sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ressignificação do luxo





maternidade real, mãe e filhos, luxo, sono do bebê, ideal de vida



Durante muito tempo, luxo pra mim, era frequentar bons restaurantes, dançar pelas baladas mais descoladas, usar a roupa must have das coleções de grifes famosas. Era trabalhar num local bacana e estudar na faculdade o curso que sempre quis.





O tempo, que transforma tudo, relativizou pra mim o significado de luxo.





Luxo é acordar não com o despertador do celular, mas com os gritinhos do meu filho no berço; é levá-lo pra pegar sol na beira da praia, é poder vê-lo brincar sem estar correndo contra o tempo; é receber a cobrança natural que cabe à uma mãe, não de um chefe mala e rançoso!





Luxo é ter tempo pra ensinar minha filha a andar de bicicleta sem rodinhas, é poder dispensar professores particulares e ensinar, eu mesma, as lições da escola; é poder deixá-la na porta da escola e dar-lhe um beijo na testa e buscá-la prometendo uma surpresa que me consumiu uma tarde: um bolo enorme de cenoura com calda de chocolate.





Luxo é chorar de muda frustração, de histérico cansaço por ter levantado infinitas vezes numa só noite - tudo pela opção de não ter babá! Luxo é poder estar ao lado e embalá-lo pra dormir; foi ter pesquisado o valor nutricional de cada alimento e saber o que potencializa o quê.





Luxo pra mim, foi ter podido dedicar alguns anos da minha vida pra estar perto dos meus filhos num momento da construção de suas memórias afetivas.





Agora, luxo mesmo, depois de todo esse tempo de felicidades, incertezas e descobertas é decidir que é hora de retomar o que deixei inacabado...porque a vida, pode até transformar o significado das coisas, mas mantem-se em curso! Sempre.









* texto publicado originalmente no blog Ktralhas em junho de 2011.







quarta-feira, 24 de julho de 2013

Os perigos que nos rondam


Lembro-me tão bem quando, nos idos dos anos 90, meu pai chegou todo felizinho dizendo que chegara a nossa cidade uma nova forma de ver TV. Pagaríamos mensalmente pra ter uma programação de qualidade e finalmente estaríamos livres das indesejadas propagandas. Meus amigos, se existe uma pessoa que desde sempre combate a ilusão criada por publicitários, esse alguém é a minha mãe. Sorte a minha.





Ah, sim, antigamente a TV a cabo não veiculava comerciais. Não sei ao certo quando isso mudou, mas já repararam como só os canais infantis são bombardeados com publicidade? Antes queriam vender brinquedos, roupas, sapatos, mas hoje querem também vender produtos de limpeza, absorventes etc. Por que será?





A publicidade fala diretamente às crianças, que são responsáveis pela promoção do consumo dentro de casa. Isso passou a me assustar quando, passeando pelos corredores do supermercado, meu filho de 4 anos apontava para os produtos e dizia não só o nome da marca, mas cantava até o jingle!





Todos nós que somos impactados pelas mídias de massa, somos estimulados desde muito novos a consumir de forma inconsequente, de forma desenfreada. Sem questionar, sem nos importarmos. Porque muitas vezes eles não vendem apenas um produto, eles te prometem mais que a alegria da posse, mas a sua inscrição e sua existência na sociedade. Quanto mais você consumir, mais será aceito como consumidor. Isso te diferencia dos demais.





Qual a importância das marcas na construção de quem somos? Quantos logotipos, slogans e informações de diferentes marcas absorvemos antes mesmo de começarmos a falar?










logotipos, slogans, consumismo, construção de um consumidor
Marcas de nascença - via

                     





Ataque ao vulnerável






De posse da informação de que a publicidade é, sim, dirigida ao público infantil e que as crianças influenciam 80% das compras domésticas - de acordo com a pesquisa IBGE - Interscience, vem uma dúvida: estariam elas preparadas para a interpretação crítica dos apelos que constantemente lhes são dirigidos?





