segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O poder do discurso materno






Esse texto foi escrito em setembro do ano passado, depois de um encontro com Laura Gutman, e ele traz as impressões da autora sobre esse encontro, que nos convida a pensar a maternidade a partir de nossas infâncias. Mas só ontem tive a oportunidade de lê-lo. Com autorização da autora transcrevo um trecho que veio ao encontro de muitas das minhas reflexões:





Por Anna Gallafrio:




"Laura Gutman diz que a busca deve ser pelo encontro com a criança interior. E o abismo é enorme entre o ser essencial e o personagem. O personagem foi estratégia de sobrevivência diante do desamparo! Ele, o personagem, é também importantíssimo para que consigamos ser o que disse mamãe, ser alguém que existe. Pois passa-se o tempo e nos esquecemos de toda solidão e desamparo e continuamos a pedir o que nos faltou, mas já somos capazes de pedir de maneira que mamãe nos veja: manifestações do personagem, pedidos deslocados, doença.


Do ponto de vista da criança que fui, só me lembro do que foi NOMEADO.


Entender o lugar mais sombrio é entender porque fazemos o que fazemos. Não lembramos como nos tornamos esse personagem e através dessa busca podemos entender o que foi experiência e o que foi DISCURSO MATERNO, a fala da mãe nomeando o que se passava. O que se passava com ela, diga-se.


Precisamos entender todo o enredo. Desde o começo. Organizar a BIOGRAFIA HUMANA, nomear as necessidades e os sentimentos da criança que fomos e, de alguma maneira, ainda somos.


Criar x Educar:


Criar é dar amor, carinho, contato. Educar é fazer o correto, é o que temos na ESCOLA. A escolarização regula por sistemas externos à criança. E a criança vai apagando seu fogo interior, se adaptando a esse sistema externo, a ficar sentado e quieto quando seu corpo pede movimento, a não comer quando tem fome,a comer quando não tem fome. Isso, segundo Gutman, é também REPRESSÃO SEXUAL, é afastar-se da nossa linha vital.


Impor LIMITE é impor sua PRÓPRIA LIMITAÇÃO. Laura Gutman diz que não precisamos nos preocupar com impor limites aos bebês, às crianças pequenas. Com que idade elas estarão saindo sozinha às ruas, na realidade de nossas metrópoles? 15, 16 anos? Pra que limitá-las aos 6 meses, quando começam a comer e brincar à mesa? Brincar e comer são, para os bebês, a mesma coisa. Separar os dois é separar a criança de seus pulsos vitais. Isso também é REPRESSÃO SEXUAL.


A CRIAÇÃO com amor desperta a essência. Na criação sem amor é muito fácil EDUCAR, porque falamos o que se deve fazer e a criança o faz. O bom menino, a boa menina, são aqueles que vão exatamente contra seu impulso vital, contra sua auto regulação.


Chega a adolescência e com ela um RENASCIMENTO. A adolescência é o borbulhar de uma nova potência e de uma libido que foram sendo reprimidas desde os primeiros meses de vida. Laura Gutman aponta a evidência do prazer buscado na amamentação, quando o bebê suga com todo seu corpo, com toda sua potência vital e sexual, até que esteja repleto de PRAZER, satisfeito. Mas na vida dos guerreiros a alimentação é de plástico, artificial, sem prazer, que preenche o estômago de tal forma que só nos resta DORMIR. Pois então, a adolescência é uma oportunidade de despertar para a missão no mundo, para a vocação própria, de ir CONTRA os pais, já que tudo que os pais fizeram até ali é ir CONTRA seus filhos, em essência vital. Não receber o que necessitamos quando bebês é a pior violência que sofremos, uma violência invisível e respaldada socialmente. Aprendemos a viver APESAR da ausência, sem que ninguém nomeie o que sentimos. E vale dizer que a estratégia de sobrevivência é sempre UM EM DETRIMENTO DO OUTRO. Um ciclo de violências visíveis e invisíveis. Quem não atende a necessidade do outro está exercendo violência.


Nos tornamos adultos, em busca de um olhar atento, desempenhando duramente nossos papeis estabelecidos, até que encontramos um AMOR. O amor, segundo Gutman, é o cheiro da própria sombra. (pausa para um delírio)


Existem momentos em que o personagem se QUEBRA, são momentos de CRISE VITAL, quando o personagem não dá conta de sustentar a vida. A MATERNIDADE é um desses momentos e quem é mãe sabe muito bem. Quem é mãe e desempenhou a vida toda o papel da mulher autônoma, segura, que dá conta, que faz sozinha e que se basta, sabe disso com o coração. Quem sentiu fusão emocional com seu filho, entende que, quando esse personagem necessita AJUDA, algo não se encaixa. É quando o personagem faz CRAC, se desmancha. É hora de se entender e compreender o nível de desamparo que temos e que o personagem encobriu. Começar a INDAGAÇÃO PESSOAL- método de Gutman de ir em busca de resposta de maneira assertiva e organizar a biografia. O que você é e o que você pensa que é?


Abandonar os benefícios do personagem é doloroso! Nós, adultos, podemos sair de casa sem o personagem, mas queremos? O LIVRE ARBÍTRIO é isso. É decidir usar outros recursos para vincular-se a outros aspectos e lugares da existência. É incômodo mudar, é difícil, é preciso escolher. ir pelos caminhos tradicionais é mais fácil porque estamos muito desconectadas do que realmente somos. Estamos tão aleijados do que somos que não sabemos o que fazer quando em contato com as crianças! Que difícil é estar disponível ao outro! Somos todas crianças pedindo atenção!


A mudança real é a mudança íntima, cotidiana, dentro de casa."






*** Ana Gallafrio é mãe de dois e coach, uma figura generosa e muito amorosa. Neste mês de dezembro, acontecerá o último workshop de coaching para mulheres do ano, quando elas terão a oportunidade sob a condução de Anna, de refletir sobre diversas questões e a aprender a se relacionar bem consigo e com os outros apercebendo-se de sua potência e  apropriando-se de sua essência. Para mais informações sobre o coach, clique AQUI. Para ler o texto completo sobre Laura Gutman e o poder do discurso materno, clique AQUI. Vale a pena!