segunda-feira, 31 de março de 2014

Parto domiciliar desassistido - o relato


O relato do parto desassistido que segue baixo, escrito por Elisa Lorena, chama atenção para a força surpreendente do feminino, de se experimentar integralmente como mulher, como indivíduo forte e seguro de suas escolhas. Revela o empoderamento na sua essência, na busca por um parto natural, domiciliar e muito respeitoso. Ela estudou e desde sempre teve a certeza de saber-se capaz de trazer à vida sua filha e venceu todas as suas dúvidas cercando-se de muita informação e preparando corpo e mente para esse momento que mudaria para sempre sua vida e marcaria a forma ativa na sua maternagem.



Por: Elisa Lorena





ATENÇÃO: isso não significa que eu (ou esse blog) apoie o parto desassistido. As evidências científicas não amparam esse tipo de parto. Apenas foi a minha escolha.





O nascimento de Yara





A preparação





Minha família é cesarista do tipo "normal quando dá, né?". Então todos os relatos de nascimento são de cesáreas urgentes e salvadoras. Eu achava isso normal, como uma alternativa para se evitar a dor. A verdade é que eu nunca tinha pensado no assunto.





Já Thomas, meu companheiro, tinha uma visão diferente. Ele me disse que parir não é mais opção em nosso sistema privado de saúde, o que dirá ter um parto respeitoso.





Resolvi estudar. Felizmente na era dos blogs maternos e dos grupos do Facebook, tive muito material. Recebi emprestado também alguns livros úteis, como o "Parto com Amor" e "A Cesariana", e o maravilhoso filme "Parto Orgásmico".





Passei a questionar tudo que eu sabia sobre parto e maternidade. Questionei a analgesia, a posição de parir, a ocitocina, o nitrato de prata, o clampeamento do cordão, a separação do bebê da mãe e todo o pacote de intervenções.





Descobri que o plano de saúde não me seria útil, que parir em hospital pelo SUS seria furada, e que a casa de parto não era meu sonho (o ambiente ainda era hospitalar demais).





Desejei ardentemente um parto em casa, e o Thomas me disse que apoiaria integralmente o que eu quisesse, mas ele não achava viável ter uma equipe em nossa pequena kit.





Uma noite, com 9 semanas de gestação, eu estava tomando banho me "vi parindo", "vi o bebê saindo" do meu corpo, cheio de vérnix. Tudo desenrolou em minha mente. Avisei o Thomas: "se prepara que ela vai nascer aqui em casa!" Naquele momento para mim estava decidido.





Estudei, estudei, estudei.





Conheci uma enfermeira parteira maravilhosa, a Silvéria, que me acompanhou no pré-natal no hospital público HUB. Fiz todos os exames e segui todas as orientações que eu achava pertinente dosando bem a alimentação, as atividades físicas e o repouso. Contei com o apoio do Grupo de Gestantes do HUB e os grupos virtuais, tais como Gravidez, Parto e Maternidade.





Preparei o corpo, fiz atividade física a gestação inteirinha (natação, yoga, corrida, caminhada, ginástica localizada de preparo para o parto e pós-parto), exercitei períneo, fiz massagens.





Eu fiz a preparação da casa, comprei a piscina, a barra de exercícios, mangueira. Comprei um monitor de frequência cardíaca fetal, comprei docinhos, chocolates, frutas, incensos. Escolhi as músicas. Organizamos a logística.





Imprimi uma lista com o nome de todos os profissionais humanizados que atendem na minha cidade (só porque o marido pediu).





Assisti vários vídeos de parto. Mandei os links para o marido, que viu também. Estudei com atenção as fases do trabalho de parto e fiz o marido estudar comigo. 





Estudei, estudei, estudei. Estudei quais sinais do meu corpo eu deveria ouvir para pedir ajuda ou para saber que tudo está correndo bem.





Quando foi chegando perto do final da gestação, senti minha força interior crescer, senti a força de mil mulheres em mim. Eu sabia que tudo correria perfeitamente. Mesmo se algo saísse dos planos eu não sentiria culpa, assumi totalmente a responsabilidade. Senti-me pronta para qualquer resultado.





Assisti duas vezes no cinema o filme "O Renascimento do Parto". Nada me marcou mais do que a frase dita nele: "Nós sabemos parir. Nós mulheres gostamos de parir". Isso! Era um parto gostoso que eu me providenciaria.





Assumi para mim a responsabilidade. A responsabilidade de todo e qualquer resultado, sabendo que todas as opções tem riscos, em maior ou menor escala.





Tudo para dar a minha filha a chance de ter a melhor forma de nascimento, ou no mínimo, um prazeroso trabalho de parto. A melhor que eu conheço entre todas: eu e meu marido, com respeito, carinho, amor, aconchego, serenidade. Somente a nossa energia envolvida no nascimento.




empoderamento, força do feminino







O parto





A bolsa rompeu às 3h45 do dia 17 de dezembro. Fiquei super empolgada! Fui tomar meu banho e vi o tampão no chão do banheiro. Thomas me perguntou o que fazer e a resposta foi: "forrar o colchão com o plástico e dormir o máximo possível!"





Acordei às 10h da manhã e fiquei no computador nos grupos do Facebook até às 14h, mas sem contar para ninguém sobre o início do trabalho de parto. O futuro pai foi trabalhar. Pedi que ele me comprasse meus incensos favoritos e doces, frutas e chocolate.





Eu fui limpar a casa, comprar flores aqui perto da minha casa. Andei um pouco pela quadra. Praticamente contração nenhuma. No máximo, deixava uma bolsa de água quente na lombar para aliviar a pequena cólica. Dei uma  limpada na casa e montei o meu altar com as flores e meus cristais.





O trabalho de parto não teve progresso até a volta do pai às 19:30, afinal, nem queria entrar em TP pra valer sem ele. Jantamos, tomamos chá e fomos preparar a piscina.





Usei muito na fase latente do trabalho de parto o pano pendurado na porta. Soltava o corpo para todos os lados, rebolava, me abaixava. Aliviava muito as contrações, chegava a ser gostoso mesmo. Contrações sem regularidade, mas às vezes eu achava que vinham com intervalos menores que 3 minutos.





Eu estava feliz que o trabalho de parto tinha começado.





Mentalmente eu conversava: "mas será que essas contrações não vão se regularizar? O que eu preciso fazer para o parto acontecer?" A resposta vinha: "nada, se você foi capaz de respeitar o dia do nascimento, respeite também a hora de nascer, ela virá na hora dela, apenas sinta e viva, bebês nascem".





Entrei na piscina às 21h. Sabia que era cedo demais, mas nós queríamos estrear a piscina, que com muito carinho, o Thomas preparou. Foi uma delícia, de verdade!!! Nada de dor, bem prazeroso e relaxante. Nada de trabalho de parto também.