Aliás, criança tem capacidade crítica para alguma coisa? Ou depende da intervenção dos pais para orientá-la? Mas quando os pais trabalham fora em tempo integral, por necessidade, quem fica com as crianças? Quando os pais não podem ou não querem ou não gostam de conversar com seus filhos, a publicidade se mostra disponível em todos os momentos do dia, o tempo inteiro!





Acaba que os pais, culpados, sentem que devem compensar sua ausência com objetos materiais. Como não são bobos nem nada, os publicitários usam essa culpa para induzi-los ao consumo. Sem querer negar nada aos filhos, acabam endividados. Isso gera estresse familiar.





É justo esse bombardeio com quem não sabe se defender? 




Escolha da escola x Consumismo x Erotização precoce



Além do estímulo ao consumo na televisão, não podemos descartar a influência dos pares e a maneira com a qual a escola lida com a publicidade em seu espaço.




Tive várias péssimas experiências nesses quase 10 anos como mãe. Já presenciei uma garotinha dizer pra outra que não aceitasse minha filha, porque além de ela não conhecer os brinquedos, ainda não os possuía. Tinham 2,5 anos e uma pressa latente em julgar pelo ter.





Há uns dois anos, minha filha, influenciada pelas amigas, não queria usar o uniforme que havia lhe comprado. Queria um mais justo, que se amoldasse ao corpo. Queria se parecer com a amiguinha que ia parecendo um arremedo: de sombra, de delineador, de batom e laquê pra segurar um coque no alto da cabeça. Também queria unhas pintadas e brincos grandes que balançassem ao menor movimento. A mochila não podia ser qualquer uma, tampouco os cadernos. Essas mesmas meninas não queriam brincar ou correr pra não correrem o risco de se “desmontar”.





Pequenas Barbies num universo de aprendizagem. Tinham 7 anos.




                               sexismo, erotização precoce, consumismo infantil, influência dos pares, corpo ideal




É inegável a influência dos pares. Para serem aceitas, as crianças sentem necessidade de consumir. Isso acirra uma competição que não é nada saudável, ainda mais num ambiente escolar. Por mais que eu estivesse ao lado, explicando, dando suporte emocional, o meio em que ela vivia a fazia parecer um alienígena.





Com a mudança da escola, notamos um melhora de 100%. O que me leva a afirmar: devemos escolher a escola que melhor se adeque a nossa forma de ver o mundo e de travar relações com o meio e com as pessoas. O grupo social no qual a criança está inserida influencia muito.





Embasada na ecopedagogia, essa escola valoriza o afeto, a relação de companheirismo, o feito a mão. Neste ambiente, meus filhos se sentiram acolhidos e menos ansiosos por consumir.





Lá se usa papel reciclado; há promoção de troca de uniformes duas vezes por ano, onde ficam dispostos em araras e cada pai vai lá e escolhe aquele que lhe aprouver; nas festas de aniversário, não é incentivada a troca de presentes, mas um convite à turma para que juntos construam um que possa ser oferecido ao amigo; nas festas da escola, cada família fica responsável por levar seus copos, pois a produção de lixo com descartáveis não é aceita; há também oficinas de tie-dye para dar cara nova as desgastadas blusas do uniforme; as crianças escolhem na horta o que querem levar para casa…





Nesse ambiente que convida o aluno a ser criança, a poupar, a reutilizar, a se sujar, a subir em árvores, a colher frutas do pé, a Bia nunca mais lembrou da maquiagem e das roupas coladas. E aprendeu que ninguém deve depender de objetos para ser quem é.




Cheguei até a acreditar que a única responsável por esse combate ao consumismo fosse eu, na condição de mãe. Ora, quem dá a cartada final, quem tem decisão de compra, quem tem o dinheiro sou eu, não meus filhos.



Mas onde fica a ética? Onde fica a responsabilidade do Estado? Pois a publicidade danosa dirigida ao público infantil gera impactos na vida das famílias e da sociedade.



                            publicidade, consumismo infantil, propagandas nocivas




Na época em que fumar era coisa de gente descolada, oferecer cigarros de chocolate para as crianças brincarem de imitar os adultos era considerado normal. Isso um dia JÁ foi permitido, vejam vocês.





