornada de 8h diárias. Até o estágio deixou de ser uma saída, visto a carga horária de 6h + deslocamento, torna essa opção inviável. Por que não nos possibilitam uma jornada mais flexível, mais curta com salário proporcional? Isso permite a manutenção dos homens no âmbito público e as mulheres no privado.



O home office tem sido uma saída para que muitas mulheres reconfigurem a organização familiar e possam estar ao lado dos filhos mas funciona para todas as mulheres, em todas as famílias, em todas as áreas?









E para aquelas que como eu, não tem vocação para empreender? Que não possuem habilidades manuais? Que não são jornalistas ou publicitárias - geralmente duas áreas que permitem o trabalho nesse formato?



Muitas mulheres se sentem acuadas pelo sistema que nos cobra sucesso profissional e excelência na criação de filhos.



Desculpa, sociedade, mas muitas mulheres não veem saída a não ser renunciar por um tempo suas vidas profissionais em favor dos filhos e por que não de si mesmas. Existem diferentes formas de realização e para sermos completas não necessitamos necessariamente de uma carreia.



É que a ambição de "ser alguém" deixa de ser a coisa mais importante nas nossas vidas. Sinto-me muito mais empoderada para estabelecer prioridades na minha vida, que podem mudar com o tempo.



















*** Esse texto faz parte da blogagem coletiva proposta com o FemMaterna cujo objetivo é refletir sobre o que podemos fazer, como coletivo, para acolher as demandas das mães. No meu caso, mais perguntas que propostas. Sigo na tentativa de uma recolocação que respeite uma jornada flexível e minhas aptidões.





quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sobre o peso da inadequação





daqui





Todo mundo tem vagina. Ou gosta de uma.


Seja peluda ou pelada.


Toda mulher saudável menstrua. Ou um dia já menstruou.


Mas ninguém gosta de falar sobre isso. Causa repúdio. Causa nojo. A tal ponto de não a chamarmos pelo nome. Na tentativa de lhe estirpar o poder, lhe atribuímos apelidos. Toscos.





Muita gente inclusive, deve estar se perguntando o porquê de um blog focado na maternagem estar falando de vagina. Afinal, vagina nada a ver com maternidade, não é mesmo? Talvez (só talvez) a gente tenha tanta dificuldade em sentir prazer, parir, em aleitar.





Acontece que eu tenho uma filha. Que tem vagina. Que menstrua


Que está com seu corpo em pleno desenvolvimento. Quase que por completo desenvolvido.





Como todo mundo, ela tem pelos. Ela tem fluidos.


E por causa disso já começou a chamar atenção da sociedade. 


Da sociedade que não fala em vagina, que tem nojo dos fluidos, que tem pavor de pelos. A mesma que não gosta de mulheres.





Já estão ensinando a minha menina-moça-que-um-dia-será-mulher a sentir o peso da inadequação. O peso da insatisfação. O peso dos julgamentos. Estão ensinando a minha filha que existe um padrão a ser correspondido, que tem um objetivo a ser alcançado: o da perfeição do corpo.





Não. Não é isso que eu, como mãe, quero ensinar. Não é isso que ela deve aprender.


Quero que ela aprenda o poder que tem como mulher e de como é importante a aceitação do feminino. Quero que ela veja esses padrões como uma tentativa pífia de fazê-la se sentir inferior e de como isso é lucrativo para quem os cria. Quero que ela sinta amor por seu corpo, por ser quem é, do jeito que é. E que isso não a impeça nunca de ser feliz.





"Merecemos mais - mais que ter dias horríveis por pensamentos ligados a nossa péssima forma física, desejando que ela fosse diferente. E não é só sobre você e eu. É também sobre Violet. Sua neta tem apenas 3 anos e eu não quero que esse ódio ao corpo tome conta dela e estrangule sua felicidade, sua confiança, seu potencial. Eu não quero que ela acredite que a aparência é o maior ativo que ela possui, e que vai definir o valor dela no mundo. Quando violet nos olha para aprender a ser uma mulher, precisamos ser os melhores modelos que pudermos. Precisamos mostrar pra ela, com palavras e com as nossas ações, que as mulheres são boas o suficiente exatamente como são. E para ela acreditar, nós precisamos acreditar primeiro."





Trecho do texto "Quando sua mãe diz que é gorda", que precisa ser lido por todos e que propõe uma reflexão urgente.





Faço aqui um convite (apelo): tenham essa conversa com seus filhos. Mostre a eles que perfeição é um conceito imaginário portanto, inalcançável. 