Saí da piscina e às 23h fomos dormir novamente, esse foi o único momento em que eu parei para ouvir os batimentos cardíacos do bebê, pois senti ela muito quietinha. Tudo normal.





Acordei às 4h30 enjoada e com muita dor de cabeça. Daquelas típicas e fortes crises de enxaqueca. Vomitei. Ficava aliviada durante a contração, que ficaram fortes, pois nesses momentos eu não sentia dor de cabeça.





Esse era o meu maior pavor, ter enxaqueca no meu TP e pensei: "troco essas dores de cabeça pelas do trabalho de parto engatado". Foi isso que aconteceu.





Lembro-me de pensar: "Eh, 24h de bolsa rota. A casa de parto não me aceitaria mais. Vai ser aqui em casa mesmo, ou em um hospital".





O trabalho de parto engatou e não senti nenhuma outra dor além das contrações. Curiosamente, sentir-se feliz justamente por causa da dor. Era ela que me dizia que tudo estava indo bem. Senti o apoio físico e emocional do meu companheiro, que estava sereno (cansado) e confiante, me transmitindo força. Em cada contração ele estava lá, massageando minha lombar.





Quando clareou, as contrações estavam fortíssimas, eu rugia, gritava com todas as minhas forças e ainda assim, entre uma contração e outra eu dormia. Rugir intensamente extravasava tudo!





Quando eu comecei a me questionar se estava indo tudo realmente bem, quando eu senti um pouco de medo, me lembrei: estou na hora da covardia! Falta pouco. Quando senti que já tinha dilatado tudo, voltei para a piscina.





Foi pauleira. O expulsivo deve ter levado mais de 1h30 de duração. Senti dor, senti medo de não acabar nunca. Senti depois uma força grande, me senti amparada espiritualmente, todo o meu povo comigo.





Senti a cabecinha cabeluda dela. Eu estava de gatas, às vezes de cócoras, dentro da água, com o meu companheiro a segurar com as mãos o peso do meu corpo, como se fosse uma banqueta de parto.





Senti ela descer, bem devagar, a cada puxo. Lembrei de não acelerar o processo, nada de fazer força, procurei deixar acontecer.





Momentos antes do nascimento, senti uma presença divina, intensa, maravilhosa. Quando eu fechava os olhos, eu "via" uma flor de lótus, branca e luminosa, na altura do meu ventre. Senti o círculo de fogo. A cabecinha saiu. No puxo seguinte, saiu o ombro e logo em seguida, todo o corpinho. Nasceu a Yara, com peso estimado em 3,5kg, às 10h37 do dia 18/12/13.





A vi nadando, de olhos abertos dentro da água. O pai pegou a bebê e me entregou. Tinha uma circular de cordão umbilical na perninha dela. Abracei e a aqueci com meu corpo e uma toalha.




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Fomos para a cama, ela mamou e ele cortou o cordão umbilical. Deixei os dois juntos e fui tomar um banho, nesse momento, saiu a placenta, meu períneo estava íntegro. Fui dormir junto com a Yara ao meu lado, enquanto o pai cuidava de limpar o apartamento, para descansar junto comigo.





Ele foi meu doulo, mas eu que partejei.





No fim, parimos juntos.









domingo, 30 de março de 2014

O Rei Que Queria Mudar o Mundo - livro infantil













Era uma vez um país bem pequeno na montanha, onde os sábios por muito tempo anunciaram a chegada de um rei que mudaria o mundo.





Os homens desse país passaram, então, a esperar. Em seguida, foi a vez de seus filhos e, depois, de seus netos, até que um dia todos se esqueceram disso. Sobrou apenas uma jovem para cantar, ao cair da noite, as aventuras desse rei tão esperado e tão depressa esquecido.





Certa vez, chegou um homem que tinha viajado muito e que buscava um teto para passar a noite. A jovem entoou sua canção e o estrangeiro nunca mais partiu. Alguns meses depois, eles tiveram um filho...




Seria o tão esperado rei?




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Um livro delicado e com questões muito profundas. Simon desejou ser o rei profetizado para acabar com toda a maldade que havia no mundo. Com esse desejo saiu de sua casa para conhecer o mundo e nessa busca descobriu muito sobre si mesmo.






ciranda cultural, indicação de livro





Simon descobriu que mudar o mundo não basta, se não conhecer o que traz verdadeiramente dentro de si.







Autor: Juliia

Ilustrações: Célia Chauffrey

Tradução: Silvio Antunha

Editora: Ciranda Cultural

ISBN: 9788538028123






quinta-feira, 27 de março de 2014

Tolerância à violência contra as mulheres - estamos todos cegos




luta feminismo, violência de gênero,
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Um estudo divulgado hoje pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelou que:







  • 58% dos brasileiros acreditam que "se as mulheres soubesse se comportar haveria menos estupros";

  • 65,1% concordam total ou parcialmente que as mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas;

  • 64% concordam com a ideia que "os homens devem ser a cabeça do lar";

  • 63% concordaram que "casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família";

  • 89% afirmaram que "roupa suja deve ser lavada em casa";

  • 82% dos entrevistados concordam que "em briga de marido e mulher não se mete a colher";








A violência é mesmo um assunto muito indigesto, é incômodo, dá náusea e causa cegueira. A cegueira se manifesta através da omissão, da covardia. Apesar de estar por todos os lugares e se apresentar em suas diversas formas: psicológica, simbólica, física, sexual, patrimonial, estatal, institucional, ninguém a vê. Ninguém quer ver.





Os noticiários apresentam as vítimas de um machismo escancarado e bem articulado, ora chamando-as pelo nome ora as apresentado como mera estatística. Mas ninguém quer falar sobre. É chato. A verdade é que estamos todos cegos. Padecemos de uma cegueira voluntária e seletiva.





Para o abusador/agressor a culpa é da vítima. Eles nem sabem mas essa é uma técnica de neutralização da culpa e faz parte de uma lógica funcional da submissão de uns sobre os outros. 





Homens submetem mulheres. Os adultos submetem as crianças. Os novos submetem os velhos. O rico submete o pobre. O branco submete o preto. E Joaquim amava Lili que não amava ninguém.





O abusador/agressor justifica sua conduta desviante dizendo que isso é algo que lhe acontece, afinal é um ser dotado de instintos. Como um bode. Ou seja, não é algo que ele faz, sobre ele não restando nenhuma culpa. Se sente autorizado, pois percebe o consentimento da vítima, pelo simples fato de ela existir e estar ali - dentro de um metrô ou andando na rua ou dentro de um escritório. Como se o desejo sexual masculino fosse algo incontrolável e o corpo feminino fosse território masculino.