Se olharmos atentamente, quantos produtos nos são oferecidos com o mesmo propósito? Com o mesmo embasamento cientificamente falso visando nosso conforto e a nossa praticidade? Quem aqui acredita que um suco de caixinha conserve as mesmas vitaminas de um suco natural? E as papinhas industrializadas para bebês com o selo da Associação Brasileira de Pediatria? E as bolachas recheadas enriquecidas com sais minerais e ácido fólico?





Se a gente cai nessas armadilhas, o que dizer de um criança em formação?





Como lidar?





Já comentei no meu blog que não proíbo, oriento. Dá mais trabalho, é verdade, mas acredito piamente que uma criança só se desenvolve no contato com a realidade.





Tenho a sorte de ficar um bom tempo em casa e com eles, de modo que estamos sempre conversando sobre tudo o que assistimos juntos na televisão (e cada vez menos expostos à ela). Nada é verdade absoluta, temos o dever de questionar tudo o que nos é oferecido de bandeja. Minha missão é tirá-los do reino da fantasia, do mundo mágico das possibilidades de consumo.





Otto pede tudo o que vê nos comerciais. Ele tem todo o direito de pedir, mas eu me reservo o direito de não comprar.





Sandálias de salto – Barbies – castelos cor de rosa – maquiagens – roupas erotizantes – infinitos acessórios – armas a laser – bonecos que incitam à violência – quem financia essa merda toda? Decidi que não seria eu.





Não tenho o costume de frequentar lojas de brinquedos. Não tenho o costume de comprar brinquedos. Não temos o costume de passear em shoppings, preferimos aproveitar o que essa cidade tem de melhor: as praias e os parques. Lá incentivo o brincar, a aproximação, o diálogo.





Ando na contramão, pois instituímos que as datas comemorativas ou comerciais – como queiram – é o dia em que eles ganham um brinquedo à sua escolha.





Isso os ensina a esperar e a ponderar suas vontades. Aos poucos fui ensinando o valor das coisas, o valor do dinheiro. Quando vamos escolher um brinquedo em uma loja, eles já sabem que há um limite. Quando digo para o Otto o preço, ele mesmo exclama: é caro! E eu emendo: precisamos disto? A resposta é sempre “não”.





Negar é um ótimo exercício para nós que vislumbramos outras possibilidades de oferecer bem estar, e para eles, que saem da apatia em que a publicidade os coloca.





A lição





O consumismo nos deixa num estado de descontentamento permanente, nos deixa totalmente padronizados, sem identidade.





Nessa vida imaginária, em que comprando somos mais, não há amadurecimento.





Que o Brasil saia de seu estado letárgico e cumpra um papel que também é seu, estabelecendo regras claras que evitem a entrada da publicidade em espaços que são exclusivos das crianças.





Por todo o exposto apoio e acredito numa Infância Livre de Consumismo.










* texto publicado originalmente no Infância Livre de Consumismo.






terça-feira, 23 de julho de 2013

Do constrangimento ao orgulho





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Ilustração:  Abigail Halpin








Era dessas que escrevia em diários, e nas agendas além de escrever, colava todo tipo de treco que existia no mundo. Morria de orgulho delas...até acabar o ano. No ano seguinte, mais amadurecida, as escondia no fundo do armário. Dava uma vergonha reler certas coisas, que olha!



Com uma caneca de chá na mão e sem ter o que fazer, fui revisitar este blog. Passear mesmo por publicações antigas. Comecei do começo. Bem daquele comecinho que vc não sabe por onde começar. Ri. Relembrei as motivações de voltar a escrever. Eu, que só escrevia em diário.





Nesse passeio, pude reviver muitos bons momentos, pude rever as crises pelas quais passei, marcos dos desenvolvimentos dos meus filhos. Tudo registrado. Um verdadeiro inventário da vida. Mas também senti vergonha. 