Que devemos aceitar as pessoas pelo que elas são, não pelo que aparentam ser.








terça-feira, 8 de outubro de 2013

ESTOU DE OLHO - porque a regulação é para a publicidade e não para a sua conduta









infância livre de consumismo, publicidade infantil, estou de olho






O PL 5921/01, que visa regulamentar a publicidade infantil no país está em tramitação há (longos) 12 anos e não é difícil imaginar os interesses que impedem a sua aprovação. Em setembro o projeto foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça e aguarda há quase vinte dias a designação de um relator, coisa que acontece normalmente em alguns (poucos) dias. Nossa torcida é que este siga o quanto antes para a apreciação do Senado.



O mercado busca se fortalecer criando na sociedade a falsa ideia de que não é o Estado quem deve regular as relações de consumo sob pena de ferir a livre expressão comercial e que a responsabilidade é sim, exclusiva da família. Será que é só isso mesmo, dizer não e desligar a tv?



Eles se unem para preservar seus interesses e nós, a sociedade o que fazemos?



A campanha #estoudeolho veio com o objetivo de dar voz a sociedade e de mostrar a nossa força como grupo. Saiba como ajudar aqui.



Você sabe como é a regulação da publicidade pelo mundo? Eis alguns dados que nos fornecem uma perspectiva maior desse problema:







  • Suécia: é proibida a publicidade na TV dirigida a criança menor de 12 anos antes das 21h.

  • Inglaterra: é proibida a publicidade de alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sal durante a programação de tv para público menor de 16 anos.

  • Bélgica: é proibida a publicidade para crianças nas regiões flamencas.

  • EUA: limite de 10min e 30s de publicidade por hora nos finais de semana, 12 min por hora nos dias de semana. Proibido o merchandising testemunhal.

  • Alemanha: os programas infantis não podem ser interrompidos pela publicidade.

  • Canadá: é proibida a publicidade de produtos destinados à crianças em programas infantis. Quebec: é proibida qualquer publicidade de produtos destinados à crianças de até 13 anos em qualquer mídia.

  • Dinamarca: é proibida qualquer publicidade durante os programas infantis, e ainda, 5 minutos antes e depois.

  • Irlanda: é proibida qualquer publicidade durante programas infantis em tv aberta.

  • Holanda: não é permitido publicidade dirigida às crianças com menos de 12 anos na tv pública

  • Áustria: é proibida qualquer tipo de publicidade nas escolas.

  • Itália: é proibida a publicidade de qualquer produto ou serviço durante desenhos animados.

  • Grécia: é proibida a publicidade de brinquedos entre 7 e 22h

  • Portugal: é proibido qualquer tipo de publicidade nas escolas.

  • Noruega: é proibida a publicidade direcionada à crianças com menos de 12 anos. Proibida qualquer publicidade durante os programas infantis.





{fonte: documentário Criança, a alma do negócio}






Por que devemos repensar o consumo?



Recentemente assisti ao "A História das Coisas", que é um vídeo de 20 minutos apresentado pela ambientalista Annie Leonard que trata de forma simples, sarcástica, acelerada e divertida os padrões de produção e consumo e suas implicações na sociedade e na natureza desse sistema compre-use-descarte, passando pelos cinco estágios da economia - extração, produção, distribuição, consumo e descarte.



Dentre todos os assuntos abordados nesse filme tão curtinho, destaco um: a obsolescência perceptiva. Esta é irmã da obsolescência programada, que consiste no consumo de bens que se tornam obsoletos antes do tempo. A diferença entre elas é que a obsolescência perceptiva nos convence a jogar fora coisas perfeitamente úteis. Tem a função de mudar a aparência, o design das coisas para sinalizar para os outros que vc está fazendo o círculo da economia girar através do consumo.













Os produtos que ostento, agregam-me valor. A ideologia publicitária nos leva pra uma disputa de quem tem mais e melhor. Isso interfere não só nas relações interpessoais mas no status de classes. Afinal, qual o objetivo de um anúncio senão nos fazer infelizes com o que temos? Todas as nossas frustrações serão resolvidas se formos às compras? 



As corporações hoje detém o poder de controle do Estado que um dia foi da Igreja.

A maneira como nos relacionamos em sociedade é baseada no consumo e vemos que não só há, uma mercantilização das relações humanas, como de toda a humanidade.





Governo e indústria andam de mãos dadas








  • Ministério da Saúde concede título de PARCEIRO DA SAÚDE à McDonald´s. Profissionais da saúde protestam. (aqui)

  • ANVISA é alvo de críticas por abrigar exposição patrocinada. Mostra com infográficos sobre obesidade tem o apoio da coca-cola. A obesidade pelo olhar da infografia tem o patrocínio da coca-cola. (aqui)




É como costumo dizer: o problema nunca poderá ser parte da solução.