O abusador/agressor é pautado por uma moral religiosa que desde sempre categorizou as mulheres em honestas e desonestas e o sistema se encarrega de abandonar aquelas que não seguem esse padrão de moralidade imposto pelo patriarcado. Nós mulheres somos reduzidas ao nosso corpo, como se estivéssemos expostas permanentemente às suas classificações vulgares. Técnica esta, passada de geração em geração, aprendida desde a mais tenra infância e a execução faz parte de um rito masculino de passagem.





O abusador/agressor considera a violência uma forma de correção. 





A naturalização das desigualdades de gênero legitimam a violência e a dominação do homem. Num mundo justo, as mulheres jamais poderiam internalizar a culpa pela violência que sofrem ou justificá-la como própria da natureza masculina.





O abusador/agressor é protegido pelo silêncio de toda uma sociedade que optou pela cegueira, mesmo diante de casos que contam com uma regulação normativa. Isso só é possível porque toda a atenção recai nas pessoas - autor e vítima - e não sobre o crime cometido.





Com relação aos crimes sexuais, o sistema penal promove uma verdadeira inversão do ônus da prova e no momento da denúncia a vítima se vê novamente exposta ao julgamento da versão masculina da lei e de seus operadores, restando a ela provar que é uma vítima real. O senso comum policial e judicial não diferem do senso comum social. É brutal. É burro.





"O sistema penal existe sobretudo para controlar a hiperatividade do cara e manter a coisa (mulher) em seu lugar (passivo)". 


Vera Regina Pereira de Andrade. 








Diante desse panorama assustador, responda olhando nos meus olhos: feminismo pra quê?













segunda-feira, 24 de março de 2014

O PAPEL DO PAI COMO ESTEIO EMOCIONAL - por Laura Gutman





Laura Gutman, o papel do pai, a maternidade e o encontro da própria sombra
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A função do pai se desenvolve em dois tempos: o primeiro diz respeito ao apoio entre 0 e 2 anos, e o segundo, à separação, depois que a criança completa 2 anos e começa a se separar emocionalmente da mãe e a construir o próprio eu.





O APOIO





Nos tempos modernos, as mães e os pais têm dificuldade de compreender essa atitude. Refere-se à proteção e ao cuidado que o pai deve destinar à mãe para que ela possa desempenhar seu papel materno. Requer uma atitude muito ativa.





O que significa apoiar a maternidade?





1. Facilitar a fusão mãe-bebê e defendê-la. Para estar em condições de submergir na fusão, a mãe precisa se despojar de todas as preocupações materiais e mundanas. Deve delegar todas as tarefas que não sejam imprescindíveis à sobrevivência da criança: ou seja, tudo que não se refira a amamentar, ninar, acalmar, higienizar, alimentar e apoiar o recém-nascido. As tarefas domésticas, a atenção aos filhos maiores, a organização do lar, a administração do dinheiro, os conflitos com outras pessoas, as relações intrafamiliares, o reconhecimento do mundo e as decisões mentais devem ser atribuídos ao homem, que deve tomar decisões pertinentes para liberar a mãe do reino terrestre. Para mulher puérpera, esse é um período celestial, no qual sua consciência opera mais além da lógica e da causalidade. É necessário que se despoje dos pensamentos racionais e admita que atravessa uma realidade milagrosa e sem sentido aparente. A vida cotidiana continua com suas exigências e ritmos, e a tarefa do homem é justamente a de se encarregar de organizar e administrar a rotina doméstica.





2. Defender a fusão do mundo exterior, massacrado pelos palpites, críticas e sermões que circulam acerca do que "deve ser feito". Resguardar o ninho. Ser um intermediário, constituir-se em muralha entre o mundo interno e o mundo externo. Quase tudo o que chega do mundo exterior parece hostil à mãe, porque funciona em uma frequência muito elevada e veloz para a sutileza do recém-nascido e desequilibra o mundo emocional da mulher puérpera. As mães fusionadas precisam de um defensor aguerrido que lhes possibilite se retrair em sua função específica sem precisar se armar contra o que está do lado de fora. Toda energia usada para se defender é energia subtraída do processo de criação do filho. Concretamente, o homem deve zelar para que a mãe e a criança disponham de silêncio e intimidade, para que circulem pela casa poucas pessoas ou apenas aquelas requeridas pela mulher, e prover o ninho só do alimento, do conforto e da tranquilidade necessários. É interessante observar como a maioria das aves age em seus ninhos: o macho entra e sai trazendo alimentos e evitando que algum intruso se aproxime, enquanto a fêmea não se afasta dele.





3. Apoiar ativamente a introspecção, ou seja, permitir que a mãe explore a abertura de sua sombra vivenciando com liberdade e intimidade a experiência do florescimento de sua mãe interior. O apoio e o acompanhamento afetuoso permitirão à mãe que não se assuste com suas parte ocultas, que confie no processo e saiba que há uma mão estendida que poderá segurar nos momentos mais duros. Não importa se o homem compreende ou não do que se trata; importa apenas saber que algo acontece e que talvez a compreensão racional apareça mais tarde. Não há muito a compreender, é tempo de fazer a travessia.





4. Proteger. Há muitos meios de proteger. Em nossa sociedade, isso se refere principalmente aos aspectos econômicos: é o pai quem consegue, ganha, administra e organiza o dinheiro necessário para cobrir as necessidades básicas da díade mãe-filho. Liberar a mãe dessas preocupações lhe permite sustentar a fusão e a maternidade no período inicial. O homem deve manter o espaço psíquico disponível para tomar decisões, procurar ajuda, organizar o funcionamento familiar e resolver as questões do mundo material.





5. Aceitar e amar sua mulher. Neste período, o essencial é não questionar as decisões ou intuições sutis da mãe, que surgem como redemoinhos incontroláveis, pois respondem a uma viagem interior na qual ela está embarcada e sobre a qual não tem controle. Portanto, não tem elementos para justificar suas sensações, uma vez que passa por uma transfiguração de sua existência e por um desdobramento indescritível de recordações, necessárias à fusão e a seu devir consciente. O pai não pode constituir-se em um inimigo das sensações ilógicas, dando conselhos, discutindo as mais ínfimas decisões a respeito de como erguer o bebê, alimentá-lo ou adormecê-lo, denegrindo o processo de regressão psíquica, nem impondo suas ideias sobre a educação correta do filho de ambos. Não é tempo de discussão. É tempo de aceitação e observação. É tempo de contemplação sobre como as coisas acontecem. É o Tao.





* * * *





OUTROS SEPARADORES





Quando não há um pai presente ou então o pai não consegue agir como separador, a mãe precisa permitir que algo ou alguém desempenhe esse papel.





O ideal para uma mulher é responder ao chamado da pessoa amada, que a obriga a se separar lentamente do filho fundido a ela. Por isso, depois que a criança completa 2 anos, é recomendável procurar um homem de que gostemos e com quem tenhamos vontade de compartilhar situações de adultos. Esta procura de espaços pessoais libera o filho da mãe, forçando-o a explorar outros vínculos.