Porque eu quando comecei não sabia sequer o que era um código de html, naturalmente não sabia da existência de uma blogosfera, mas em algum momento do percurso, quis fazer parte dela. Quis inclusive, ganhar dinheiro escrevendo, o que explica eu ter topado alguns publieditoriais. Isso porque sempre me achei seletiva nessas escolhas. Os fiz na maior boa fé, mas hoje, só topo fazer para produtos e empresas que compartilhem verdadeiramente dos meus valores.



Sempre recusei vender espaço para grandes marcas no blog, mas descobri que podemos fomentar as pequenas empresas, as artesãs, as mulheres empreendedoras. Conheci a Marina Ribeiro - proprietária da marca - num evento, mas só pudemos conversar enquanto aguardávamos o avião. Imediatamente descobrimos afinidades e por sorte nossa relação teve continuidade com as redes sociais. As afinidades começaram a dar lugar a admiração! É com imenso prazer que anuncio uma parceria com a loja Marré Deci - especializada em bodies para bebês geeks. É uma honra poder incentivar e agregar mulheres empreendedoras como ela.






roupas para bebês, balzaca materna, parceria, anúncio, orgulho blogueiro





Concomitante à vergonha senti orgulho do caminho que percorri. Não só como mãe, mas como pessoa. O processo de aprendizado é contínuo e dura uma vida inteira, portanto estaremos sempre reescrevendo histórias cujo ponto final sinalizava o fim. Abriremos parenteses e transformaremos o ponto final em reticências em muitos dos textos aqui, do BM.









sexta-feira, 19 de julho de 2013

Síndrome do zigoto errado


Antes de começar esse post, devo dizer que esse texto não trata da obra de Elisabeth Badinter, que aborda o tema no livro "Um Amor Conquistado - o Mito do Amor Materno", que acreditem, ainda não li. Embora traga alguns elementos não só dessa obra, como da síndrome do zigoto errado, abordado por Clarissa Pinkola Estés.







síndrome do zigoto errado
via








A relação fusional mãe-filho, nesse modelo de amor materno tal como o conhecemos surgiu no século XIX - em termos históricos, isso significa ontem. Pinta a mãe como uma pessoa pura a quem são atribuídos sentimentos dos mais nobres.





Até bem pouco tempo atrás, duvidava que o amor materno - instintivo, fosse de fato um mito. Hoje não duvido mais. 





É possível, aliás, é bem comum que aconteça de você não se sentir adequada à sua família de origem. Estranhamento de ambos os lados. Dos pais com relação a vc, de vc com relação a seus pais. Às vezes, a parecença é só no nível genético, mas em temperamento, nos gostos, nas aspirações, vc pertença a um outro grupo. Tal como na história do Patinho Feio contada por Hans  Christian Andersen, que sugere que vc que é diferente aguente, até encontrar a sua própria turma. É a síndrome do zigoto errado, mencionada mais acima.





Essa sensação de não pertencimento com a sua família, gera uma série de inconvenientes. Gera culpa. Gera vergonha. Sofrimento em ambos os lados. Eles se perguntam: mas por que meu filho é tão diferente? (com uma conotação bem negativa) Vc se pergunta: por que eles são tão insensíveis? Não há respeito pela sua natureza inata. É como se nada se encaixasse. 





Vc é a tese e sua família a antítese. Eles querem coerência. Querem que vc seja hoje exatamente do jeito que foi ontem. O dinamismo da sua natureza lhes parece impalpável.





Tudo o que vc quer é amor. Tudo o que eles querem é paz.





Esse sentimento de inadequação faz com que os pais se sintam ofendidos o tempo inteiro, enquanto vc tem a sensação de que não vai conseguir agradar nunca. Vc faz o que faz, pensa da forma que pensa porque segue a sua natureza, está apenas sendo. Isso parece irritá-los profundamente, apesar de essa não ser sua intenção. Não adianta.





Então, apesar de pertencerem a mesma família, estarem sob o mesmo signo relacional, o sentimento parece não fluir. Uma relação entre pais e filhos para dar certo, deve funcionar da mesma maneira que em todas as outras. Há que haver respeito e admiração.





