quarta-feira, 9 de abril de 2014

Dois filhos e a escolha que não consegui bancar OU Tirei meu filho da escola


Sou uma pessoa organizada. Gosto de saber e me preparar para os compromisso com antecedência. Ainda assim, não gosto da rigidez das agendas com aqueles itens a serem ticados um a um, num padrão meio robótico. Simplesmente, porque nem sempre consigo fazer tudo o que programo. Basta um item não cumprido para eu sentir o caos se instalar me mostrando que não fui capaz.





Sou uma pessoa que custa a tomar decisões sérias e importantes. Penso meticulosamente, analiso os riscos. Mas nem sempre é assim. Nem sempre foi assim. Em algumas (muitas) situações, como boa sagitariana que sou, atropelo tudo, falo o que penso e me jogo no abismo da precipitação. Mas sei retroceder. Sei reconhecer quando faço uma merda. Volto atrás sem culpa e sem rodeios.





Aconteceu isso comigo há pouco tempo. Aliás, isso quase sempre acontece comigo. Talvez seja parte de um plano cármico.





Ao vencer aquela batalha interna por ter que matricular meus filhos numa escola pública, decidi que aceitaria que Otto frequentasse a creche em período integral. Ele tem cinco anos e nunca havia ficado fora de casa por dois períodos, como sua irmã um dia precisou ficar. Para mim e as necessidades que criei diante dessa possibilidade, era perfeito!





Já tinha decidido que iria estagiar numa Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, dedicaria minhas manhãs à Bia - coisa que não faço desde...que Otto nasceu! - a ajudaria com suas tarefas, em dias de prova e ficaria tranquila para escrever minha monografia. Ótimo! Na minha cabeça, claro.





Parti do pressuposto que meu filho se adaptaria a nova rotina com muita facilidade. Por ser ele um menino muito vivo, muito cheio de energia, muito curioso, muito sociável. Mas frequentar os dois turnos não durou uma semana completa. A creche passa a aceitar as crianças a partir das 7:30min e os entrega aos pais às 18:30min. Comecei a receber meu filho no fim da aula, muito apático, sem vida, sem entusiasmo. Isso porque usei da tolerância e o buscava às 16:30! 





Não demonstrava interesse por nada e sequer tinha aprendido o nome das professoras. O que foi recíproco, porque ela até a terceira semana o chamava de Pedro, João e sempre que me via perguntava: como é mesmo o nome dele? No terceiro dia em que ele estava seguindo essa rotina nova, na hora em que o colocava para dormir, ele falou baixinho com lágrimas nos olhos: mamãe, não me leva pra escola de manhã. Deixa eu ficar em casa com vocês? Não gosto de almoçar sozinho. Como não cederia a esse pedido? O abracei, pedi desculpas por ter permitido que ele frequentasse o período integral, expliquei a ele o que me motivou a tomar essa decisão. Deu-me um abraço e adormeceu.





No dia seguinte, assinei um termo para liberar a vaga da manhã para outra criança. Ele continuou indo para escola normalmente, mas apenas no período da tarde. Foi então que agucei meu olhar para o que acontecia em seu entorno e no tratamento dispensado às crianças. As professoras eram frias e distantes, como falei sequer sabiam o nome do aluno. Não custou muito para compreender o porquê do desinteresse do meu filho - um menino que chorava diariamente para NÃO sair da escola antiga, por três anos consecutivos.





Bom, lá tudo funcionava como numa escolinha tradicional. Havia uma preocupação excessiva com os horários, acredito que por conta da quantidade de refeições oferecidas durante o dia, motivo pelo qual as tarefas do projeto desenvolvidas em sala de aula eram muito metódicas, não fluiam. As tarefas não eram grandes coisas. Eles recebiam um desenho pronto e a criança tinha que pintar dentro ou colar bolinhas  de papel sem sair da risca. Não havia liberdade para criar. Era aquilo e pronto.





Com relação ao projeto, que tratava do fundo do mar - tema que Otto ama - fui chamada atenção ao final do aula. O motivo? Meu filho falava demais. Sim, querida professora, eu sei. Mas falava o quê, especificamente? Atrapalhou tua aula? Não - ela respondeu. Otto sabe nomes de todos os peixes. Peixes dos quais nunca ouvi falar. Sabe do que se alimentam e em que região do mundo vivem. Mas o problema é que as outras crianças desconhecem essas informações e isso atrapalhou um pouco. Converse com ele, por favor. Ou seja, eu teria que frear meu filho porque o conhecimento que sua cabecinha de cinco anos consegue acumular anda incomodando. Como explicaria isso a ele?