O papel de separador também pode ser desempenhado por um avô ou por um amigo da mãe que esteja relativamente presente na vida cotidiana. É uma pessoa que merece a confiança da mãe e por quem se sente apoiada. O ideal é que seja um homem. Não se trata de outra mulher que ajude na criação, porque, neste caso, se estabelece uma fusão a três. Falando de separação, é necessária a presença de um homem.





Na ausência de um indivíduo que possa exercer o papel de divisor, ele pode, eventualmente, ser substituído por um trabalho pelo qual a mãe se interesse de coração, ou uma tarefa criativa, ou atividades políticas, que frequentemente são fontes de energia. E também por interesses artísticos, culturais e sociais que a mãe assuma conscientemente, sabendo que produzirão a adrenalina de que necessita para continuar ativa mais além dos cuidados com a criança. Isto ocorre, por exemplo, quando a mãe consegue se separar do filho, desculpando-se cheia de felicidade: "Não vou brincar agora porque vou trabalhar ou tenho que ir à minha aula de teatro". Quando o trabalho é gratificante, conectar-se com espaços pessoais e adultos torna-se libertador para a mãe.





Nos casos em que não há pessoas nem situações que possam desempenhar a função separadora, é necessário inventá-las depois que a criança tiver completado 2 anos. Caso contrário, a relação fusional, estendida no tempo, poderá ser abusiva para a criança: atenderá às necessidades afetivas da mãe (que retém a criança para não ficar sozinha), em vez de resolver seus problemas pendentes como adulta, liberar o filho e permitir que trilhe o próprio caminho. Nestes casos, a mãe deverá realizar as duas funções: apoiar a si mesma no que se refere à separação.





Por último, costumamos confundir separação com autoritarismo. O pai - ou a figura paterna - não precisa ser rígido nem autoritário para dizer "não". Nem as mães devem fazer ameaças usando a figura do pai para obter resultados. "Você vai ver quando seu pai chegar", esse é um péssimo recurso e a leva a perder a autoridade. O pai pode separar amorosamente. Ter autoridade é manter-se no próprio eixo. Quem desempenha o papel que lhe cabe adquire autoridade. Ora, um pai violento que precisa bater para ser ouvido perde a confiança dos filhos e fica sem condições de realizar a separação. Por outro lado, o pai que tem consciência de sua posição de divisor emocional e consegue decidir amorosamente conserva sua autoridade. "Mamãe é minha e eu vou levar você para a cama porque ela está muito cansada e quer dormir". Qualquer um dos membros do casal pode esclarecer o papel do outro para conseguir funcionalidade. É conveniente conhecer o papel do outro; é conveniente que o outro conheça o nosso papel.





Na manifestação de doenças ou comportamentos incômodos das crianças, quando elas têm mais de 2 anos e há um pai que cumpre seu papel de divisor emocional, a sombra do pai também costuma se manifestar. 








Trechos copiados na integra do livro A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, p. 129-131 e 138-140, da psicoterapeuta argentina Laura Gutman.







sexta-feira, 14 de março de 2014

Escola Pública - a discussão continua



classe média opta por escola pública,





O texto sobre minha experiência recente com a escola pública rendeu excelentes comentários aqui e na página do blog.



Importante deixar claro que não estou fazendo campanha para a escola pública, porque sei que em muitas regiões do país essa não é uma possibilidade. Quis trazer o assunto para um debate que considero pertinente, principalmente diante da falta de opção e do abuso nos preços das mensalidades cobrados pelas escolas particulares.



Preciso agradecer aos leitores que enriqueceram o debate compartilhando suas experiências, como pais/mães/profissionais trazendo novos pontos de vista; que propuseram a desconstrução para reformulação das práticas pedagógicas e que esclareceram, com muito boa vontade, pontos obscuros no texto de minha autoria.




Para fomentar o debate, decidi divulgar alguns textos que serviram de base para eu compreender e repensar o horror da classe média (eu inclusa) ao ensino público e a escola particular como produto de consumo. Espero que gostem.












"Observo ainda um certo esgotamento quanto à filosofia que impera em tais estabelecimentos privados: uma formação demasiadamente individualista, uma série de 'acessórios' que encarecem a vida escolar (material didático privado e caro e cursos extra-curriculares pagos, por exemplo) e um modelo de convivência baseado no consumo.





Observe-se, ainda, que algumas escolas vêm sendo adquiridas por grupos de educação maiores, empresas mesmo, nivelando ainda mais a prática pedagógica ao status quo individualista, estabelecendo uma relação de consumo por 'serviços prestados' entre pais e escola e contribuindo, evidentemente, para o fenômeno da mercantilização do ensino e a da proletarização dos professores."









"Existe o movimento e eu particularmente o considero muito necessário. Precisamos de gente para brigar pela melhoria de qualidade, para exigir mais pelo que se paga em impostos e é revertido para a educação, para se juntar e trabalhar em prol da escola e também para ficar no pé da gestão escolar e dos professores. Não é fácil. Porque tanto na escola pública quanto na particular, a verdade é que não se quer os pais combatendo as falhas que encontram aos borbotões. Seu filho corre o sério risco de ser hostilizado.





(...)





Então, dentro deste contexto todo, seja porque cansou de pagar, seja pela perspectiva da cota nas universidades federais, seja porque se quer acreditar que é possível melhorar a educação pública básica, esse movimento migratório já estava na hora."












"Os protestos da minha filha ecoaram em minha cabeça e, de alguma maneira, era preciso encontrar meios para aplacar a culpa que se espalhava dentro de mim. A senha foi um bilhete da escola convocando os pais para uma reunião onde seria eleita a nova diretoria da Associação de Pais e Mestres. No dia, com o melhor espírito de cidadania em punho, rumei para a escola, acompanhado de minha esposa, psicopedagoga. Afinal, pensava eu, sou fruto da escola pública. Primário, ginásio, colégio e universidade à custa do contribuinte. Ora, era hora de devolver um pouco do que recebera, naquela época, com boa qualidade.





(...)





É muito fácil falar em democracia quando o único gesto necessário é usar o Título de Eleitor a cada quatro anos para eleger representantes e depois sentar-se sobre a opinião de que as coisas públicas são ineficientes por definição. A educação, por meio da escola pública, é talvez a mais importante presença do Estado na sociedade, certamente, mais do que a polícia e o exército. Está em todas as comunidades e precisa delas para cumprir seu papel de construção do futuro e da cidadania de milhões de jovens. Delegamos não ao Estado, mas a uma burocracia despreparada e para que a sociedade assuma suas responsabilidades na gestão cotidiana do ensino público e utilize adequadas ferramentas para que a boa qualidade seja um fato e não apenas desejo na escola pública."