Se vc é mãe/pai e usa sua condição para exercer poder de controle e se emitir da posse de vida do seu filho, vc definitivamente não o ama. Mesmo usando sua condição para legitimar esse controle, o famoso "é para o seu bem." Se vc determina quando e como devem ser iniciados os ciclos de desenvolvimento, vc deve ser um tipo de deus, menos mãe/pai. Se vc humilha, torna menor, o faz conviver numa eterna situação de inconveniência, sente uma necessidade incrível de ser consultado em todas as instâncias, desculpe, mas vc definitivamente não ama seu filho.





É difícil passar anos a fio na companhia de quem não pode nos ajudar a florescer. Isso funciona para os dois lados. Isso nos limita, reduz nossa energia, nos tira a potência de vida. Falando em português claro: investir numa relação falida é perda de tempo. Investir nessa relação em nome da manutenção dos laços pode causar além de dor, frustração. Chega um momento na vida, talvez até por instinto de sobrevivência, que devemos nos cercar de pessoas com quem nos sintamos bem, uma espécie de família psíquica.





Uma relação de parentesco não garante amor. Uma relação de parentesco não pode ser usada como instrumento de controle, não garante a posse nem pode condenar a um erro perpétuo. Porque existem pessoas que sabem amar e outras que simplesmente não sabem.





O amor é portanto, construído.


Amor é libertador, é acolhedor, sobretudo nas diferenças.


Permite o crescimento.


Deixa vicejar.











* título do post vem de um conto do livro Mulheres que Correm com os Lobos, cuja inspiração vai além.




quarta-feira, 17 de julho de 2013

Morte e vida do relacionamento



renovar os votos





A longevidade de um relacionamento me intrigava quando eu era uma adolescente, afinal temos curiosidade pelo que ainda não vivemos. O questionamento ao ver casais que envelheciam juntos era inevitável: como conseguem?



Achava que a real natureza do casamento era a monotonia, era uma dependência exclusiva, era confiar seu futuro e sua intimidade a um salvador. Era uma espécie de solidão compartilhada.



Seria possível haver amor depois de anos de convivência?

Hoje, casada há doze anos, sei que é possível desde que o relacionamento passe por muitos finais e reinícios; que tenha muitos fluxos e refluxos, que você encare seu companheiro como alguém que vai te ajudar a florescer e principalmente, que haja conexão entre si. Um casamento pode sobreviver períodos sem sexo, mas nunca sem uma conversa, sem a intimidade de ser quem se é. Isso além de amor, é confiança.





Quem nos vê como casal, acha improvável que haja conflito - teria eu responsabilidade sobre a imagem que passo? - mas digo sem o pudor de quem tem uma privacidade a preservar, que temos. Muitos. Acontece que tenho o estranho costume de enaltecer a imperfeição, só para poder me orgulhar do caminho percorrido.





Quando escolhemos um parceiro, o fazemos com a crença de que a união será para a vida toda. Comigo não foi diferente. Nesses doze anos, mudamos muito. Amadurecemos. É claro que as mudanças em nós refletem na forma como nos relacionamos, afeta a convivência. Por isso é tão importante manter a conexão!



Noto muitos casais fazendo malabarismos para manter o amor tal e qual no seu estágio inicial, sem perceberem que eles estão mumificando-o numa alegria insistentemente forçada. "O desejo de forçar o amor a prosseguir somente no seu aspecto mais positivo é o que faz com que o amor acabe morrendo, e para sempre."



Não vivo de crises, mas vivo as crises. Nesses momentos, onde tudo parece particularmente difícil, que somos forçados a olhar para o outro e sobretudo, para nós mesmos e se fazer uma pergunta: ainda vale a pena?



Nesse balanço se aprende tanto! Há uma valorização não só do outro, mas da história, do caminho. Por tudo o que vivi ao longo desses anos, é nisso que acredito: que é preciso deixar morrer alguns ciclos da nossa vida a dois, para que novos surjam. O que se teme pode nos fortalecer, nos curar.



Um aspecto do relacionamento morre a cada crise. E nele morrem as expectativas superficiais, o desejo pela perfeição, as ilusões. 



Tememos a morte, por isso todas as crises são temidas. Achamos que podemos nos esconder ou tentamos evitá-las a qualquer custo, refreando o amadurecimento, os ciclos naturais da vida.