Por fim, um colega da turma, batia no Otto. Aliás, esse não era um privilégio do meu filho. O coleguinha distribuía sopapos em qualquer um que passasse a sua frente. Otto reclamava que não achava justo, que isso não estava certo. Antes de conversar com a professora, orientei o Otto a não revidar. Disse que ele poderia se defender de outras maneiras. A surpresa se deu no dia em que consegui conversar com a professora e ela no tom ríspido de costume disse que já havia tentado resolver a situação. Como? - perguntei. Ora, coloquei o menino na frente e pedi pro Otto dar um soco. Assim, ele iria pensar duas vezes antes de bater nele de novo. Mas teu filho disse que se fizesse isso naquele momento, não estaria se defendendo. Garoto esperto esse meu filho! Claro - retruquei. Seria uma agressão pura e simples. Procure os pais dessa criança para saber o que anda acontecendo no convívio familiar. Isso pode ajudar. Dei as costas e saí.



Tem escolas que funcionam apenas como depósito humano, essa é que a verdade.





Foi então, que naquele dia, naquele instante, decidi que não levaria mais meu filho para escola. Sem nenhuma filosofia em vista, só uma vontade enorme de acolher meu filho. Uma decisão impensada tomada por impulso, muito peculiar a minha personalidade. Não conversamos nesse dia, fui à faculdade e não fui eu a colocá-lo na cama. No dia seguinte, perguntei a ele o que ele achava de ficar em casa comigo todos os dias, durante todo o dia. "Jura, mamãe?" 





Expliquei para ele o que costumo fazer das minhas tardes, dizendo que preciso me dedicar a algumas leituras, que às vezes preciso sair pra resolver alguma coisa e que de vez em nunca me permito tirar um cochilo. Há três semanas estamos juntos. 





Não houve mudança significativa na minha rotina. Continuo fazendo tudo o que fazia antes, embora tenha reservado um tempo só para ele nas minhas tardes. Ganhou uma lupa enorme para analisar pedras da coleção que herdou da irmã, ganhou livros grossos sobre o funcionamento do corpo humano, de dinossauros, mapas e joguinhos de alfabetização. Como sou contra brincadeiras dirigidas, o deixo livre para brincar com o que quiser. Também diminui os nãos desnecessários. Continua fazendo seus experimentos. Cava buracos no quintal para criar campos de golfe. Junta folhas numa caixinha e vive procurando besouros no jardim. Já faz contas simples, conhece todo o alfabeto e reproduz muitas palavras em folhas soltas.





Longe de tudo o que lhe tolhia, longe de tudo o que aprisionava seu espírito livre. Porque a infância é curta demais para ser desperdiçada com aulas desestimulantes em escolas que desperdiçam o potencial gigantesco de uma criança. Criança precisa sentir prazer.






desescolarização, homeschooling, unschooling
Estou vendo uma esperança.




Estamos vivenciando a aprendizagem como um processo e não como um meio para um fim.






terça-feira, 8 de abril de 2014

Com licença - de quem é a responsabilidade com os cuidados de uma criança?












Quando assisti a esse trailer do documentário Com Licença, chorei no primeiro minuto. Me vi ali e pude reviver toda aquela dor, toda a angústia de ter que sair para trabalhar e deixar meu bebê aos cuidados de alguém. Me vi em cada mãe.





Ao voltar no tempo, me vi sentada naquela cadeira de balanço com minha filha nos braços e leite nos seios. Só queria o aconchego do meu quarto, a tranquilidade e a intimidade da minha casa. Nada nem ninguém me faziam falta. Só queria o privilégio de vivenciar aquele momento em sua plenitude sem ser constantemente assombrada pelo fim da licença maternidade. É duro saber que nada ficaria do jeito que nos agradava, sabia que dali a poucos dias, teria que deixar minha filha com alguém para voltar ao trabalho.





Quando o dia chegou me senti inundada por um sentimento forte que nem saberia descrever, pois nunca havia sentido nada parecido antes. Chorei como nunca havia chorado na vida. Minha mãe que me esperava no carro - trabalhávamos no mesmo local - disse em tom de consolo: é como se estivessem tirando um pedaço da gente, né? Sim, era isso. Sentia-me despedaçada. E essa era uma dor que sentia sozinha. Para me tranquilizar, as pessoas ao meu redor diziam que isso era assim mesmo, que logo eu me acostumaria.



Na segunda gravidez, como não trabalhava, era a vez do marido sentir essa angústia. O que justifica uma licença paternidade de 5 dias corridos? Não á toa, os encargos domésticos recaem com muito mais força sobre nós. Em cinco dias não há tempo para que o pai exerça sua paternidade dividindo as tarefas no momento tão difícil que é o puerpério. Porque o bebê só precisa da mãe mas e a mãe? Precisa de suporte, de carinho, de atenção. A mãe também precisa ser cuidada.



Será que isso precisa ser assim mesmo? Criar filhos é uma responsabilidade apenas da mãe? Apenas do pai? Dos dois juntos? Ou é tarefa para toda a sociedade? O que acontece com uma criança quando você a separa da mãe?




Conciliar maternidade e carreira é um dos nossos grandes dilemas. Falei de forma mais detalhada nesse post, que inclusive, está recheado de falas de outras mulheres-mães contando suas experiências.