"Instiga-nos a pensar por que tais famílias optariam pela escola privada - e, portanto, uma despesa a mais no orçamento - se elas facilmente têm a rede pública à disposição. Estaríamos enganados se respondêssemos que a prioridade é a qualidade de ensino. No fundo, a qualidade de tais escolas não deve se diferenciar substancialmente daquilo que é oferecido no sistema público de ensino. De fato, na pesquisa de Nogueira (2013), fica claro que o que primordialmente orienta as famílias nessa escolha é a crítica de que a escola pública não oferece garantias mínimas de segurança.





(...)





Nesse sentido, a qualidade do ensino também entra no jogo, embora em uma posição nitidamente secundária. Nogueira (2013) relata que o nostálgico retrato de que a escola pública de 'antigamente' já teria morrido é uma justificativa presente para que, na atualidade, apenas as escolas particulares sejam vistas como as instituições que realmente possibilitam um aprendizado. As crianças não só aprenderiam os conteúdos curriculares como também 'disciplina', 'regras', 'normas', 'valores' etc.












"Num país em que a maioria das famílias de classe média ou alta vê o ensino privado como única opção, uma parcela desse grupo foge à regra e matricula os filhos em escolas públicas. Muitos procuram algo que os colégios particulares, por serem pagos, são incapazes de proporcionar: um ambiente diversificado, onde convivem alunos de vários níveis socioculturais.





(...)





Como não abre mão da qualidade, esse movimento da classe média em direção à escola pública ainda é restrito aos poucos estabelecimentos estatais que conseguem manter alto padrão de aprendizagem. (...)





Outra vantagem adicional citada por pais que optaram pela rede pública é a mudança em hábitos de consumo. ' A pressão consumista diminui bastante, pois não existe tanto essa coisa de eles quererem usar na escola calça de marca ou tênis da moda', conta a engenheira (...)





Outros texto da blogosfera materna:













quarta-feira, 12 de março de 2014

Pé de Livros - conheça essa iniciativa


Uma pessoa que ama ler.

Uma pessoa que poderia ficar em casa apenas cultuando seus livros.

Uma pessoa que sabe o quanto a leitura transforma vidas.

Uma pessoa que sabe que compartilhar faz toda a diferença.



Conheça a iniciativa de Janete Barros, a pessoa que planta livros em praças para semear o gosto pela leitura nas crianças cearenses.



Conheça o projeto Pé de Livros.






projeto literário que leva os livros onde as crianças estão
{Foto: divulgação}





Por: Janete Barros



Leio desde que fui alfabetizada e tenho verdadeira paixão pelos livros. Visitando o site de uma editora, vi a primeira imagem instigante: livros pendurados em árvores na FLIP de Parati.





Assim teve início o projeto "Pé de Livros".





O que é o projeto e qual seu significado?





Assim como todo conto aumenta um ponto, inventei a plaquinha com o nome do projeto, inspirada no livro infantil João e o pé de feijão. A plaquinha endossou de forma amável. Captei a mensagem, meu filho como cúmplice e decidi por o plano em prática.





Então num belo dia de sábado dei um "Pé de Livros" de presente para o meu João Neto...e foi uma ideia tão fabulosa, que contagiou outras crianças, outras famílias. O que mais me encanta, é quando vejo o brilho de seus olhos quando manuseia um livro! Quero que essa ideia, como uma árvore, finque e crie raízes. Perdure de tal forma, que atravesse gerações. E um dia meu filho fale para meu neto, que ganhou um pé de livros da mamãe. "A melhor de todas as coisas é aprender. O dinheiro pode ser perdido ou roubado, a saúde e força podem falhar, mas o que você dedicou à sua mente é seu para sempre". (Louis L. Amour)





Começou bem tímido, porém, sinto a necessidade que o sonho se propague e vingue. A ideia pode tomar forma gigantesca. O objetivo é ganhar as praças, os parques públicos. Chegar de mansinho e se instalar. Em princípio, ninguém entende a proposta. É um abrir de malas, é o acerto com os elásticos, as caixas de trocas de livros, que possibilita a dinâmica e a interação.





Com o projeto, a criança trabalha o gosto pela leitura de forma lúdica. Creio que o Pé de Livros é uma forma simples de incentivo a leitura e juntamente com a natureza, trabalhamos a sustentabilidade, as primeiras percepções, a criatividade, os reciclados.



E nas andanças por aí, já coloquei o "Pé" na Casa José de Alencar, 2 anos no Ecopoint (parque ecológico), Projeto Circo de Todas as Artes, escolas públicas e privadas e já me apossei de praças grandes, conhecidas e esquecidas da cidade de Fortaleza, incluindo o Passeio Público, no centro da cidade e até bibliotecas municipais.



A vontade de fincar raízes não para de crescer. Temos tantas árvores em praças, em zoológico, em parques e reservas ecológicas! E em todos esses lugares temos crianças ávidas e extremamente curiosas, só esperando por um estímulo.



Quando fecho os olhos não vejo outra coisa, senão um charmoso fusca com letras coloridas, anunciando num barulho tão próprio, o meu amor gigante pela leitura. Um fusca simpático com o adesivo Pé de Livros, faria o importante papel de ir e vir. Seria um facilitador para promover esses eventos ao ar livre. Um Pé de Livros itinerante, para ir cada vez mais longe, que se torne um meio de entretenimento infanto-juvenil em eventos culturais.



Para ocupar praças. Para que a leitura ocupe o coração das crianças.



A receptividade é intensa, firme, pois marca de forma positiva e a criança não esquece. Criatividade e amor pelos livros é o lema!



O Projeto Pé de Livros no "Projeto Generosidade". Para visualizar a matéria, clique aqui.








terça-feira, 11 de março de 2014

Escola pública - por que a classe média a teme?




por que a classe média teme a escola pública?
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Sabendo que o ano passou seria o último da Bia por só atenderem crianças até o 5° ano, andava inquieta à procura de uma escola que atendesse aos meus critérios e que também fosse financeiramente viável. Procurei bastante, recebi muitas indicações e me deparei com instituições de ensino que sequer mereciam uma visita.





Nessa busca deparei-me com escolas que possuem espaço externo ínfimo forçando seus alunos a consumirem porcarias no que chamam de "praça de alimentação" em nada comparado ao espaço que tinham antes; que oferecem uma infinidade de aulas extras pra justificar o preço absurdo das mensalidades; sem contar o esquema de segurança, vigilância e controle através de câmeras de monitoramento. Para não mencionar o conteúdo livresco ou apostilado com base em exames, provas e reprovações - únicas medidas de desempenho dos alunos em grande parte delas.





Em nenhuma dessas escolas - financeiramente viáveis para minha família, diga-se - o conhecimento é trabalhado de forma a valorizar as relações humanas, a convivência entre diferentes, a transformação dos valores para alcançarmos a tão sonhada igualdade. Ao contrário, as escolas vêm se constituindo num espaço de reprodução de ideologias das mais diversas, das mais perversas, reproduzindo a exclusão através de práticas pedagógicas.