Por isso é sempre muito positivo após cada morte, cada fim de ciclo, poder olhar para o outro e dizer sim com honestidade e aceitar o outro em crescimento, mais cúmplices, mais amigos, mais maduros.



"O amor tem seu custo. ele exige coragem. ele exige que percorramos a distância. amar significa ficar com. Amar significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara; Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir." Clarissa Pinkola Estés





Viver as crises é renovar os votos.







segunda-feira, 15 de julho de 2013

O poder que vem da união


poder da união








"Na história, um velho está à morte, e chama a família para perto de si. Ele dá um pauzinho curto e resistente a cada um dos seus muitos rebentos, esposas e parentes. 'Quebrem o pauzinho', determina ele. Com algum esforço, todos conseguem quebrar seus pauzinhos ao meio.





'É isso o que acontece quando uma pessoas está só e sem ninguém. Ela pode ser quebrada com facilidade.'





Em seguida, o velho dá a cada parente mais um pauzinho.





'É assim que eu gostaria que vocês vivessem depois que eu me for. Juntem seus pauzinhos em feixes de dois ou três. Agora, partam esses feixes ao meio.'





Ninguém consegue quebrar os pauzinhos quando eles estão em feixes de dois ou mais. O velho sorri.





'Temos força quando nos juntamos a outra pessoa. Quando estamos juntos, não podemos ser quebrados.'"








Essa é uma história dentro das muitas histórias que Clarissa Pinkola Estés traz no seu livro "Mulheres que correm com os lobos". Tão curtinha, tão singela, me chamou bastante atenção por nos dizer tanto!





Como ela mesma diz, estar em grupo é instintivo, descobrir a nossa família psíquica nos proporciona a sensação de pertencer a um todo.







terça-feira, 9 de julho de 2013

Ironia - quando a lei que leva o nome de uma mulher é aplicada por um homem




"Maria da Penha é uma sobrevivente. Seu marido tentou matá-la duas vezes. A primeira, com um tiro nas costas que a deixou paraplégica. A segunda, eletrocutada no chuveiro. Ela foi à forra - além de prender o criminoso, batizou a lei que protege a mulher vítima de violência doméstica."





Assim começa a reportagem que conta um pouco da trajetória dessa cearense de 63 anos. Depois da dor e da humilhação de ser agredida, transformou sua existência na luta pelos direitos das mulheres. Dentre as modificações trazidas com a Lei 11.340/2006, há medidas protetivas para vítima e a restrição importante ao não julgamento da demanda pelo juizado especial - cuja pena pode ser substituída por multa. (foi o que aconteceu no meu caso)






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reprodução







Nessa semana, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, decidiu (recurso) que Dado Dolabella não deveria ser enquadrado na lei Maria da Penha na agressão cometida contra sua ex-namorada, Luana Piovani. O desembargador Sidney Rosa da Silva entendeu que a atriz "não pode ser considerada uma mulher hipossuficiente ou em situação de vulnerabilidade. É público e notório que a indicada vítima nunca foi uma mulher oprimida ou subjugada aos caprichos do homem."





Quando escrevi meu depoimento sobre as agressões físicas que sofri, o fiz por muitos motivos. Um deles era pra mostrar que toda e qualquer mulher está sujeita à violência de gênero, que esta não é privilégio dos marginalizados, nem dos economicamente desfavorecidos. E que não somos nós quem devemos nos envergonhar, nem devemos nos tornar passivas diante da violência. Isso acontece, infelizmente, em todas as esferas sociais fruto que é, de uma cultura permeada pelo machismo.





A grande ironia é ver a luta pela implementação de direitos que beneficiem às mulheres ser aplicadas por um homem, dessa forma. O desembargador, criou uma ficção jurídica - como salienta Nádia Lapa para a revista Carta Capital - já que a lei não faz distinção de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião. A ficcionalização do mundo jurídico é isso: afastar o Direito da realidade social revelando uma crise paradigmática entre a operacionalidade jurídica e aquele a ser aplicado em casos concretos, em demandas reais.





