quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A roupa nova do blog


Olá, estimado leitor! 





Venho por meio deste, informa-lhes sobre a nova roupagem do BM. Tudo foi pensado com muito carinho e executado pelo olhar e pelas mãos habilidosas de Anne Pires. E vale ressaltar a sua paciência e seu profissionalismo. (super indico)





Com nova foto e descrição do perfil; com novos botões de compartilhamento; com nova descrição do blog.
 





Faltam alguns detalhes, que estarão acertados em breve. 





Gostaria de convidá-los a curtir a fanpage do blog, a conhecer e a seguir-me no pinterest.





Não ficou solar? 





Não ficou bonito?





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domingo, 25 de novembro de 2012

Uma história de agressão




"Às vezes, a vergonha é útil. Ela pode penetrar as defesas que ela mesma construiu.



O romancista Thomas Keneally disse uma vez: “Escrever um romance é ir nu, não importa o que você esteja escrevendo. Você sempre se revela." 




Continuação desse texto.



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Hoje compreendo o exercício de olhar-se no passado, muito comum por pessoas mais velhas. Não sou velha, mas também não sou tão nova. Gosto da minha idade, mas já gostei mais da pessoa que eu era.





Amava aquela menina questionadora e melancólica de natureza. Amava o jeito como ela lidava com os problemas dela e dos outros. Era dessas que estava sempre disposta a ajudar, apesar de manter uma certa distância emocional, que facilitava muito no apoio que ela sempre se dispunha a dar. Lembro que não gostava muito do nariz - sempre batatudo - e das bochechas cheias que convidavam ao amasso.





Ela nasceu velha, com uma maturidade que chamava a atenção. A avó sempre a convidava a viver a infância e a imaturidade natural e vigorosa da adolescência, mas ela sempre respondia que não sabia ser assim. Simplesmente não sabia. Sua alegria era verdadeira, porém comedida. Comedida também era a forma como expressava seu descontentamento. Sempre raivosa, zangada, nervosa - mas nunca, agressiva. Fazia o tipo amável, mas jamais confundida como uma pessoa meiga.





Respeitava a todos e esperava o mesmo tratamento. Tinha pavor a inimizade, tramoias típicas do horário do recreio. Aproveitava seu tempo com quem gostava, não desperdiçava com quem não merecia. Não julgava, só não se misturava. 





Essa menina cresceu cheia de poucos e bons amigos e na escola, tinha o respeito e amizade de vários professores, que a tratavam como uma igual. Passou bons recreios nas salas deles, comendo cream cracker e bebendo água.





Tinha uma atração pela noite, pelos discos, por uma vida onde pudesse ser livre. A mãe sempre muito rígida, afetivamente distante, era do tipo controladora. Essa menina queria ir além, morar fora, ter namorados, mas nunca casar (tá, só às vezes). Também não gostava de criança e filhos não estavam em seus planos.





"Atraído" por esse modo de viver, por essa alegre melancolia, um dia um homem a procurou. A primeira investida foi quando ela contava com 13 anos. Um escândalo. Como de boba não tinha nada, logo avisou a quem mais confiava: a avó - que soube limar a audácia desse homem, que por sinal, nessa época, era casado.





Anos depois, foi procurada novamente. Estava naquela fase de descobrir-se mulher, estupefata com o estranho poder que poderia exercer sobre o sexo oposto. Não se pode negar, que essa sensação mexe conosco e dá uma vontade quase irresistível de brincar com isso, só pra saber se ele tem um limite.





Um dia, cedeu às investidas e ficou com ele, que tinha 14 anos a mais que ela. Presa e angustiada com a ideia de estar fazendo algo errado pela primeira vez, novamente procurou a avó, que se chocou ao saber do acontecido. Outro escândalo. Mais escandalizada ficou a mocinha, por não saber o real significado e alcance daquele seu gesto. Mas vem cá? Logo ela, que se julgava tão pé no chão? Iniciou-se um pequeno conflito interno. O primeiro de muitos que viriam.