Como todas são absolutamente similares, a sociedade como um todo parece não se importar e aceita tudo como natural e vamos nos adaptando e submetendo nossos filhos a essas instituições sem nenhum tipo de questionamento. 





O que tem acontecido com as escolas, afinal?





Em meio as minhas buscas frustradas, recebemos a notícia que vamos mudar de cidade. Continuaremos em Santa Catarina e nos mudaremos até o meio do ano. Os impactos dessa notícia no cotidiano dessa casa virou um texto no blog Dadadá. Foi uma notícia recebida com alegria e medo. Como se não bastasse a mudança de cidade, meu marido sugeriu uma outra que nos pareceu ainda mais dramática. "Esse ano nossos filhos estudarão em uma escola pública". Segundo ele, não compensaria arcar com os custos de todo-começo-de-ano-letivo para em seguida nos mudarmos e pagar-tudo-de-novo a uma outra instituição. 





Parece-me justo mas confesso que não aceitei essa notícia sem ranger de dentes. Não queria meus filhos estudando numa escola pública. Não queria meus filhos lanchando uma comida servida em refeitórios que nem sei como são higienizados. Não queria meus filhos na companhia de qualquer um. Não queria meus filhos ali. Meus filhos.





Em uma discussão muito dramática, meu marido ouvia tudo calmamente. Depois que usei o pronome possessivo incontáveis vezes, ele simplesmente respondeu: "Que estranho! Não é você que luta por um mundo sem preconceitos? Não é você quem diz que para preconceitos não existem ressalvas? Por que teus filhos são diferentes dos filhos dos outros? Por que os outros não merecem a oportunidade de conviver com teus filhos? Somos tão especiais assim?"





Que confronto! 





Após uma catarse básica veio a aceitação. Com ela, uma vontade de entender por que nós que compomos a classe média temos tanta ojeriza pela escola pública. Em que momento renegamos um direito social para assumir o papel de consumidor. 





Bem verdade que observamos um dualismo perverso entre a escola particular (de conhecimento) para ricos e escola pública (acolhimento social) para os pobres. O que faz com que as escolas particulares sejam vistas como instituições que verdadeiramente possibilitem o aprendizado e as públicas como um espaço que favorece a delinquência. Esse pensamento dualista serve ou não serve para manter desigualdades sociais?





Pelas leituras que fiz sobre a historiografia da educação podemos dizer que o sistema educacional sempre esteve a serviço de diferentes interesses. Quais interesses sociais estão envolvidos nesse processo?





A cultura escolar foi criada na República, pois até então era inexistente. O avanço da industrialização apelava por uma mão de obra qualificada, gerando a necessidade de escolas para formação do futuro operário. A elite brasileira só estava preocupada com a organização do sistema capitalista. Foi implementada uma pedagogia higiênica que era sinônimo de disciplina do hábito e tinha como princípios norteadores a nação e pátria. Surgiu então a escolarização em massa, cuja concepção era de que a desigualdade é fruto natural da evolução dos indivíduos e não resultante de uma estrutura econômica. Olá, meritocracia!





A implantação da escolarização foi um fenômeno urbano, porque porque naquele período ainda imperavam formas arcaicas de produção, havia mão de obra abundante e baixa urbanização. Como foi (ou continua sendo?) um fenômeno urbano, acabaram ficando de fora os pobres e os negros. (!!!) 





Se o ensino era público por que não atendeu aos interesses do povo? Ora, ao Estado cabe a manutenção das relações de poder.





* * * *





A escola pública se mantém em declínio há pelo menos 30 anos e a única coisa que fazemos é bradar "por uma escola pública de qualidade e gratuita para a toda a população". A classe média sempre se acovarda na hora de exigir o cumprimento de seus direitos por tratar a tudo como mercadoria e a quem reduz tudo a uma questão de dinheiro. 





* * * *





Algumas considerações sobre a minha experiência:







  1. Não tive que acampar na porta da escola nem pegar fila para ter garantida uma vaga para meus filhos. É tudo informatizado.

  2. Não é um lugar para pessoas verdadeiramente pobres. Nas escolas públicas da ilha, há um público de classe média bastante expressivo. Tanto que o meu é o carro mais velho na porta das escolas.

  3. Na escola dos meninos não há problemas de instalações físicas. São muito bonitas e arejadas. A do Otto inclusive, é nova. 

  4. Todos os profissionais são engajados além de educados. Muito mais do que nas escolas onde meus filhos estudaram, diga-se.

  5. Nas reuniões que participei noto o engajamento de algumas famílias através de eleições para a Associação de Pais e Professores em detrimento a escusa de algumas que se eximem de quaisquer participação e envolvimento "porque isso é obrigação do governo".  Em tempo: a escola é municipal. O nosso olhar para a escola, principalmente a pública, não deve ser de desesperança. Por trás de cada professor sem plano de carreira definido, existe uma vontade enorme de fazer a coisa acontecer. E nossa participação é essencial nesse processo.

  6. Bia se adaptou muitíssimo bem. Otto estranhou o estilo "escolinha".






* * * *





Por fim, vejo como positiva essa mudança de espaço para dar fim a minha projeção de êxito sobre meus filhos.





Acredito que educação também seja estar em contato com pessoas de níveis socioculturais diferentes num ambiente não seletivo para compartilhar vivências, ter contato com outras realidades e aprender mais sobre solidariedade entre as pessoas.





Essa não deveria ser a função precípua da escola?













sábado, 8 de março de 2014

Transformação da Opressão em Liberdade Através do Graffiti


Por favor guardem suas flores para uma outra ocasião. 


Deixo uma sugestão: ao invés de distribuir flores neste Dia Internacional da Mulher vamos divulgar informação, conhecer efetivamente os números da violência, informar sobre os direitos da mulher, incentivar o uso da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180


O que deveria ficar claro de uma vez por todas é que a violência contra a mulher não é de foro privado e que não cabe somente a ela a responsabilidade pelo seu enfrentamento. A responsabilidade é do Estado e de toda a sociedade. A violência doméstica machuca, humilha e mata. Todos os dias. 





Neste dia tão importante para a resistência, é com muito orgulho que trago o texto de uma companheira trazida pela rede, que me ensina e me inspira diariamente. Um texto para falar do poder transformador e curativo da arte e de como é possível construir o feminino. Um texto para dar visibilidade a projetos empoderadores que transformam a opressão em liberdade e para mostrar que com apoio, mulheres podem se reerguer e se perceber como sujeito de direitos. 










Rede Nami, ONU Mulheres, Fim da violência doméstica, fim da opressão de gênero
Valentina, filha de Fefê Alves, inspira a campanha Brasil 2014 Rumo ao Fim da Violência. Representa

o sonho de um futuro livre das opressões de gênero. Um futuro melhor para se viver.