Esse documentário busca exatamente entender  as questões atuais das mães urbanas que trabalham. Gestante no ambiente de trabalho, licença maternidade, licença paternidade, volta ao trabalho, rede de suporte. Traz o questionamento e suscita a dúvida: que empresas estão realmente interessadas em valorizar a gestante e a mulher que retorna ao trabalho? que empresas compreendem as novas competências que uma mulher adquire após se tornar mãe? que empresas respeitam o vínculo mãe x bebê? Qual a função social da maternidade/paternidade?



Vamos divulgar e apoiar mais uma grande oportunidade de trazer um assunto tão importante para o centro dos debates.



Seja um benfeitor ----> http://benfeitoria.com/COMLICENCA



Esse filme é a história de todos nós.







segunda-feira, 31 de março de 2014

Parto domiciliar desassistido - o relato


O relato do parto desassistido que segue baixo, escrito por Elisa Lorena, chama atenção para a força surpreendente do feminino, de se experimentar integralmente como mulher, como indivíduo forte e seguro de suas escolhas. Revela o empoderamento na sua essência, na busca por um parto natural, domiciliar e muito respeitoso. Ela estudou e desde sempre teve a certeza de saber-se capaz de trazer à vida sua filha e venceu todas as suas dúvidas cercando-se de muita informação e preparando corpo e mente para esse momento que mudaria para sempre sua vida e marcaria a forma ativa na sua maternagem.



Por: Elisa Lorena





ATENÇÃO: isso não significa que eu (ou esse blog) apoie o parto desassistido. As evidências científicas não amparam esse tipo de parto. Apenas foi a minha escolha.





O nascimento de Yara





A preparação





Minha família é cesarista do tipo "normal quando dá, né?". Então todos os relatos de nascimento são de cesáreas urgentes e salvadoras. Eu achava isso normal, como uma alternativa para se evitar a dor. A verdade é que eu nunca tinha pensado no assunto.





Já Thomas, meu companheiro, tinha uma visão diferente. Ele me disse que parir não é mais opção em nosso sistema privado de saúde, o que dirá ter um parto respeitoso.





Resolvi estudar. Felizmente na era dos blogs maternos e dos grupos do Facebook, tive muito material. Recebi emprestado também alguns livros úteis, como o "Parto com Amor" e "A Cesariana", e o maravilhoso filme "Parto Orgásmico".





Passei a questionar tudo que eu sabia sobre parto e maternidade. Questionei a analgesia, a posição de parir, a ocitocina, o nitrato de prata, o clampeamento do cordão, a separação do bebê da mãe e todo o pacote de intervenções.





Descobri que o plano de saúde não me seria útil, que parir em hospital pelo SUS seria furada, e que a casa de parto não era meu sonho (o ambiente ainda era hospitalar demais).





Desejei ardentemente um parto em casa, e o Thomas me disse que apoiaria integralmente o que eu quisesse, mas ele não achava viável ter uma equipe em nossa pequena kit.





Uma noite, com 9 semanas de gestação, eu estava tomando banho me "vi parindo", "vi o bebê saindo" do meu corpo, cheio de vérnix. Tudo desenrolou em minha mente. Avisei o Thomas: "se prepara que ela vai nascer aqui em casa!" Naquele momento para mim estava decidido.





Estudei, estudei, estudei.





Conheci uma enfermeira parteira maravilhosa, a Silvéria, que me acompanhou no pré-natal no hospital público HUB. Fiz todos os exames e segui todas as orientações que eu achava pertinente dosando bem a alimentação, as atividades físicas e o repouso. Contei com o apoio do Grupo de Gestantes do HUB e os grupos virtuais, tais como Gravidez, Parto e Maternidade.





Preparei o corpo, fiz atividade física a gestação inteirinha (natação, yoga, corrida, caminhada, ginástica localizada de preparo para o parto e pós-parto), exercitei períneo, fiz massagens.





Eu fiz a preparação da casa, comprei a piscina, a barra de exercícios, mangueira. Comprei um monitor de frequência cardíaca fetal, comprei docinhos, chocolates, frutas, incensos. Escolhi as músicas. Organizamos a logística.





Imprimi uma lista com o nome de todos os profissionais humanizados que atendem na minha cidade (só porque o marido pediu).





Assisti vários vídeos de parto. Mandei os links para o marido, que viu também. Estudei com atenção as fases do trabalho de parto e fiz o marido estudar comigo. 





Estudei, estudei, estudei. Estudei quais sinais do meu corpo eu deveria ouvir para pedir ajuda ou para saber que tudo está correndo bem.





Quando foi chegando perto do final da gestação, senti minha força interior crescer, senti a força de mil mulheres em mim. Eu sabia que tudo correria perfeitamente. Mesmo se algo saísse dos planos eu não sentiria culpa, assumi totalmente a responsabilidade. Senti-me pronta para qualquer resultado.





Assisti duas vezes no cinema o filme "O Renascimento do Parto". Nada me marcou mais do que a frase dita nele: "Nós sabemos parir. Nós mulheres gostamos de parir". Isso! Era um parto gostoso que eu me providenciaria.