Só depois da morte da avó, experimentando o luto e a revolta, ela resolveu se entregar a esse cara que ainda a rondava como uma mosca em cima do esterco. Iniciou-se não só um relacionamento conturbado, mas a morte daquela menina de quem tanto gostava.





Pelo luto ela chorava. E aquele caminho que estava escolhendo, a enojava e envergonhava, ao mesmo tempo que a encorajava e "fortalecia". Isso gerou uma perturbação tão grande, que passou a se navalhar no escuro do quarto. Agindo como uma nefelibata, buscava uma espécie de consolo na dor física, quando a emocional se tornava insuportável.



Queria muito ser sozinha. Optar por viver uma vida solitária é uma coisa, sentir-se sozinha, sem amparo por aqueles que deveriam te acolher e amar é outra bem diferente. 





Era um amor clandestino - isso eu aprendi com ele que tentava me convencer de que isso era muito bom! Que a vida pra valer a pena, tinha que ser vivida com intensidade. Sabia com quem estava lidando, portanto sabia o discurso que deveria empregar. A partir dali, vi e ouvi coisas que jamais pensei que existiria. Fui apresentada à maldade, ao vício e ao sexo sem sentimento. Estava entregue.





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Aos 18 anos tivemos a nossa primeira noite. Foi tudo muito forçado pra que parecesse inesquecível, afinal, uma virgem merecia uma pequena tenda para que se armasse um espetáculo. Foi tudo meio nojento e eu tentava me convencer de que estava fazendo a coisa certa a qualquer repente de lucidez.





Ele era uma criatura sem nenhum atributo especial. Era feio, magro e esquisito. Falava alto, tinha um sorriso falso e um olhar malicioso. Mas conhecia o mundo, a vida - justificava. E era aquilo que eu buscava naquele momento. Uma quebra de paradigma. Queria viver perigosamente, queria ousar, queria chocar. Enfim, queria fazer tudo aquilo que nunca havia feito. Estava negando a minha essência.





Fui iniciada no mundo do álcool e dos remédios tarja preta que ele dolosamente punha na minha boca. Dizia que era bom, que iria me acalmar, que me deixaria melhor. Experimentei embriaguezes de corpo e de alma enquanto ele ria, orgulhoso. 





Minha família preocupada com os constantes ataques, com as brigas homéricas, com as crises de choro que descambavam pra agressão, com o fato de eu me cortar, procurou um psiquiatra. O diagnóstico foi certeiro: síndrome maníaco-depressiva. Isso foi em 97, quando a bipolaridade ainda recebia essa denominação.



A fragilidade me tornava vulnerável às investidas dele. Sempre que me via assim, provocava situações até que elas descambassem para o vexame. As brigas começavam do nada, em momentos que elas não tinham porque acontecer. Isso me tirava do eixo, em estado constante de beligerância.





Tomava remédios fortíssimos e a cada crise, eu comia cartelas e mais cartelas de comprimidos. Não era pra morrer, claro, mas fazia isso sempre que queria apagar por uns dias. Funcionava.



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A pior parte, se é que podemos eleger uma, foi quando a mocinha sempre tão cheia de ideais, levou seu primeiro tapa. O estrondoso som do silêncio, do espanto. O som daquele ato ecoaria por anos. Lembro dela correndo pro espelho. Naquele momento, com a mão no rosto, já não se reconhecia. Diante do pavor do ato, viu um filme da própria vida. Viu as convicções escoar em lágrimas. Viu o olho inchar no mesmo momento em que o valentão desmoronava em cuidados e arrependimentos falsos.



Estava cheia de vergonha. Um sentimento tão forte e tão desconcertante. Já havia sentido vergonha de muitas coisas, mas nada se comparava a isso. Estava vulnerável pela primeira vez na vida e sem a avó como refúgio.