Por: Fefê Alves





É muito provável que você talvez nunca conheça a Mel.


Uma grafiteira, casada e mãe de três adolescentes, religiosa e feminista.


A Mel que hoje pinta muros de centros de atendimento à mulher e ao idoso e centros culturais sob encomenda, é a mesma que um dia, na infância, sonhava ser uma grande artista.


É a mesma que hoje dá aula de pintura em comunidades pobres do Rio e a mesma que precisou abandonar o sonho - ainda que momentaneamente - para ajudar no sustento familiar. É a mesma que passou necessidade e em muitos momentos só teve o "xibé", mistura de farinha com açúcar, para se alimentar.





A Mel se emocionou ao me contar isso, enquanto relembrava o passado sofrido e fazia rapidamente seu croqui para uma seleção da ONU Mulheres que se tornará uma exposição itinerante. No desenho, a face de uma senhora bastante marcada pelos sofrimentos da vida. Ao lado dela, os sacos de farinha, de açúcar e um tacho de xibé. Ao fundo uma casinha de palha.





O desenho concorreu na categoria " A Mulher e a Pobreza". Eram 12 painéis que fazem referência ao Protocolo de Ações de Pequim, assinalado há 19 anos e que versam sobre a mulher nas mais diversas condições (pobreza, violência, conflito armado, por exemplo) e também em algumas situações importantes como a mulher e a violência, a mídia, o meio ambiente, a saúde, e etc. Tudo isso será discutido novamente em nível global, ano que vem, na Pequim+20. O croqui da Mel foi um dos escolhidos.







fim da violência doméstica, Pequim+20, Rede Nami, fim da opressão de gênero,
Mel e seu painel "A Mulher e a Pobreza"





E eu fico aqui pensando emocionada como muitas e muitas mulheres que também passaram pelo que ela passou, verão seu trabalho. E talvez se reconheçam, como ela se reconheceu ao me descrever a personagem de seu desenho. Eu também reconheci minha avó, minha bisavó, minha mãe e muitas outras mulheres que já conheci em minhas andanças.





Eu e Mel trabalhamos em uma ONG feminista, a Rede Nami. Uma rede formada originalmente por mulheres grafiteiras que queriam divulgar a Lei Maria da Penha. Panmela Castro, conhecida no meio do grafitti como Anarkia Boladona, é fundadora e também a artista mais conhecida da Rede. Já pintou em mais de 20 países, já saiu na Newsweek ao lado da Dilma Roussef, como uma das 150 mulheres mais importantes do momento (só foram elas de brasileiras na lista), já recebeu prêmio da mão da Hillary Clinton e de sua ONG Vital Voices que reconhece o trabalho de mulheres pelo mundo.










Rede Nami, ONU Mulheres, fim da violência doméstica, fim da opressão de gênero, dia internacional das mulheres
Panmela Castro








A história de Mel e de Panmela têm muito em comum.


As duas venceram muitos desafios para desenvolverem suas artes e se profissionalizarem como artistas e grafiteiras. E não apenas isso, as duas já sofreram violências marcantes também e carregam consigo uma enorme empatia por todas as outras meninas e mulheres.


De certa forma, a minha história também têm muito em comum com as delas.





No Brasil, uma mulher é agredida a cada cinco minutos e a cada noventa minutos, uma mulher é assassinada. Em mais de 70% dos casos, o marido, o namorado, o companheiro ou o ex- são os responsáveis. Em 2012, foram registrados mais estupros do que homicídios, e graças a um panorama tão cruel assim, nosso país ocupa o sétimo lugar em violência contra a mulher.





Talvez, você nunca conheça a Mel ou a Panmela pessoalmente, talvez nunca veja de perto os incríveis graffitis delas. A Rede Nami está nas redes sociais, então, espero que talvez você venha a conhecer nosso trabalho e nossos projetos, como o Graffiti Pelo Fim da Violência Doméstica que leva a discussão sobre a violência doméstica e o graffiti a estudantes do ensino médio em escolas públicas do Rio. Ou talvez, o Torcida Graffiti que misturará graffiti, combate à violência doméstica e torcida brasileira pelas ruas de comunidades de cinco cidades-sede da Copa.





Eu ficaria muito feliz com isso, porque trabalhamos duro para ampliar o alcance das informações sobre os direitos da mulher, as ferramentas disponíveis como a Lei Maria da Penha, o Ligue 180 e também estatísticas, informações e reflexões sobre a situação do tema no nosso país e no mundo.










Ligue 180, fim da violência doméstica, fim da opressão de gênero, ONU Mulheres, Rede Nami, Graffiti pelo fim da violência
Bella apresenta com esse painel a história de uma mulher que é vítima da violência doméstica mas só se dá conta

da situação quando conhece seus direitos e aciona o Ligue 180 para saber sobre violência de gênero e como sair

dessa situação de opressão.





Mas, para além disso, eu gostaria que a história da Mel fosse inspiradora para você, como foi para mim. Aliás, as histórias de todas essas mulheres que conheci por trabalhar com a militância feminista são incríveis, inspiradoras e empoderadoras. E eu adoraria que você conhecesse cada uma delas. E pensando bem, eu adoraria conhecer a sua história também. Porque se tem uma coisa que o feminismo me deu foi isso, a empatia...a enorme empatia com a história de cada mulher, de cada sonhadora, de cada vencedora. Que é o que somos todas nós, todos os dias.





Um abraço.


E um muito obrigada à Dani, por esse convite e principalmente, por me inspirar em sua maternagem e em sua militância por um mundo mais justo e melhor para todxs!





Fefê Alves


Gestora de Comunicação da Rede Nami


Feminista, mãe, comunista e retirante










sexta-feira, 7 de março de 2014

Filmes Para Criar Filhos


Chega um momento na criação dos filhos em que é preciso descortinar todos os véus, apresentar o mundo em todas as suas cores, com todas as suas diferenças para que tenham condições de definir sua identidade e conhecer suas próprias virtudes.



Quando falo em descortinar os véus lembro de Siddharta Gautama, aquele que nasceu num reino lá no Nepal. Todo mundo conhece um pouco da história do Buda. Bom, por tradição, ele deveria ter sido destinado por nascimento para a vida de um príncipe, e tinha três palácios construídos para ele. O seu pai, desejando que o filho se tornasse um grande rei e preocupado com o extravio do filho desse caminho, tentou de todas as formas proteger o filho dos ensinamentos religiosos e do sofrimento humano. Com 29 anos, segundo biografias populares, Siddharta saiu de seu palácio para encarar suas inquietações. Apesar dos esforços de seu pai para escondê-lo dos doentes, moribundos e do sofrimento presente no mundo. Tudo o que viu para além de seus muros, deprimiram e marcaram profundamente o jovem príncipe. Foi então que percebeu que a riqueza material não era o objetivo final de sua vida. Foi então que Gautama deixou o palácio e partiu em busca da Iluminação.