Assumi para mim a responsabilidade. A responsabilidade de todo e qualquer resultado, sabendo que todas as opções tem riscos, em maior ou menor escala.





Tudo para dar a minha filha a chance de ter a melhor forma de nascimento, ou no mínimo, um prazeroso trabalho de parto. A melhor que eu conheço entre todas: eu e meu marido, com respeito, carinho, amor, aconchego, serenidade. Somente a nossa energia envolvida no nascimento.




empoderamento, força do feminino







O parto





A bolsa rompeu às 3h45 do dia 17 de dezembro. Fiquei super empolgada! Fui tomar meu banho e vi o tampão no chão do banheiro. Thomas me perguntou o que fazer e a resposta foi: "forrar o colchão com o plástico e dormir o máximo possível!"





Acordei às 10h da manhã e fiquei no computador nos grupos do Facebook até às 14h, mas sem contar para ninguém sobre o início do trabalho de parto. O futuro pai foi trabalhar. Pedi que ele me comprasse meus incensos favoritos e doces, frutas e chocolate.





Eu fui limpar a casa, comprar flores aqui perto da minha casa. Andei um pouco pela quadra. Praticamente contração nenhuma. No máximo, deixava uma bolsa de água quente na lombar para aliviar a pequena cólica. Dei uma  limpada na casa e montei o meu altar com as flores e meus cristais.





O trabalho de parto não teve progresso até a volta do pai às 19:30, afinal, nem queria entrar em TP pra valer sem ele. Jantamos, tomamos chá e fomos preparar a piscina.





Usei muito na fase latente do trabalho de parto o pano pendurado na porta. Soltava o corpo para todos os lados, rebolava, me abaixava. Aliviava muito as contrações, chegava a ser gostoso mesmo. Contrações sem regularidade, mas às vezes eu achava que vinham com intervalos menores que 3 minutos.





Eu estava feliz que o trabalho de parto tinha começado.





Mentalmente eu conversava: "mas será que essas contrações não vão se regularizar? O que eu preciso fazer para o parto acontecer?" A resposta vinha: "nada, se você foi capaz de respeitar o dia do nascimento, respeite também a hora de nascer, ela virá na hora dela, apenas sinta e viva, bebês nascem".





Entrei na piscina às 21h. Sabia que era cedo demais, mas nós queríamos estrear a piscina, que com muito carinho, o Thomas preparou. Foi uma delícia, de verdade!!! Nada de dor, bem prazeroso e relaxante. Nada de trabalho de parto também.





Saí da piscina e às 23h fomos dormir novamente, esse foi o único momento em que eu parei para ouvir os batimentos cardíacos do bebê, pois senti ela muito quietinha. Tudo normal.





Acordei às 4h30 enjoada e com muita dor de cabeça. Daquelas típicas e fortes crises de enxaqueca. Vomitei. Ficava aliviada durante a contração, que ficaram fortes, pois nesses momentos eu não sentia dor de cabeça.





Esse era o meu maior pavor, ter enxaqueca no meu TP e pensei: "troco essas dores de cabeça pelas do trabalho de parto engatado". Foi isso que aconteceu.





Lembro-me de pensar: "Eh, 24h de bolsa rota. A casa de parto não me aceitaria mais. Vai ser aqui em casa mesmo, ou em um hospital".





O trabalho de parto engatou e não senti nenhuma outra dor além das contrações. Curiosamente, sentir-se feliz justamente por causa da dor. Era ela que me dizia que tudo estava indo bem. Senti o apoio físico e emocional do meu companheiro, que estava sereno (cansado) e confiante, me transmitindo força. Em cada contração ele estava lá, massageando minha lombar.





Quando clareou, as contrações estavam fortíssimas, eu rugia, gritava com todas as minhas forças e ainda assim, entre uma contração e outra eu dormia. Rugir intensamente extravasava tudo!





Quando eu comecei a me questionar se estava indo tudo realmente bem, quando eu senti um pouco de medo, me lembrei: estou na hora da covardia! Falta pouco. Quando senti que já tinha dilatado tudo, voltei para a piscina.





Foi pauleira. O expulsivo deve ter levado mais de 1h30 de duração. Senti dor, senti medo de não acabar nunca. Senti depois uma força grande, me senti amparada espiritualmente, todo o meu povo comigo.





Senti a cabecinha cabeluda dela. Eu estava de gatas, às vezes de cócoras, dentro da água, com o meu companheiro a segurar com as mãos o peso do meu corpo, como se fosse uma banqueta de parto.





Senti ela descer, bem devagar, a cada puxo. Lembrei de não acelerar o processo, nada de fazer força, procurei deixar acontecer.





Momentos antes do nascimento, senti uma presença divina, intensa, maravilhosa. Quando eu fechava os olhos, eu "via" uma flor de lótus, branca e luminosa, na altura do meu ventre. Senti o círculo de fogo. A cabecinha saiu. No puxo seguinte, saiu o ombro e logo em seguida, todo o corpinho. Nasceu a Yara, com peso estimado em 3,5kg, às 10h37 do dia 18/12/13.