E nós com isso?





Conheço muitas pessoas que não corroboram com a campanha que visa regular e restringir a publicidade voltada ao público infantil por inúmeros motivos:






  •  por defenderem o mercado e achar que o Estado nada tem a ver com isso;






Será que dá pra defender o mercado sabendo que a publicidade atinge as classes AB da mesma maneira que atinge aqueles que não tem condição de comprar comida? O apelo ao consumo é aplicado indistintamente. Quais as implicações sociais? Isso não me parece muito democrático. Quem se preocupa com isso? Quem se preocupa com eles, àqueles que não tem condição de comprar comida?



"Os defensores da televisão, os anunciantes e os publicitários se escudam em uma desculpa cínica e universal segundo a qual a culpa é de quem liga a televisão. Basta desligá-la para evitar tudo isso, dizem, com hipocrisia. Como qualquer sofisma, soa lógico. Mas atenta contra o valor da responsabilidade. O conteúdo dos anúncios destinados a captar consumidores infantis é psíquica e moralmente venenoso." Sergio Sinay






  • por não se sentirem ausentes na criação de seus filhos; por terem consciência de seu papel como mãe/pai/cuidador e por terem certeza de que cumprem com seu papel na atenção dispensada aos seus diariamente; 






A meu ver, isso acontece com quem gosta de se usar como parâmetro, com quem não consegue vislumbrar a realidade do outro, anulando sua existência.



Acredito que seja muito pouco produtivo negar o debate e rechaçar as pessoas que arduamente se propõem a contestar a omissão do Estado como "patrulha do politicamente correto", "radicais", "xiitas". Será mesmo que não se faz urgente discutir e achar o equilíbrio em nossas relações de consumo? Que não seja por seu filho, que seja por outras crianças.



Seu filho não toma refrigerante? Que bom, pois saiba que:




* 56% dos bebês tomam refrigerante frequentemente antes do primeiro ano de vida.

    fonte: UNIFESP: departamento de comunicação institucional




"Abra a felicidade" - é o que eles anunciam.




* O brasileiro consome cerca de 51 kg de açúcar por ano. São mais de 4 kg por pessoa por mês. O consumo excessivo de açúcar contribui para a morte de 35 milhões de pessoas por ano no mundo. O equivalente a população do Canadá.


  fonte: Journal Nature - The toxic truthabout sugar apud Portal Terra








Deve-se parar de pensar em si mesmo como consumidor para que reste claro que regular a publicidade não é uma tentativa de regular suas escolhas. Só assim passará se sentir parte de uma coletividade. Como diz Raphaela Rezende: quando vc  tenta compreender o outro baseado no que vc mesmo gosta, na sua realidade, é egoísmo. 





Não, vc não é a régua do mundo.






Deve-se começar a pensar e sobretudo, a agir como cidadãos.








terça-feira, 1 de outubro de 2013

Pelo direito de permanecer de pijama

Há um tempo atrás li um texto da Ro Lippi no Projetinho de Vida e a metáfora que ela usou para falar da relação dela com a blogosfera foi tão boa que nunca mais esqueci. Fui procurar o texto para linkar e levei um susto com a data em que ela postou. Sim, faz mais de um ano. O que significa dizer que há mais de um ano ando levando esse blog sem muito ânimo.



Ro dizia assim: "Antes eu me sentia totalmente à vontade nesse universo bloguístico, era como se eu pudesse andar descalça, de shorts e de cabelos despenteados porque todo mundo era de casa. Agora me sinto um pouco estranha. Tanta gente nova e tanto blog bom que eu me sinto obrigada a botar uma maquiagem e uma roupa arrumadinha pra sair de casa, sabe como? Tive que abandonar aquele pijamão, e tem dias em que não me sinto mais tão à vontade." (leia na íntegra aqui)




O Balzaca Materna vai completar três anos em outubro e nasceu de uma necessidade egoísta: a de passar a minha vida a limpo. Na verdade, essa foi a ideia de uma terapeuta que pretendia trabalhar a minha assertividade. Escreve - ela disse. Vai te fazer bem. Como escrevi a minha vida inteira me questionei o porquê de ter abandonado o hábito e assim nasceu o BM.





O primeiro ano foi o melhor de todos. Estava empolgada e deslumbrada com o tamanho da blogosfera e com todas as conexões que poderia fazer através dessa ferramenta. Vibrava a cada novo comentário a cada novo seguidor. Tinha assunto de sobra. Tudo era novidade, meus filhos eram menores e eu não fazia nada (hohoho) além de ficar em casa com eles. Ao voltar pra faculdade, custei a voltar ao ritmo de estudos, a conciliar os afazeres de casa e os cuidados com as crianças. Foi aí que deixei de lado a blogosfera para me dedicar a outras leituras menos prazerosas, mais complexas...