Não conseguir esconder uma marca de agressão é como estar nua em meio a uma multidão.



Chegar em casa e encarar a minha mãe foi ainda mais doloroso. Um olhar doído de pena e raiva.



Segui adiante mesmo sabendo que seria perigoso. Não podia de uma hora pra outra dar o braço a torcer e abdicar daquele que julgava ser o meu amor. Não podia olhar pra todos que me avisaram, que eles estavam sim, certos.



Enquanto hesitava, ele fazia como todos que tem esse padrão de comportamento fazem: transferia a mim a responsabilidade por seus atos. Pedia para ser salvo, dizia que ninguém me amaria daquela forma, que amor é intenso mesmo, que eu era uma menina e precisava aprender de uma vez, que era só um pobre homem atormentado sem jamais ter a intenção de ser violento.



Fui orgulhosa e paguei o preço.



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Pra que submeter-me à violência desse homem? Por que escutar e dar crédito à essas historinhas de arrependimento tão patéticas, tão manjadas? Por que dar credibilidade pra alguém que bate, humilha e vive sob efeito de álcool?



A ação violenta trata o ser dominado como objeto. Como sujeito, é silenciado e torna-se dependente e passivo. Perde sua autonomia, sua liberdade e sua capacidade de autodeterminação para pensar, querer, sentir e agir.



Quão fundo é o poço?



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Houve outras agressões, verbais e físicas. Sempre imaginei a dor que mulheres sentiam em situações como aquela...mas senti-la foi infinitamente pior. Vulnerável estava sob o verniz perigoso de um fetiche. Fiquei deformada por uns dias. Qualquer movimento era doloroso, e causava medo (e nojo) de olhar o meu próprio corpo.



Nesse momento, decidi levar a minha vida adiante. Estudava quase 12h por dia pra conseguir passar no vestibular. Passei aos 19. Logo no primeiro semestre, consegui um emprego no fórum. Todas essas conquistas o deixaram ameaçado. Afinal, estava, sim, me sentindo mais autoconfiante, retomando as rédeas, assumindo o controle. Sentia-me capaz e experimentava o gostinho doce da autoestima.



Lembro nitidamente da última vez em que fui agredida, pois foi a última.



Sentindo que estava perdendo terreno, ele me convidou para almoçar num dos restaurantes mais badalados na cidade. Característica muito comum de homens com esse perfil: se fiam em coisas para demonstrar sentimentos, para barganhar perdão e mostrar arrependimento.



Do nada, iniciou-se uma pequena discussão. De repente um acesso de fúria. Dizia que eu era ingrata e que agora que estava na faculdade iria facilmente me interessar por um garotão ou na pior das hipóteses, me tornar uma daquelas acadêmicas chatas e estudiosas que ninguém iria querer comer. Sim, minha gente, esse tipo de homem é extremamente, estupidamente machista.



Saí de lá não puxada pela mão, mas arrastada por um carro em movimento por quase 200m. Infelizmente tenho uma cicatriz pra lembrar desse dia. As pessoas que viram aquele ato covarde nada fizeram. E posso até imaginar o que pensaram, afinal, com o machismo se condena a vítima, nunca o agressor. Vai ver pensaram, "ela mereceu". O espetáculo continuou em seu apartamento. Naquele dia saí de lá, com a certeza de que jamais voltaria.



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O que é mais perigoso nesse tipo de homem-violento-atormentado-coitadinho é que eles não sabem, ou não querem, ouvir um não como resposta. Não aceitam que suas vítimas deem um basta às agressões. Não aceitam. Simplesmente não aceitam.



A minha vida se tornou um inferno. As ligações eram constantes, era surpreendida por ele em todos os lugares para onde ia, era seguida, vigiada. Fui procurada inclusive no trabalho. Foi tudo arquitetado com o sentido de me desabonar, de acabar com o moral, de achincalhar-me em público. Ele não me procurou na secretaria onde trabalhava. Fui pega na porta de entrada do fórum, no horário pleno de funcionamento. Estava lotado. Ele tentou conversar e quando disse educadamente que  não tínhamos mais nada para falar, que fazia votos de que ele fosse feliz e....armou-se o maior escândalo do universo.



Gri-ta-va que já tinha me comido tanto que eu não tinha mais serventia alguma; que eu era uma pobre suburbana a quem ele havia transformado; que não queria mais me comer...comer...comer...essa palavra foi repetida infinitas vezes em tom de deboche, de escárnio, de desprezo. Coisificada - era assim que estava. Saiu de lá algemado dentro de um camburão.



Passei por mais alguns episódios dessa natureza, com o mesmo propósito. Onde era "achada" nos lugares e execrada na frente de todos. Conseguiu inclusive entrar na faculdade. Na ocasião, foi ao Rio de Janeiro fazer vestibular para entrar como transferido, sem prestar vestibular - era prática comum nessa época.



Não esqueço o primeiro dia de aula do semestre que dei de cara com aquela expressão cínica, sorrindo pra mim. Desde então, perdi a paz. Ele não assistia às aulas dele, só para ficar na frente da minha sala, me encarando. Era uma espécie de pressão psicológica. Ia atrás de mim o tempo inteiro. Um dia, tentou conversar, mas pedi que ele me deixasse em paz e seguisse sua vida. Na hora do intervalo, com todos os alunos fora de sala, entrando e saindo do bloco, ele deu mais um show. Escondi-me no banheiro. Ele gritava da porta, que por eu ser uma vagabunda ele não iria querer mais nada comigo (inverter toda a situação é especialidade desse tipo); que eu parasse de persegui-lo, que ele estava cansado de dizer que não me queria mais, vejam vocês....sentada num vaso sanitário, eu chorava. Saímos de lá e fomos ao Reitor que providenciou que este saísse de lá, direto pra uma delegacia. Nessa ocasião, minha mãe me defendeu. Sentia-me menos pior, apesar de toda a fragilidade em que me encontrava.




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Abrimos um TCO, fomos a audiência no Juizado Especial e experimentei o gosto amargo do desamparo de quem espera por justiça. No sistema penal brasileiro, não se pune a intenção (ameaça), mas o crime consumado. Ou seja.



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Cansada de tanto terror psicológico, de andar me escondendo pelo campus e de ser ameaçada de morte, tranquei a faculdade e um pouco de mim morria naquele momento.



Só pra ilustrar e situar vcs no tempo. Passei quase três anos com esse cara, nem sei ao certo. Parece que foi em outra vida. A perseguição na faculdade se deu exatamente um ano após o término.



Os homens violentos, machistas, misóginos - eles não tem limites.



Portanto, tenham cuidado ao menor sinal de desrespeito. Não aceitem. Não se calem. Não confiem. Não queiram consertá-los. Não achem que o amor regenera esse tipo de gente. Não tome essa responsabilidade como sua. Não se intimidem.



Senti vergonha por tudo isso, senti um nojo de mim, impossível de descrever.

Até perceber de uma vez por todas, que esses eventos não precisavam ser negados, apagados na memória e que não era eu quem deveria se envergonhar. 

Também não poderia fazer de conta que eles não existiram, mas incorporá-los a minha vida.

Pois tudo isso que aconteceu, fez de mim a mulher que sou hoje.

Norteou as escolhas da minha vida.



Hoje, liberto-me dos fantasmas, dos pudores.



{continua}




segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O não entregar-se e a reconstrução do feminino


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Nunca fui metade.


Nunca fui de meios-termos.


Sou dessas que ou é ou não é.





Como também ninguém consegue manter-se linear, tudo isso um dia mudou. A vida que era tão certinha, caretinha, um dia deixou de ser assim. Não simplesmente deixou de ser. Eu quis deixar de ser. Quis me jogar num abismo. Fiz escolhas erradas e como não poderia deixar de ser, paguei o preço disso.





Jurava que seria mais fácil, que esse preço fosse tipo os de loja de departamento, que coubesse no meu bolso. Depois de tudo o que vi e vivi, jurei que poderia esquecer. Fiz algumas muitas sessões de terapia, troquei muito de médico, investi na medicação, desisti delas. Não queria me libertar de uma coisa e me aprisionar em outra. Isso não fazia sentido algum. Nunca fez.





Enquanto tentava esquecer e corria pra por a minha vida nos trilhos novamente, tinha noites e mais noites de pesadelos vívidos. Aqueles que nos fazem acordar com uma sensação de abandono, tristeza e amargura por ter revivido no inconsciente tudo aquilo que se faz força pra deixar no passado. 





O problema talvez fosse esse...o de querer a todo custo esquecer. Um amigo meu, me disse à época que eu deveria incorporar aqueles tristes acontecimentos à minha vida. Não daria pra apagar. Aceitando-os e os encarando de frente, eu conseguiria suplantá-los. Isso exigia de mim maturidade. E ser madura, minha gente, dói.





O tempo passou. Eu casei. Tive filhos. Esqueci.


Relembrar já não me causa dor, só uma sensação de estranhamento. Mas tudo o que aconteceu durante três anos da minha vida, me fez ser como sou hoje. Não sou pior, nem melhor. Sou diferente. Fiquei diferente. Por muito tempo isso me incomodava, mas não entendia o porquê.





Agora é diferente. Não dá mais pra continuar a ser essa criatura disfarçada. Desenvolvi um medo de envolver-me com pessoas, com o que elas propõem, limitando tudo o que posso dar e receber delas. Desenvolvi um medo de sair de casa, de me aventurar em locais que não conheço, de tentar, de me expor. Isso tem me prejudicado muito, porque a cada dia que passa, sinto que o mundo cobra mais de mim, que sei que posso fazer - mas ainda assim, insisto em me manter na concha. Naquela onde me sinto protegida.





Por que falei tantas coisas sem nada dizer? Porque creio que esse seja um primeiro passo. Porque sei que na hora em que eu decidir falar abertamente sobre algo que me machucou tanto, poderei finalmente me ver livre. Porque vou construir o que foi desconstruído.





Venho sentindo essas mudanças há algum tempo e amadurecendo aos poucos. Nesse meio-tempo li sobre a medicalização da vida e sobre como ceder à diagnósticos nos desconstroem, nos enfraquecem. A pessoa que escreveu esse texto anos atrás, não é a mesma de hoje.





Então, a leitura da noite me revela isso:





" Quais os sintomas associados aos sentimentos de um relacionamento interrompido com a força selvagem da psique? Sentir, pensar ou agir segundo qualquer um dos seguintes exemplos representa ter um relacionamento parcialmente prejudicado ou inteiramente perdido com a psique instintiva profunda. Usando-se exclusivamente a linguagem das mulheres, trata-se de sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, sem significado, envergonhada, com uma fúria crônica, instável, amarrada, sem criatividade, reprimida, transtornada.





Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade para os outros, escolhendo parceiros, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, superproteora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites.





(...)





Recear aventurar-se ou revelar-se, temer procurar um mentor, pai, mãe, temer exibir a própria obra antes que esteja perfeita, temer iniciar uma viagem, recear gostar de alguém ou dos outros, (...), perder a energia diante de projetos criativos, encolher-se, humilhar-se, ter angústia, entorpecimento, ansiedade." 





(trecho do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés)








Diante de tantos sintomas negativos, não me senti mal. Foi incrível a identificação com cada um deles. Saber que é possível recuperar-me é alentador.





E é pra isso que quero viver.


Para entregar-me.










sábado, 10 de novembro de 2012

A festa do pijama, a mãe estressada e as não-fantasias

















Estudei em escola Marista por quase toda a minha vida escolar. Tenho excelentes lembranças das vivências de grupo acontecidas fora desse ambiente. Porque existem coisas que não se aprendem em cartilhas.



Todo ano o nível de estresse nessa casa bate a estratosfera e a culpa é da festa do pijama - um evento escolar anual.





Segundo a escola, é um momento especial, que vai além de brincar e se divertir. É também um momento pedagógico que valoriza a autonomia, a coragem e a organização das crianças, bem como o prazer de estarem perto dos amigos.



Ano passado foi a primeira vez que dormiram longe de mim e acabei não fazendo o registro no blog, nem sei bem por que.  Funcionou. Voltaram maravilhados com a rica experiência. Isso explica toda a ansiedade que sentem nos dias que antecedem essa festa.



Professores e alunos se mobilizam nos projetos de decoração da sala, eles participam de tudo, o envolvimento é total. Cada série escolhe um tema de decoração. Esse ano teve até castelo medieval, com ponte levadiça! e uma sala oriental, com muitos dragões chineses e tendas em voil.



Há teatro, há baile à fantasia, jantar, fogueira, caça ao tesouro e por fim, a preparação para dormir.



Esse ano, meus queridos filhinhos quase me enlouqueceram no quesito fantasia. Mudavam de ideia quase que diariamente. Ficava ali, refém da indecisão deles. Até que na antevéspera, não tínhamos nada decidido. Bia queria ir de mexicana, com uma pintura no estilo dia de los muertos, mas Otto quis ir de gambá a falcão pelegrino. Difícil essa vida de mãe.



Até que me emputeci.



Disse que EU escolheria a fantasia dele. Saí, inclusive para comprar uma, mas desanimei ao ver o preço das bichinhas à venda. Oitenta contos num pedaço de tecido feio e ruim? No, thanks. Nem é esse o propósito da escola, muito menos dessa festa.



Então, arregacei as mangas e pedi que confiassem na mamain. Fiz todo o trabalho de pesquisa e planejamento e coloquei o marido pra executar. Sou esperta, bate!



Olha o resultado:










Oi, sou uma muminha feliz, filho de uma mulher pão-dura, que encarna e se diverte com o

personagem. Foi a não-fantasia mais comentada da escola. Todos comemora.





E minha guapíssima catrina ficou assim:






Marido prendado + vestido bordado + tiara florida essa coisa que parece

um xale = uma mexicana bem linda!










Ainda dei um jeito de borrar a maquiagem. Fuen.






Foram alegres e muito felizes para a grande noite do ano.





Paulinho e eu aproveitamos para assistir ao filme Gonzaga de Pai para Filho no cinema com um casal de amigos e depois aproveitamos a folga inédita para tomar uns tragos noite afora. Sensação estranha de que estava sempre esquecendo algo ou alguém.





O momento de buscar as crianças se transforma numa grande confraternização. Famílias reunidas em torno de mesas fartas de café da manhã. Um grande coletivo comemorando as conquistas dos seus pequenos. Nenhuma criança pede pra voltar pra casa. Sinal de segurança e acolhimento.



Soube de fonte segura que ano passado o propósito da fogueira era fazer com que cada criança ali presente, escrevesse tudo de ruim que havia lhes acontecido para que jogassem na fogueira. Era uma espécie de purificação.





Esse ano, eles alimentaram a fogueira com tudo de bom que havia acontecido e que eles queriam que acontecesse. Alimentaram o fogo com desejos. Foi mágico.





Soube ainda que ao ouvir um amiguinho comemorando algo que foi encontrado na caça ao tesouros, Otto diz em tom profético: não, não...o tesouro mesmo é a nossa amizade!!!





Aprendizado em grupo. Histórias pra contar. Brilho nos olhos. Reforço da autonomia e da segurança deles, enquanto indivíduos.



Fico feliz de que eles possam construir esse aprendizado que nasce do coletivo na infância - aquele momento único, que merece ser muito bem vivido. <3




Filhos felizes.

Pais idem.