A vi nadando, de olhos abertos dentro da água. O pai pegou a bebê e me entregou. Tinha uma circular de cordão umbilical na perninha dela. Abracei e a aqueci com meu corpo e uma toalha.




parto natural domiciliar desassistido, força do feminino, empoderamento







Fomos para a cama, ela mamou e ele cortou o cordão umbilical. Deixei os dois juntos e fui tomar um banho, nesse momento, saiu a placenta, meu períneo estava íntegro. Fui dormir junto com a Yara ao meu lado, enquanto o pai cuidava de limpar o apartamento, para descansar junto comigo.





Ele foi meu doulo, mas eu que partejei.





No fim, parimos juntos.









domingo, 30 de março de 2014

O Rei Que Queria Mudar o Mundo - livro infantil













Era uma vez um país bem pequeno na montanha, onde os sábios por muito tempo anunciaram a chegada de um rei que mudaria o mundo.





Os homens desse país passaram, então, a esperar. Em seguida, foi a vez de seus filhos e, depois, de seus netos, até que um dia todos se esqueceram disso. Sobrou apenas uma jovem para cantar, ao cair da noite, as aventuras desse rei tão esperado e tão depressa esquecido.





Certa vez, chegou um homem que tinha viajado muito e que buscava um teto para passar a noite. A jovem entoou sua canção e o estrangeiro nunca mais partiu. Alguns meses depois, eles tiveram um filho...




Seria o tão esperado rei?




ciranda cultural, livro infantil,





Um livro delicado e com questões muito profundas. Simon desejou ser o rei profetizado para acabar com toda a maldade que havia no mundo. Com esse desejo saiu de sua casa para conhecer o mundo e nessa busca descobriu muito sobre si mesmo.






ciranda cultural, indicação de livro





Simon descobriu que mudar o mundo não basta, se não conhecer o que traz verdadeiramente dentro de si.







Autor: Juliia

Ilustrações: Célia Chauffrey

Tradução: Silvio Antunha

Editora: Ciranda Cultural

ISBN: 9788538028123






quinta-feira, 27 de março de 2014

Tolerância à violência contra as mulheres - estamos todos cegos




luta feminismo, violência de gênero,
via








Um estudo divulgado hoje pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelou que:







  • 58% dos brasileiros acreditam que "se as mulheres soubesse se comportar haveria menos estupros";

  • 65,1% concordam total ou parcialmente que as mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas;

  • 64% concordam com a ideia que "os homens devem ser a cabeça do lar";

  • 63% concordaram que "casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família";

  • 89% afirmaram que "roupa suja deve ser lavada em casa";

  • 82% dos entrevistados concordam que "em briga de marido e mulher não se mete a colher";








A violência é mesmo um assunto muito indigesto, é incômodo, dá náusea e causa cegueira. A cegueira se manifesta através da omissão, da covardia. Apesar de estar por todos os lugares e se apresentar em suas diversas formas: psicológica, simbólica, física, sexual, patrimonial, estatal, institucional, ninguém a vê. Ninguém quer ver.





Os noticiários apresentam as vítimas de um machismo escancarado e bem articulado, ora chamando-as pelo nome ora as apresentado como mera estatística. Mas ninguém quer falar sobre. É chato. A verdade é que estamos todos cegos. Padecemos de uma cegueira voluntária e seletiva.





Para o abusador/agressor a culpa é da vítima. Eles nem sabem mas essa é uma técnica de neutralização da culpa e faz parte de uma lógica funcional da submissão de uns sobre os outros. 





Homens submetem mulheres. Os adultos submetem as crianças. Os novos submetem os velhos. O rico submete o pobre. O branco submete o preto. E Joaquim amava Lili que não amava ninguém.





O abusador/agressor justifica sua conduta desviante dizendo que isso é algo que lhe acontece, afinal é um ser dotado de instintos. Como um bode. Ou seja, não é algo que ele faz, sobre ele não restando nenhuma culpa. Se sente autorizado, pois percebe o consentimento da vítima, pelo simples fato de ela existir e estar ali - dentro de um metrô ou andando na rua ou dentro de um escritório. Como se o desejo sexual masculino fosse algo incontrolável e o corpo feminino fosse território masculino.





O abusador/agressor é pautado por uma moral religiosa que desde sempre categorizou as mulheres em honestas e desonestas e o sistema se encarrega de abandonar aquelas que não seguem esse padrão de moralidade imposto pelo patriarcado. Nós mulheres somos reduzidas ao nosso corpo, como se estivéssemos expostas permanentemente às suas classificações vulgares. Técnica esta, passada de geração em geração, aprendida desde a mais tenra infância e a execução faz parte de um rito masculino de passagem.





O abusador/agressor considera a violência uma forma de correção. 





A naturalização das desigualdades de gênero legitimam a violência e a dominação do homem. Num mundo justo, as mulheres jamais poderiam internalizar a culpa pela violência que sofrem ou justificá-la como própria da natureza masculina.