No segundo ano, murchei. As postagens diminuíram bastante e a minha interação na rede idem. Muito embora esse afastamento tenha me propiciado acompanhar movimentos que, apesar de julgar importantes, me mantinham afastada. Parada mas em constante movimento. Isso me possibilitou uma síntese, um amadurecimento. Hoje me sinto inserida nestes movimentos, mas mantenho distante o tom professoral. Aliás, essa nunca foi minha intenção, justamente por entender que as relações humanas são demasiado complexas. Estou aqui mais para aprender, para refletir, informar do que para ensinar. 





Pensei em parar de blogar milhares de vezes. Uma vez até anunciei uma pausa breve para testar minha vida sem essa fonte de escapismo. E como resposta recebi um carinho sem precedente! Pouco depois, voltei com a cara mais limpa do mundo. Não consegui.





Quando penso em desistir, programo uma mudança no layout, como se fosse a casa a culpada por minha falta de inspiração. De fato não é. A verdade é que a blogosfera está bem mais exigente com o conteúdo dos textos. Não se pode mais blasfemar escrevendo bobagem. Na verdade, isso é mais a forma como percebo o movimento, entende? E não uma cobrança real. 





Confesso que nem sempre tenho saco nem tempo nem inspiração para escrever um artigo científico por dia. E sinto muita vontade de voltar a escrever sem muitos compromissos. Muitas vezes tenho vontade de sentar e escrever sobre como me sinto em dias de chuva. Ou como dias de sol me deixam mais felizes. Ou compartilhar aquela receita maneira de bolo de banana.





Esse é meu lazer, meu prazer.





Bom, ali no lado direito tem uma imagem convidando meus leitores a responder uma pesquisa - dessas que os blogueiros fazem pra preparar media kit e já adianto que propus esse questionário com o objetivo oposto. Agora tenho dados suficientes pra espantar qualquer assédio comercial, como manifestei nesse post, sinto vergonha por ter topado fazer publieditoriais para grandes empresas.





Gente, na boa, se eu soubesse que vcs seriam tão maravilhosos ao responder esse questionário, teria proposto há meses. Muita gente respondeu e o melhor de tudo foi terem doado um pouco a mais de tempo para deixar algumas sugestões. Vamos às considerações a esses comentários?




Uma das leitoras disse sentir bastante falta de postagens com dica de filme. Verdade seja dita: de fato não tenho assistido a muitos filmes. Na verdade, há séculos não assisto a um bom filme. Outras disseram que o intervalo entre as postagens é muito longo. Concordo e acho que expliquei o porquê.





Uma outra sugeriu algo fantástico: a participação dos leitores. Nos use - ela pediu. Adoro a ideia e confesso que isso já me passou pela cabeça há séculos, mas apesar de desavergonhada, sou bastante tímida. Portanto, quem quiser escrever, sugerir ou mesmo bater um papo sabe onde me encontrar, né gente? Ali tem e-mail, facebook, pinterest...mesmo tímida, sou facinha.





Uma única leitora mencionou a falta de resposta nos comentários, coisa que antes de frequentar uma fábrica de diplomas (aka faculdade), eu fazia com o maior prazer. Hoje, além de não ter tempo, muitas de vcs não habilitam o e-mail, de modusquê nunca dá pra responder diretamente. Estou programando uma (outra) reforma no blog e vou procurar um mecanismo porreta que me permita responder a todos.



Como não sou boba nem nada, perguntei o que os leitores achavam do blog e as respostas todas falavam do meu estilo, das reflexões que meus textos suscitam, da maneira identitária com que escrevo...isso me surpreendeu sobremaneira e vou lhes dizer por quê.



O que me motivava a querer parar de escrever era justamente achar que postagens pessoais não eram atraentes para o leitor. (risadas) Que ninguém mais queria saber disso, que eu já não tinha mais lugar nesse mundo blogosférico. (mais risada). GENTE! Por isso foi tão gostoso e tão surpreendente ler as centenas de comentários nesse sentido. E o melhor foi ler coisas como: continue; vá em frente; não pare. (lagriminhas) Gratidão a todos os envolvidos.



O mais engraçado disso tudo é constatar que as cobranças nem sempre são reais, externas a nós e perceber principalmente como a cobrança interna, por preciosismo, por perfeccionismo nos limita e nos engessa.



Nos libertemos todos dessas armadilhas, mas pleiteio meu direito de permanecer de pijama.

Estamos conversados?