Tenho pensado muito nessa história. Muitos de nós, pais e cuidadores, nos parecemos um pouco com o pai do Siddharta à medida em que tentamos a todo custo proteger nossos filhos do mundo violento que está além de nossos muros. Escolhemos as melhores escolas muitas vezes sem nem se preocupar com a pedagogia de ensino mas com a proteção e vigilância que elas podem oferecer. Damos uma selecionada nas amizades e controlamos os lugares que nossos filhos podem frequentar. Pensando nisso cheguei a conclusão de que não quero ser como o pai super protetor do Buda - este, mais emblemático -  levando eu mesma os meus filhos para um passeio fora dos muros que os protegem. Um passeio guiado, é verdade, mas essencial na criação de filhos mais humanos, mais empáticos.



Como fazer isso? Acredito que a arte se propõe muito bem a este papel de fazer com que olhemos pra dentro, vislumbrando o âmago.



Na escola, Bia que está com sede do mundo, já teve contato com Pollock, Marina Abramovic, Guto Lacaz, Yoko Ono, Emma Hack, Sebastião Salgado e suas fotografias...mas queria mais. Queria histórias capazes de abrir mente e coração, histórias de outros povos, de guerras, de superação, inspiradoras enfim. Isso o cinema pode propiciar.



Selecionei alguns filmes e selecionarei uns outros tantos para assistir com essa menina que está chegando a uma nova fase de sua vida. Segue a lista inicial.






filmes inspiradores, filmes para assistir com os filhos, São Francisco de Assis





Irmão Sol Irmã Lua - esse filme que dramatiza a trajetória de vida de Giovanni di Pietro Bernardone, conhecido como Francisco de Assis, ela teve oportunidade de assistir aos 5 anos. Não foi escolhido por seu conteúdo religioso, pois não tenho religião. Mas a história desse homem sempre mexeu fundo comigo. Francisco nasceu cercado de riquezas, lutou nas Cruzadas e na sua inquietude achou um caminho. Um caminho do bem viver. Abandonou tudo e revolucionou o catolicismo de seu tempo. A história é inspiradora para dizer o mínimo e a trilha sonora belíssima. Lembro que a Bia chorou copiosamente e desde então, é admiradora desse homem e dessa história.








filmes sobre o nazismo, filmes para assistir com os filhos, filme para ensinar empatia




A Lista de Schindler - assistimos esse filme agora, neste feriado de carnaval. Um filme para mostrar o horror da dominação de um ser humano por seu semelhante; para mostrar o despropósito da guerra e o que significa genocídio, algo que estudará de maneira superficial na escola; para mostrar a força que uns fazem pela sobrevivência e que em meio a todo esse horror há lugar para esperança, generosidade, amor e arrependimento.








filmes sobre o nazismo, filmes que ensinam empatia, filmes para assistir com os filhos




O Menino do Pijama Listrado - um filme com a mesma temática mas sob outra perspectiva, sob a perspectiva de duas crianças alheias a todo o horror das ideias nazistas e que mesmo sem entender o que as separa, aproximam-se e tentam nesse contexto viver suas infâncias sem a interferência, sem a maldade do mundo externo. A inocência é tamanha que para Bruno, o uniforme de prisioneiro era apenas um pijama e os campos de concentração fazendas onde as pessoas trabalhavam e mesmo vendo seu novo amigo, Shmuel debilitado com a perda de peso não faz ideia do horror a que está submetido. Um filme poético sobre um dos piores momentos da história da humanidade e que ensina que a amizade e o amor ao próximo podem surgir em quaisquer circunstância. O final, de uma ironia tremenda, é surpreendente.








filme feminista, filmes para assistir com os filhos, filmes que ensinam valores







O Sorriso de Mona Lisa - um filme que retrata os costumes e os valores morais e tradicionais dos anos 50 em que todas as personagens envolvidas são mulheres. Mulheres privilegiadas, diga-se. Nesse contexto uma professora de Arte, educada na liberal Universidade de Berkeley, chega para lecionar em Wellesley. Lá encontra as mais brilhantes jovens mulheres dos Estados Unidos recebendo uma dispendiosa educação para se transformarem em...cultas esposas e mães responsáveis! A professora, vivida por Julia Roberts, decide ir contra todas as normas enfrentando a administração da própria universidade e a resistência das próprias garotas para mostrar o quanto são capazes e que para existirem como seres autônomos não precisam viver à sombra de um homem. Um filme inspirador que mostra que o determinismo não resiste a ideias, a ideais. Como eu queria assisti-lo com minha filha! Será que esse modelo social se extinguiu completamente? - fica o questionamento.











Nascidos em Bordeis - como a arte pode transformar vidas? Este documentário dos cineastas Zana Brisk e Ross Kauffman "é uma reprodução etnográfica (e não mera reprodução da vida) das pessoas que moram no bairro da Luz Vermelha, o mais pobre da cidade de Calcutá, a quarta maior da Índia. O foco é na vida das crianças, filhas de prostitutas que trabalham nos bordeis do bairro. Zana Briski é fotógrafa e está engajada no uso da arte como forma de denúncia social e manifestação cultural. (...) Briski conseguiu autorização para morar no bordel e fotografar as prostitutas. Mas acabou se envolvendo com as crianças e, sensibilizada com o destino delas, com suas curiosidades, suas brincadeiras, sua ânsia por aprender, percebeu que seria maravilhoso ensiná-las a fotografar para que pudessem revelar e ampliar seu próprio modo de ver o mundo. Munidas (essa é a palavra correta, pois naquele momento as câmeras são como armas contra toda a opressão, é o grito de expressão daquelas crianças tão negligenciadas) de câmeras 35mm as crianças tem a missão de fotografar tudo o que lhes chama a atenção, que as impulsiona a colocar o dedo no disparador. (trecho tirado desta resenha. excelente!) Como não chorar ao ouvir de uma criança que "não há uma coisa chamada esperança no meu futuro"? O que é preciso fazer para mudar realidades como as dessas crianças, dessas mulheres?






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Bia está vivendo uma adolescência com possibilidades de escolha mas é preciso mostrar que nem todos as tem. Isso é importante na hora em que ela resolver estabelecer prioridades em sua própria vida. Ela está se construindo como indivíduo e se perceber privilegiada faz toda diferença num mundo que insiste em não reparar o mal que fez/faz a determinados grupos.



O que almejo com esse projeto? Apresentar filmes que inspiram o autoconhecimento, que despertem a busca de significados perante a própria vida além de desenvolver a capacidade crítica. Mas a minha maior ambição é a de criar filhos mais humanos. Demasiadamente humanos.



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A lista é grande e aumenta a cada dia.

Sinta-se à vontade para sugerir outros tantos.