A atitude do desembargador nos mostra que o operador do Direito, quando fala sobre este, o faz por ideias pré-concebidas, já que o intérprete da lei é um sujeito inserido no mundo a partir de sua historicidade, agregando seus valores nas decisões. Não existe neutralidade axiológica. Seu discurso nunca é isento, visto que o texto legal não subsiste como ente disperso no mundo. 





A violência praticada contra mulher ocorre em qualquer classe social, de modo que essa categorização proposta pelo desembargador é muito perigosa. A Lei Maria da Penha não é apenas para as hipossuficientes, é para todas as mulheres, independente de sua classe social. Quem sofre violência - seja ela física, sexual ou psicológica - não pode e não deve silenciar a agressão. Muito menos se culpar pelo ocorrido.





Que fique a lição de Luana, que preferiu a denúncia ao silêncio.


O caso continua e precisamos estar atentxs aos desdobramentos.





Este não é um assunto da esfera privada da Luana Piovani.


É algo que diz respeito a todas nós.






segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sobre nós, o tempo




Acabava de me despedir da sua irmã que ia à escola, quando me entreguei de corpo e alma para te receber. Andei em círculos. Andei com as mãos na barriga. Chorava e sorria. Sabia que vc estava pronto. E queria que vc soubesse como eu ansiava por te ver. Parece até que foi ontem.





No hospital, de mãos dadas com teu pai, andei mais um bocado. Segundo ele, demos duas voltas ao mundo! Preferia o silêncio dos passos no corredor comprido a cortar a ligação que estabelecera contigo que se posicionava para o nascimento. Falava com teu pai através do olhar. Nos dizíamos tanto.





Imaginei mil coisas para o momento do expulsivo, mas estava indo tudo tão bem, vc saiu tão rápido que só me restou sorrir. Verdade que sorri chorando, mas ver vc saindo, nascendo foi um dos momentos mais lindos da minha vida. Mais uma vez, procurei teu pai com os olhos e nessa hora, parecíamos dizer a mesma coisa. Falávamos lágrima. E quando te olhei pela primeira vez e senti teu cheiro, era como se nós já nos conhecêssemos de muito tempo.





Parece até que foi ontem, que posicionei tua boca sedenta no meu peito, e me deslumbrava vendo tua habilidade em se aconchegar no meu colo, enquanto suava aquele suor da satisfação da mamada - dormindo e acordando. Nem bem pisquei e vc já estava virando de um lado para o outro da cama, sorrindo um sorriso cheio de dentes. Sobre nós, o tempo. Foi lindo te descobrir, te conhecer, acalmar teu choro sentido naquelas madrugadas frias, acalmar o coração sentindo o teu cheiro, saber o verdadeiro significado do plural ao ver vc brincando com sua irmã. Incrível ouvir tua gargalhada, ver vc arriscando seus primeiros passos - sempre tão seguro, tão impetuoso! Mais incrível ainda foi ouvir tua voz ao pronunciar a primeira palavra. Como é linda tua voz! Como é lindo te ouvir falar!



Sobre o tempo, com cuidado, com afeto e com muita intimidade construímos um vínculo, construímos quem somos hoje. Verdade que eu costumava fazer projeções sobre ele. Ao te ver pequenininho, passava a imaginar como vc seria aos cinco, aos dez, aos quinze. Parece que foi ontem. Mas nem nos meus melhores sonhos, te vi assim, como vc é hoje: tão cheio de vida, trazendo nos olhos o brilho do encantamento. Tudo tão genuíno.




Tudo o que é bom parece passar muito rápido e foi assim que se passaram todos os momentos. Os bons e  os necessários, como as noites insones. Olhando para trás, vejo o quanto de comprometimento houve! Ora eu te conduzindo, ora vc me modificando.



Estamos crescendo juntos, meu filho.





Que o tempo, esse senhor tão bonito, continue a agir como de seu feitio, já que o respeitamos.






Por todo o tempo ao teu lado, sou grata.


Por tudo o que aprendemos juntos, também.



Feliz 5 anos, meu filho.