O abusador/agressor é protegido pelo silêncio de toda uma sociedade que optou pela cegueira, mesmo diante de casos que contam com uma regulação normativa. Isso só é possível porque toda a atenção recai nas pessoas - autor e vítima - e não sobre o crime cometido.





Com relação aos crimes sexuais, o sistema penal promove uma verdadeira inversão do ônus da prova e no momento da denúncia a vítima se vê novamente exposta ao julgamento da versão masculina da lei e de seus operadores, restando a ela provar que é uma vítima real. O senso comum policial e judicial não diferem do senso comum social. É brutal. É burro.





"O sistema penal existe sobretudo para controlar a hiperatividade do cara e manter a coisa (mulher) em seu lugar (passivo)". 


Vera Regina Pereira de Andrade. 








Diante desse panorama assustador, responda olhando nos meus olhos: feminismo pra quê?













segunda-feira, 24 de março de 2014

O PAPEL DO PAI COMO ESTEIO EMOCIONAL - por Laura Gutman





Laura Gutman, o papel do pai, a maternidade e o encontro da própria sombra
via





A função do pai se desenvolve em dois tempos: o primeiro diz respeito ao apoio entre 0 e 2 anos, e o segundo, à separação, depois que a criança completa 2 anos e começa a se separar emocionalmente da mãe e a construir o próprio eu.





O APOIO





Nos tempos modernos, as mães e os pais têm dificuldade de compreender essa atitude. Refere-se à proteção e ao cuidado que o pai deve destinar à mãe para que ela possa desempenhar seu papel materno. Requer uma atitude muito ativa.





O que significa apoiar a maternidade?





1. Facilitar a fusão mãe-bebê e defendê-la. Para estar em condições de submergir na fusão, a mãe precisa se despojar de todas as preocupações materiais e mundanas. Deve delegar todas as tarefas que não sejam imprescindíveis à sobrevivência da criança: ou seja, tudo que não se refira a amamentar, ninar, acalmar, higienizar, alimentar e apoiar o recém-nascido. As tarefas domésticas, a atenção aos filhos maiores, a organização do lar, a administração do dinheiro, os conflitos com outras pessoas, as relações intrafamiliares, o reconhecimento do mundo e as decisões mentais devem ser atribuídos ao homem, que deve tomar decisões pertinentes para liberar a mãe do reino terrestre. Para mulher puérpera, esse é um período celestial, no qual sua consciência opera mais além da lógica e da causalidade. É necessário que se despoje dos pensamentos racionais e admita que atravessa uma realidade milagrosa e sem sentido aparente. A vida cotidiana continua com suas exigências e ritmos, e a tarefa do homem é justamente a de se encarregar de organizar e administrar a rotina doméstica.





2. Defender a fusão do mundo exterior, massacrado pelos palpites, críticas e sermões que circulam acerca do que "deve ser feito". Resguardar o ninho. Ser um intermediário, constituir-se em muralha entre o mundo interno e o mundo externo. Quase tudo o que chega do mundo exterior parece hostil à mãe, porque funciona em uma frequência muito elevada e veloz para a sutileza do recém-nascido e desequilibra o mundo emocional da mulher puérpera. As mães fusionadas precisam de um defensor aguerrido que lhes possibilite se retrair em sua função específica sem precisar se armar contra o que está do lado de fora. Toda energia usada para se defender é energia subtraída do processo de criação do filho. Concretamente, o homem deve zelar para que a mãe e a criança disponham de silêncio e intimidade, para que circulem pela casa poucas pessoas ou apenas aquelas requeridas pela mulher, e prover o ninho só do alimento, do conforto e da tranquilidade necessários. É interessante observar como a maioria das aves age em seus ninhos: o macho entra e sai trazendo alimentos e evitando que algum intruso se aproxime, enquanto a fêmea não se afasta dele.





3. Apoiar ativamente a introspecção, ou seja, permitir que a mãe explore a abertura de sua sombra vivenciando com liberdade e intimidade a experiência do florescimento de sua mãe interior. O apoio e o acompanhamento afetuoso permitirão à mãe que não se assuste com suas parte ocultas, que confie no processo e saiba que há uma mão estendida que poderá segurar nos momentos mais duros. Não importa se o homem compreende ou não do que se trata; importa apenas saber que algo acontece e que talvez a compreensão racional apareça mais tarde. Não há muito a compreender, é tempo de fazer a travessia.





4. Proteger. Há muitos meios de proteger. Em nossa sociedade, isso se refere principalmente aos aspectos econômicos: é o pai quem consegue, ganha, administra e organiza o dinheiro necessário para cobrir as necessidades básicas da díade mãe-filho. Liberar a mãe dessas preocupações lhe permite sustentar a fusão e a maternidade no período inicial. O homem deve manter o espaço psíquico disponível para tomar decisões, procurar ajuda, organizar o funcionamento familiar e resolver as questões do mundo material.





