A longevidade de um relacionamento me intrigava quando eu era uma adolescente, afinal temos curiosidade pelo que ainda não vivemos. O questionamento ao ver casais que envelheciam juntos era inevitável: como conseguem?
Achava que a real natureza do casamento era a monotonia, era uma dependência exclusiva, era confiar seu futuro e sua intimidade a um salvador. Era uma espécie de solidão compartilhada.
Seria possível haver amor depois de anos de convivência?
Hoje, casada há doze anos, sei que é possível desde que o relacionamento passe por muitos finais e reinícios; que tenha muitos fluxos e refluxos, que você encare seu companheiro como alguém que vai te ajudar a florescer e principalmente, que haja conexão entre si. Um casamento pode sobreviver períodos sem sexo, mas nunca sem uma conversa, sem a intimidade de ser quem se é. Isso além de amor, é confiança.
Quem nos vê como casal, acha improvável que haja conflito - teria eu responsabilidade sobre a imagem que passo? - mas digo sem o pudor de quem tem uma privacidade a preservar, que temos. Muitos. Acontece que tenho o estranho costume de enaltecer a imperfeição, só para poder me orgulhar do caminho percorrido.
Quando escolhemos um parceiro, o fazemos com a crença de que a união será para a vida toda. Comigo não foi diferente. Nesses doze anos, mudamos muito. Amadurecemos. É claro que as mudanças em nós refletem na forma como nos relacionamos, afeta a convivência. Por isso é tão importante manter a conexão!
Noto muitos casais fazendo malabarismos para manter o amor tal e qual no seu estágio inicial, sem perceberem que eles estão mumificando-o numa alegria insistentemente forçada. "O desejo de forçar o amor a prosseguir somente no seu aspecto mais positivo é o que faz com que o amor acabe morrendo, e para sempre."
Não vivo de crises, mas vivo as crises. Nesses momentos, onde tudo parece particularmente difícil, que somos forçados a olhar para o outro e sobretudo, para nós mesmos e se fazer uma pergunta: ainda vale a pena?
Nesse balanço se aprende tanto! Há uma valorização não só do outro, mas da história, do caminho. Por tudo o que vivi ao longo desses anos, é nisso que acredito: que é preciso deixar morrer alguns ciclos da nossa vida a dois, para que novos surjam. O que se teme pode nos fortalecer, nos curar.
Um aspecto do relacionamento morre a cada crise. E nele morrem as expectativas superficiais, o desejo pela perfeição, as ilusões.
Tememos a morte, por isso todas as crises são temidas. Achamos que podemos nos esconder ou tentamos evitá-las a qualquer custo, refreando o amadurecimento, os ciclos naturais da vida.
Por isso é sempre muito positivo após cada morte, cada fim de ciclo, poder olhar para o outro e dizer sim com honestidade e aceitar o outro em crescimento, mais cúmplices, mais amigos, mais maduros.
"O amor tem seu custo. ele exige coragem. ele exige que percorramos a distância. amar significa ficar com. Amar significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara; Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir." Clarissa Pinkola Estés
Viver as crises é renovar os votos.
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