Tampouco tive medo do escuro, e estar só, significava estar em silêncio. Soube que entrei na adolescência, quando me neguei a sair com minha mãe e meus irmãos e ela permitiu que eu ficasse. Mal pude acreditar quando a porta se fechou e pude ouvir as batidas aceleradas do meu coração. O silêncio.
Fiquei encarando a porta por uns cinco minutos, imaginando que a qualquer momento ela a abrisse e gritasse "sauci fufu ié ié" - pegadinha do malandro! Como isso não aconteceu, corri pra aproveitar esse momento pioneiro na minha vidinha juvenil. Antes de me jogar no sofá, coloquei um vinil da coleção do meu pai e fiquei cantarolando, enquanto fazia com os dedos, cachos no cabelo que à época eram bem compridos.
Poderia ter feito mil coisas, mas preferi fazer isso. Ficar sossegada.
Prezo muito esses momentos de estar comigo mesma, é a hora onde penso, repenso, revejo, analiso, pondero, critico, vocifero, rio, sofro e choro. É praticamente um exercício à convivência.
Preciso desse tempo, que me conforta e me liberta para estar rodeada por pessoas.
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| via we heart it |
Já casada, lembro de uma conversa que tive com uma amiga minha sobre amores, sexo e relacionamento. Onde ela relatava a angústia que a consumia quando ela se imaginava sem o marido. O medo que sentia ao se imaginar sozinha, sem ele pra dar o suporte que, reza a lenda, só os homens são capazes de dar. Enquanto falava, seu rosto denunciava o pavor com que ela vislumbrava o dia em que isso pudesse acontecer e sua voz tinha o tom do fracasso.
Era vítima do próprio corpo e dos próprios hábitos. Não que condene quem luta contra balança, quem escolha hábitos saudáveis e quem combine para sempremente calcinha com o sutiã - mas fazer isso por medo? Medo de ser largada? Não é lá muito saudável...
Em conversas assim, fico sempre com cara de bunda, pois não compartilho dos mesmos medos.
Ouvi tudo o que ela tinha pra dizer, mas sou sempre muito sincera com as pessoas com quem convivo e mostrei a ela minha forma diferente de pensar...com o silêncio. Não precisei verbalizar o que no fundo, ela já sabia.
Não tenho medo de perder o Paulinho. Só não quero que isso aconteça. Amo esse homem com todas as minhas forças, mas não sou refém desse amor. Nossa relação vai além do corpo, da aparência...ele se apaixonou não só pela casca, mas pelas ideias, pela minha forma de ver o mundo. Sou segura e devo isso a ele. Parecemos estar no caminho certo...já estamos há dez anos juntos!
Gosto dele, mas gosto antes de mais nada de mim. Não faço nada que não queira e sempre deixei bem claro que não lhe devo favores sexuais. Faço o que a ocasião pede, faço porque gosto, quando há clima e estamos aptos a isso. De modos, que uso calcinha bege sem o menor constrangimento. Definitivamente, não sou a pessoa certa para conselhos de mulherzinha.
Aprendi com ele, inclusive, que não há nada melhor pra "segurar" casamento que respeito mútuo e que, quando há amor a necessidade de prender alguém se desfaz por completo. Não dizem por ai que amor liberta? então...
Não tenho medo de ficar só.
Às vezes estar sozinha é uma opção e se um dia for por uma circunstância dessa natureza, ainda assim, não estarei só. Tenho meus filhos e a história se repetirá...os amo, mas não os quero prender.
Nessa altura da vida, já posso afirmar que aprendi a gostar da minha própria companhia.