5. Aceitar e amar sua mulher. Neste período, o essencial é não questionar as decisões ou intuições sutis da mãe, que surgem como redemoinhos incontroláveis, pois respondem a uma viagem interior na qual ela está embarcada e sobre a qual não tem controle. Portanto, não tem elementos para justificar suas sensações, uma vez que passa por uma transfiguração de sua existência e por um desdobramento indescritível de recordações, necessárias à fusão e a seu devir consciente. O pai não pode constituir-se em um inimigo das sensações ilógicas, dando conselhos, discutindo as mais ínfimas decisões a respeito de como erguer o bebê, alimentá-lo ou adormecê-lo, denegrindo o processo de regressão psíquica, nem impondo suas ideias sobre a educação correta do filho de ambos. Não é tempo de discussão. É tempo de aceitação e observação. É tempo de contemplação sobre como as coisas acontecem. É o Tao.





* * * *





OUTROS SEPARADORES





Quando não há um pai presente ou então o pai não consegue agir como separador, a mãe precisa permitir que algo ou alguém desempenhe esse papel.





O ideal para uma mulher é responder ao chamado da pessoa amada, que a obriga a se separar lentamente do filho fundido a ela. Por isso, depois que a criança completa 2 anos, é recomendável procurar um homem de que gostemos e com quem tenhamos vontade de compartilhar situações de adultos. Esta procura de espaços pessoais libera o filho da mãe, forçando-o a explorar outros vínculos.





O papel de separador também pode ser desempenhado por um avô ou por um amigo da mãe que esteja relativamente presente na vida cotidiana. É uma pessoa que merece a confiança da mãe e por quem se sente apoiada. O ideal é que seja um homem. Não se trata de outra mulher que ajude na criação, porque, neste caso, se estabelece uma fusão a três. Falando de separação, é necessária a presença de um homem.





Na ausência de um indivíduo que possa exercer o papel de divisor, ele pode, eventualmente, ser substituído por um trabalho pelo qual a mãe se interesse de coração, ou uma tarefa criativa, ou atividades políticas, que frequentemente são fontes de energia. E também por interesses artísticos, culturais e sociais que a mãe assuma conscientemente, sabendo que produzirão a adrenalina de que necessita para continuar ativa mais além dos cuidados com a criança. Isto ocorre, por exemplo, quando a mãe consegue se separar do filho, desculpando-se cheia de felicidade: "Não vou brincar agora porque vou trabalhar ou tenho que ir à minha aula de teatro". Quando o trabalho é gratificante, conectar-se com espaços pessoais e adultos torna-se libertador para a mãe.





Nos casos em que não há pessoas nem situações que possam desempenhar a função separadora, é necessário inventá-las depois que a criança tiver completado 2 anos. Caso contrário, a relação fusional, estendida no tempo, poderá ser abusiva para a criança: atenderá às necessidades afetivas da mãe (que retém a criança para não ficar sozinha), em vez de resolver seus problemas pendentes como adulta, liberar o filho e permitir que trilhe o próprio caminho. Nestes casos, a mãe deverá realizar as duas funções: apoiar a si mesma no que se refere à separação.





Por último, costumamos confundir separação com autoritarismo. O pai - ou a figura paterna - não precisa ser rígido nem autoritário para dizer "não". Nem as mães devem fazer ameaças usando a figura do pai para obter resultados. "Você vai ver quando seu pai chegar", esse é um péssimo recurso e a leva a perder a autoridade. O pai pode separar amorosamente. Ter autoridade é manter-se no próprio eixo. Quem desempenha o papel que lhe cabe adquire autoridade. Ora, um pai violento que precisa bater para ser ouvido perde a confiança dos filhos e fica sem condições de realizar a separação. Por outro lado, o pai que tem consciência de sua posição de divisor emocional e consegue decidir amorosamente conserva sua autoridade. "Mamãe é minha e eu vou levar você para a cama porque ela está muito cansada e quer dormir". Qualquer um dos membros do casal pode esclarecer o papel do outro para conseguir funcionalidade. É conveniente conhecer o papel do outro; é conveniente que o outro conheça o nosso papel.





Na manifestação de doenças ou comportamentos incômodos das crianças, quando elas têm mais de 2 anos e há um pai que cumpre seu papel de divisor emocional, a sombra do pai também costuma se manifestar. 








Trechos copiados na integra do livro A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, p. 129-131 e 138-140, da psicoterapeuta argentina Laura Gutman.







sexta-feira, 14 de março de 2014

Escola Pública - a discussão continua



classe média opta por escola pública,





O texto sobre minha experiência recente com a escola pública rendeu excelentes comentários aqui e na página do blog.



Importante deixar claro que não estou fazendo campanha para a escola pública, porque sei que em muitas regiões do país essa não é uma possibilidade. Quis trazer o assunto para um debate que considero pertinente, principalmente diante da falta de opção e do abuso nos preços das mensalidades cobrados pelas escolas particulares.



Preciso agradecer aos leitores que enriqueceram o debate compartilhando suas experiências, como pais/mães/profissionais trazendo novos pontos de vista; que propuseram a desconstrução para reformulação das práticas pedagógicas e que esclareceram, com muito boa vontade, pontos obscuros no texto de minha autoria.




Para fomentar o debate, decidi divulgar alguns textos que serviram de base para eu compreender e repensar o horror da classe média (eu inclusa) ao ensino público e a escola particular como produto de consumo. Espero que gostem.












"Observo ainda um certo esgotamento quanto à filosofia que impera em tais estabelecimentos privados: uma formação demasiadamente individualista, uma série de 'acessórios' que encarecem a vida escolar (material didático privado e caro e cursos extra-curriculares pagos, por exemplo) e um modelo de convivência baseado no consumo.





Observe-se, ainda, que algumas escolas vêm sendo adquiridas por grupos de educação maiores, empresas mesmo, nivelando ainda mais a prática pedagógica ao status quo individualista, estabelecendo uma relação de consumo por 'serviços prestados' entre pais e escola e contribuindo, evidentemente, para o fenômeno da mercantilização do ensino e a da proletarização dos professores."









"Existe o movimento e eu particularmente o considero muito necessário. Precisamos de gente para brigar pela melhoria de qualidade, para exigir mais pelo que se paga em impostos e é revertido para a educação, para se juntar e trabalhar em prol da escola e também para ficar no pé da gestão escolar e dos professores. Não é fácil. Porque tanto na escola pública quanto na particular, a verdade é que não se quer os pais combatendo as falhas que encontram aos borbotões. Seu filho corre o sério risco de ser hostilizado.





(...)





Então, dentro deste contexto todo, seja porque cansou de pagar, seja pela perspectiva da cota nas universidades federais, seja porque se quer acreditar que é possível melhorar a educação pública básica, esse movimento migratório já estava na hora."












"Os protestos da minha filha ecoaram em minha cabeça e, de alguma maneira, era preciso encontrar meios para aplacar a culpa que se espalhava dentro de mim. A senha foi um bilhete da escola convocando os pais para uma reunião onde seria eleita a nova diretoria da Associação de Pais e Mestres. No dia, com o melhor espírito de cidadania em punho, rumei para a escola, acompanhado de minha esposa, psicopedagoga. Afinal, pensava eu, sou fruto da escola pública. Primário, ginásio, colégio e universidade à custa do contribuinte. Ora, era hora de devolver um pouco do que recebera, naquela época, com boa qualidade.





(...)





É muito fácil falar em democracia quando o único gesto necessário é usar o Título de Eleitor a cada quatro anos para eleger representantes e depois sentar-se sobre a opinião de que as coisas públicas são ineficientes por definição. A educação, por meio da escola pública, é talvez a mais importante presença do Estado na sociedade, certamente, mais do que a polícia e o exército. Está em todas as comunidades e precisa delas para cumprir seu papel de construção do futuro e da cidadania de milhões de jovens. Delegamos não ao Estado, mas a uma burocracia despreparada e para que a sociedade assuma suas responsabilidades na gestão cotidiana do ensino público e utilize adequadas ferramentas para que a boa qualidade seja um fato e não apenas desejo na escola pública."












"Instiga-nos a pensar por que tais famílias optariam pela escola privada - e, portanto, uma despesa a mais no orçamento - se elas facilmente têm a rede pública à disposição. Estaríamos enganados se respondêssemos que a prioridade é a qualidade de ensino. No fundo, a qualidade de tais escolas não deve se diferenciar substancialmente daquilo que é oferecido no sistema público de ensino. De fato, na pesquisa de Nogueira (2013), fica claro que o que primordialmente orienta as famílias nessa escolha é a crítica de que a escola pública não oferece garantias mínimas de segurança.





(...)





Nesse sentido, a qualidade do ensino também entra no jogo, embora em uma posição nitidamente secundária. Nogueira (2013) relata que o nostálgico retrato de que a escola pública de 'antigamente' já teria morrido é uma justificativa presente para que, na atualidade, apenas as escolas particulares sejam vistas como as instituições que realmente possibilitam um aprendizado. As crianças não só aprenderiam os conteúdos curriculares como também 'disciplina', 'regras', 'normas', 'valores' etc.












"Num país em que a maioria das famílias de classe média ou alta vê o ensino privado como única opção, uma parcela desse grupo foge à regra e matricula os filhos em escolas públicas. Muitos procuram algo que os colégios particulares, por serem pagos, são incapazes de proporcionar: um ambiente diversificado, onde convivem alunos de vários níveis socioculturais.





(...)





Como não abre mão da qualidade, esse movimento da classe média em direção à escola pública ainda é restrito aos poucos estabelecimentos estatais que conseguem manter alto padrão de aprendizagem. (...)





Outra vantagem adicional citada por pais que optaram pela rede pública é a mudança em hábitos de consumo. ' A pressão consumista diminui bastante, pois não existe tanto essa coisa de eles quererem usar na escola calça de marca ou tênis da moda', conta a engenheira (...)





Outros texto da blogosfera materna: