terça-feira, 25 de junho de 2013

O Direito ao Delírio






eduardo galeano
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"Está a nascer o novo milênio. Não dá para levar o assunto demasiado a sério: ao fim e ao cabo o ano 2001 dos cristãos é também o ano 1379 dos muçulmanos, o 5114 dos maias e o 5762 dos judeus. Além disso, o novo milênio nasce no primeiro de Janeiro por obra e graça de um capricho dos senadores romanos, que em determinada altura decidiram romper com a tradição que mandava celebrar o ano novo no começo de cada primavera.




A contagem dos anos da era cristã provém ainda de outro capricho: um belo dia o papa de Roma decidiu datar o nascimento de Jesus, mesmo que ninguém pudesse precisar então em que data tinha ele nascido. O tempo ri-se dos limites que inventamos para construirmos a ficção de que ele nos obedece, mas o mundo inteiro celebra e teme essa espécie de fronteira. Milênio vai, milênio vem, a ocasião é, assim, propícia para que oradores de inflamada verve possam perorar acerca do destino da humanidade, e para que os arautos da ira de Deus possam anunciar o fim do mundo. O tempo, esse, lá continua sossegado a sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério. Verdade seja dita, porém, a uma data assim, por mais arbitrária que ela seja, não há quem resista, e ninguém escapa afinal à tentação de tentar saber como será o tempo que será.




Vá-se lá saber porém como será. Possuímos uma única certeza: no século vinte e um, ainda que possamos estar aqui, seremos todos gente do século passado e, pior ainda, seremos gente do passado milênio. Não podemos todavia tentar adivinhar o tempo que será sem que tenhamos, pelo menos, o direito de imaginar aquele que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem senão o direito de ver, de ouvir e de calar. Que tal se começássemos a exercer o nunca proclamado direito de sonhar? Que tal se delirássemos por um pouco? Vamos então lançar o olhar para lá da infâmia, tentando adivinhar outro mundo possível.




No próximo milênio o ar estará limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das humanas paixões. Nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães. As pessoas não serão programadas por computador, nem compradas no supermercado, nem espiadas por televisor. O televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de engomar ou a máquina de lavar a roupa. As pessoas trabalharão para viver, em vez de viverem para trabalhar. Será incorporado nos códigos penais o delito de estupidez, que cometem todos aqueles que vivem para ter ou para ganhar, em vez de viverem apenas para viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca. 





Em nenhum país serão presos os jovens que se recusem a cumprir o serviço militar. Os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas. Os cozinheiros deixarão de considerar que as lagostas gostam de ser cosidas vivas. Os historiadores deixarão de crer que existiram países que gostaram de ser invadidos. Os políticos não acreditarão mais que os pobres adoram comer promessas. A solenidade deixará de se julgar uma virtude e ninguém tomará a sério nada que não seja capaz de assumir. A morte e o dinheiro perderão os seus poderes mágicos, e nem por disfunção ou por acaso será possível transformar o canalha em cavalheiro virtuoso. 





Ninguém será considerado herói ou louco só porque faz aquilo que acredita ser justo, em vez de fazer aquilo que mais lhe convém. O mundo já não se encontrará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro caminho senão declarar a falência. A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos. Ninguém morrerá de fome porque ninguém morrerá de indigestão. As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua. Os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro porque não existirão meninos ricos. A educação não será um privilégio apenas de quem possa pagá-la. A polícia não será a maldição daqueles que não podem comprá-la. A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, voltarão a juntar-se, bem unidas ombro com ombro. Uma mulher, negra, será presidente do Brasil e outra mulher, negra também, será presidente dos Estados Unidos da América; uma mulher índia governará a Guatemala, e outra o Peru. Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer em tempos de amnésia obrigatória. A Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés, e o sexto mandamento mandará festejar o corpo. A Igreja ditará também outro mandamento que havia sido esquecido: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". E serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma.




Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são aqueles que desesperaram de tanto esperar e os que se perderam de tanto procurar. Seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham desejo de justiça e desejo de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem as fronteiras do mapa e do tempo. A perfeição continuará a ser o aborrecido privilégio dos deuses, mas, neste mundo imperfeito e exaltante, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro."











quarta-feira, 19 de junho de 2013

Como ser mãe/pai em uma época em que impera a lei do menor esforço? - assuntos que rendem







responsabilidade dos pais, consumismo infantil, maternidade real, criação com afeto
Culpa, não!





Não tenho a obrigação de ficar calada. Ninguém tem a obrigação de concordar. Nasce a polêmica.





Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente sabe que não gosto de estar envolvida em assuntos polêmicos, que geralmente entram em combustão com argumentos muito rasos para sustentar uma ideia, uma opinião. Não tenho tempo nem estômago para administrar isso.





Muita gente deve ter uma ideia equivocada sobre mim pelo fato de eu escrever sobre maternidade e postar muitas coisas relacionadas a isso na fan page do blog. Devem me achar uma super mãe, aquela que está acima do bem e do mal, que certamente não reclama de nada e que vive eternamente feliz.





Não gosto desse rótulo e muito menos o reivindiquei pra mim. 





Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente sabe que sou uma mãe em transformação, ou melhor, uma pessoa em transformação. Escrevo mais sobre meus erros que sobre meus acertos. Escrevo ainda, sobre as coisas que descubro, que me fazem entrar numa catarse sofrida e me modificam. Como mãe e como ser humano.





Fui mãe pela primeira vez em 2003. Não tínhamos redes sociais e as informações estavam todas compiladinhas em portais www. Ainda assim, procurei me cercar de uma quantidade gigantesca de informação. Fiz minhas escolhas baseadas não só nessas, mas em vivências familiares.



Como mãe, fui eu quem decidiu o parto. Desconhecia o termo violência obstétrica, achei injustas as intervenções no primeiro parto (natural), o descaso dos profissionais de saúde que me cercavam, mas nunca me ocorreu que nós - a sociedade - teríamos argumentos e força para lutar contra um modelo obstétrico em vigor há pelo menos um século. Chorei ao saber da episiotomia, mas ingenuamente, achei que fizesse parte do pacote. E contra aquilo, não me voltei.



Como mãe, fui eu quem decidiu não perseverar na amamentação dos dois filhos! Quem me vê defendendo ferrenhamente a amamentação prolongada acha que amamento meus filhos até hoje! A mais velha mamou até os quatro meses, quando acabou minha licença maternidade. Ouvindo conselhos do pediatra e de posse de informações equivocadas em revistas, julguei ter feito a minha parte. Mamou o suficiente - dizia. O segundo, querendo amamentar até os dois anos ou mais, com leite suficiente pra isso, fui mal orientada por um profissional da saúde. Meu filho tinha refluxo e eu, hiper lactação  Ele não conseguia mamar e eu, chorava. O pediatra deu o diagnóstico: manha. E eu sucumbi ao fracasso. Tendo refluxo, nenhum outro leite seria bom pra ele como o meu.



Até bem pouco tempo - pouquíssimo tempo, aliás - tinha o maior preconceito contra a amamentação prolongada. Não sabia que era possível amamentar durante a gestação, muito menos que mulheres eram capazes de nutrir dois filhos em idades diversas. Meu desconhecimento, me levou a falar muita besteira.



Como mãe, fui eu quem optou pela combo chupeta - mamadeira reproduzindo um padrão de vivência familiar. Eu usei. Todos os meus irmãos usaram. Ninguém morreu, veja que beleza!



Como mãe, fui eu quem optou por comidas prontas que facilitariam a vida doméstica. Diminuiriam meu cansaço e sobraria mais tempo pra mim e para minha filha. Com o segundo, a coisa foi diferente. Só não sabia que seria possível revolucionar geral, com a comida servida à todos nessa casa. Mudança de hábitos, de consumo consciente.



Como mãe, usei de recursos que aprendi ainda na infância: como gritar e dar palmadas para dar limites e mostrar a minha autoridade de mãe, por medo de ser permissiva e omissa. Só não sabia que com isso, estava apenas ensinando o descontrole e a falta de assertividade em resolver as querelas domésticas . Desconhecia o poder da disciplina positiva.



Essas foram as minhas escolhas. Não é porque as fiz que elas estão certas.





É muito cômodo escolher o caminho fácil quando não temos informação, ou quando elas nos chegam de forma parcial. E naquela época, eu queria me cercar de facilidades.






O que estava por trás de todas essas minhas escolhas? - aprendi a me fazer essa pergunta.



Existe mesmo livre escolha?



O mercado, através de suas peças publicitárias, nos bombardeia com mensagens que nos mostram que não somos capazes, que não conseguiremos dar conta. Que precisamos de um auxílio, de um produto que facilite nossas vidas. Pode ser de bisturi a macarrão instantâneo.



Encarar o meu papel de forma consciente exige um esforço contínuo. Procuro me cercar de informação não pasteurizada, que não queria me agradar, mas que me confronte com meus próprios medos, com minhas fraquezas.



Confirmar os vínculos com meus filhos, exige de mim compromisso. Mudar, quebrar paradigmas pode significar sofrimento, MAS também pode ser um antídoto, um alento. Finalmente, sair da caverna, é penoso, mas é libertador.





* * * * *



Hoje, num desabafo, contei algo que vem acontecendo na casa da minha vizinha. Não nos conhecemos. Nem mesmo sei o seu nome. Coisas da vida moderna.



Sua bebê nasceu no começo do ano e só sei que é uma menina, ao ver no varal roupinhas cor de rosa. Desde então, ouço seus choros e sua mãe falando em tatibitati. Bate aquela nostalgia! Como é bom bebê novinho em casa!



Um dia publiquei na fan page que quando a bebê chorava prolongadamente, eu colocava a mão na parede e dizia mentalmente "calma, amiga. vai passar. é só uma fase." De lá pra cá, tenho ouvido muitos gritos. Descontrolados. Altos.



Conversando com meu marido, disse que estava com pena dela. Relembramos juntos vários momentos difíceis e recordamos do tempo que achávamos que isso nunca teria um fim. Até então, não sabia que os gritos eram direcionados a bebê. Imaginei que ela gritasse com as paredes, com o marido, com a babá.



Pontualmente, a bebê acorda às 00:30. Suponho que seja para mamar. Então que ontem, não só ouvi os gritos, como pude discernir o que exatamente aquela mãe estava falando. Mandou a bebê que não deve ter  seis meses calar a boca várias vezes. Mandou parar de manha. Uma adulta mandando uma bebê parar de manha.



E foi isso que me deixou triste, que me fez perder o sono. Muita gente mostrou preocupação com a mãe, que deve sim estar passando por um momento difícil, que deve inclusive, estar com depressão pós-parto. Que seja. Afinal, sabemos que amor não se impõe nem se decreta. Se constrói. Mas na hora, naquele momento, só consegui me preocupar com a criança. Se os gritos forem acompanhados de outras formas de violência? Liguei as pecinhas e deduzi (veja bem) que há tempos essa bebezinha recebe ordens para se calar, para lidar sozinha com sua natural imaturidade. A mãe é adulta e dispõe de vários recursos para procurar ajuda, mas quais recursos a bebê possui?



Na minha fofoca matinal, escrevi algo sobre não estarmos preparados emocionalmente para ter filhos:






As pessoas querem um filho, mas NÃO querem passar pelo processo. Querem um filho, mas não querem um parto. Optam pela cesárea. Querem um filho, mas não querem amamentar. Optam pelo leite artificial. Querem um filho, mas não querem cuidar. Contratam uma babá. (que durma no quarto, inclusive) Querem um filho, mas não querem trabalho na hora de alimentá-lo. Optam pela comida industrializada. E ainda reclamam.



De fato, não gosto desse coitadismo materno. Somos da geração do menor esforço, do prazer instantâneo (como o macarrão), do prazer individual. Não queremos problemas, queremos resultados. A coletividade nos assusta. O outro não interessa. Agimos como eternos garotos mimados, num ciclo que parece inquebrantável da infantilização da vida adulta.



"Sentir-se ofendido é uma forma de negação que nossa cultura impôs com grande êxito", como bem salienta Sergio Sinay.



A maternidade não pode ser vista como satisfação imediata de prazeres só porque a fantasiamos. A maternidade/paternidade não são um simples exercício de manipulação de um painel de controle.



Queremos as facilidades.



Dizem, entre sorrisos e músicas alegres nos comerciais da tv, que não precisamos de regras para criarmos nossos filhos. Como se isso pudesse ser de alguma forma, libertador.



De fato, não precisamos de regras.



Precisamos de compromisso, responsabilidade, cumplicidade e ética.








*     texto publicado originalmente no Infância Livre de Consumismo, que conta até agora, com 4,8 mil compartilhamentos. Publicado parcialmente, também, no Diário Catarinense.

**  lembrando que esse é apenas um recorte da realidade, ou seja, um caso específico que gerou uma reflexão geral sobre a forma como exercemos nossa parentalidade e não um tratado indefectível sobre o tema.

*** achei por bem acrescentar o termo "pai" ao título por conta de uma observação muito feliz de uma leitora do MILC. Não o tinha feito, por ter iniciado o texto falando da minha própria maternagem, não por achar que os pais não devem estar isentos dessas reflexões.








segunda-feira, 17 de junho de 2013

Faces da Maternidade: Mães que lutam contra o consumismo


Um dia, não faz muito tempo, cheguei a acreditar que a publicidade dirigida para crianças, era um problema dos pais. Olha como soa óbvio: se não está contente, se não te agrega nada, se é contra, desligue a televisão. 





E é assim que pensam os defensores da televisão, os anunciantes e os publicitários, como preconiza Sergio Sinay, eles se escudam em uma desculpa cínica e universal, segundo a qual a culpa é de quem liga a televisão. Basta desligá-la para evitar tudo isso, dizem, com hipocrisia. Como qualquer sofisma, soa lógico. Mas atenta contra o valor da responsabilidade. O conteúdo dos anúncios destinados a captar consumidores infantis é psíquica e moralmente venenoso.





Felizmente existem pessoas que defendem causas, que pensam na coletividade, que se interessam pelos outros, que compram brigas e nos fazem enxergar. Confesso que até processar todas essas informações e as sutilezas do mercado publicitário, levei um tempo. Sofri e ainda estudo um bocado! 





Hoje li uma frase da Gloria Steinem que ilustra muito bem o meu período de dúvida: "A verdade te liberta mas primeiro ela vai te enfurecer."











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Antes mesmo de engravidar, decidi que eu faria diversas regulações para evitar que meus filhos tivessem pouco contato com conteúdos inadequados. Nós - eu e meu marido - decidimos que nossos filhos não assistiriam propaganda na televisão. Sou publicitária e sempre soube dos prejuízos da propaganda e de determinados conteúdos audiovisuais para o desenvolvimento saudável das crianças. E, naturalmente, individualmente e sem alarde, selecionamos DVDs adequados para a idade e com eles preenchíamos os momentos de ócio infantil na frente do aparelho de tv e assim mantivemos a nossa resolução de mater-paternidade.






Apenas em 2011, eu descobri que tinha mais gente preocupada com isso. E mais, descobri que existe uma rede de entidades ocupadas em construir uma marco legal para a publicidade dirigida à crianças. Em meados de 2011, o Conar, no qual por muitos anos achei adequado e suficiente para proteção das relações do mercado publicitário, proferiu um parecer contrário a uma destas entidades - o Instituto Alana. Um texto digno de ser um folheto! Escrito por um publicitário em egotrip o parecer me acordou para a realidade: o Conar não é suficiente para regular as relações do mercado, não a relação com os consumidores, especialmente quando são crianças. O Conar protege a publicidade, e só!






Naquela época, a minha voz era o blog e uma conta no Facebook e outra no twitter. E foi com estes instrumentos que me posicionei contra aquilo que eu achava absurdo: meus filhos estavam sendo de alguma forma protegidos, mas a minha blindagem nunca tinha sido suficiente. Eu me achei na obrigação de me posicionar publicamente. E comecei uma série de postagens sobre o tema. E este é o ponto que começa o ativismo. 






Fui reconhecida pelo Instituto Alana como uma das blogueiras capazes de advogar a causa, e num encontro em São Paulo junto com algumas das mulheres mais admiráveis da internet, conversamos muito sobre o tema e saímos de lá sem saber direito como ajudar. Mas eu decidi que iria ajudar falando, ou melhor, escrevendo, e compartilhando tudo que eu soubesse sobre o tema. Mal sabia que eu faria parte de um grupo que faria muito mais. 






Assim que voltei para casa, fui adicionada num grupo de discussão no facebook que eu acompanhava sem a devida disciplina. De repente começou um buzz no facebook inteiro sobre o apoio do Palavra Cantada a uma iniciativa do mercado para convencer a opinião pública que autorregulação é suficiente e impedir que a lei sobre publicidade infantil avançasse no congresso - sinto muito mais não vou linkar aqui, quem quiser vai ter que pesquisar mais um pouco. 






A polêmica no mural migrou para o grupo, e do tópico nasceu um grupo de trabalho, composto por gente do Brasil e do mundo inteiro. Colegas de encontro, colegas digitais e amigos dos amigos. Rapidamente escolhemos nome, cor e meu companheirão criou na pressão uma logomarca e as primeiras peças da identidade visual. Em março de 2012, começaram as atividades do Movimento Infância Livre de Consumismo . Ao mesmo tempo estávamos presente na página do 'concorrente' debatendo, recebendo grosseria e vendo colegas sendo banidas. E de repente uma coluna na Folha de São Paulo aparece colocando os publicitários sob ataque de trollers.






Gente chegou, gente foi embora. Brigamos muito, amamos muito. Choramos muito, gargalhamos muito. E já se somam 15 meses de trabalho intenso e mudanças drásticas na vida de todas que participam da empreitada. 2012  foi um ano muito intenso: chegamos onde nunca imaginamos chegar: estivemos três vezes no Congresso Nacional, uma no Ministério Público Federal, fora uma infinidade de eventos locais, sempre dando voz aos pais, às mães, expondo os nossos limites e elaborando demandas. 






Do ponto de vista prático, acho que os avanços legais são muito pequenos, somos frágeis diante do lobby que corre solto nos corredores das casas que fazem as leis, somos poucas diante dos apelos publicitários e editorias que fragilizam o poder materno e quase sempre consegue nos colocar mães contra mães. Do ponto de vista simbólico, conseguimos muitas coisas: primeiro mudamos nós mesmas, pois todas as que fazem parte do grupo continuam num processo de aprendizado e mudança; segundo porque crescemos tanto e tão rápido, recebemos tantos apoios importantes, realizamos tantas ações que chegaram à grande mídia e, o melhor, as mães começaram a entender que são mais poderosas do que as propagandas da tevê e os editoriais das revistas nos querem convencer. 






Hoje tenho minha turma nos bites e nos átomos. Por causa do MILC, conheci pessoas fantásticas que me ajudam a melhorar como mãe, mulher, ativista e cidadã. Por conta das ações locais do MILC, contruí ou reconstruí vínculos com pessoas da minha terra que vibram na nesta sintonia de priorização da infância. E - estou certa disso - se o ativismo que hoje pratico não servir para mudar o mundo todo, estou certa que mudará o nosso.





***  Mariana Sá, é publicitária e mestra em políticas públicas. É mãe de dois e escreve no blog Viciados em Colo e co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo.










sexta-feira, 7 de junho de 2013

Estatuto do Nascituro - um apanhado geral e suas implicações na vida das mulheres





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Dia 5 de junho, a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados o projeto de lei do Estatuto do Nascituro. O texto de lei define que deverão ser garantidos, desde o momento da concepção, todos os direitos do nascituro, como o direito à vida, saúde e todos os demais direitos de personalidade. E não apenas isso, prevê ainda o direito ao pagamento de pensão pelo Estado às crianças concebidas através de estupro no caso do pai - o estuprador - não puder arcar ou não foi identificado. Isso tem até apelido, é a Bolsa Estupro. O projeto segue agora para a Comissão de Constituição e Justiça e espero, por todas nós, que não seja aprovado.


 


Se você apenas ouviu falar de um tal projeto que é contra a descriminalização do aborto e mesmo assim está julgando, por achar que o que está em questão é a apenas a proteção de um embrião indefeso, sugiro aqui alguns textos - dos mais didáticos ou incisivos que circularam na internet nos últimos dias, para que possamos entender as graves implicações que esse projeto terá na vida das mulheres.







Estatuto do Nascituro: mulheres são apenas um vaso de plantas, do Sakamoto:





"Não há defensora ou defensor do direito ao aborto que ache a interrupção da gravidez uma coisa fácil e divertida de ser feita, equiparada a ir à padaria para comprar uma rosca de torresmo. Também não seriam formadas filas quilométricas na porta do SUS feito um drive thru de fast food de pessoas que foram vítimas de camisinhas estouradas. Também não há pessoa em sã consciência que defenda o aborto como método contraceptivo. Aliás, essa ideia de jerico aparece muito mais entre as justificativas daqueles que se opõem à ampliação dos direitos reprodutivos e sexuais do que entre os que são a favor. A interrupção de uma gravidez é um ato traumático para o corpo e a cabeça da mulher, tomada após uma reflexão sobre uma gravidez indesejada ou de risco. Defender o direito ao aborto não é defender que toda gestação deva ser interrompida. E sim que as mulheres tenham a garantia de atendimento de qualidade e sem preconceito por parte do Estado se fizerem essa opção.


(...)


É extremamente salutar que todos os credos tenham liberdade de expressão e possam defender este ou aquele ponto de vista. Mas o Estado brasileiro, laico, não pode se basear em argumentos religiosos para tomar decisões de saúde pública ou que não garantam direitos individuais, como poder abortar em caso de estupro. A justificativa de que o embrião tem os mesmos direitos de uma cidadã nascida é, no mínimo, patético."






Os argumentos contra a legalização do aborto são poucos e previsíveis, até porque todos já foram discutidos e rebatidos nos países em que o aborto é legalizado - nada menos que em 74% do mundo; somos nós que estamos atrasados em algumas décadas. Um argumento constante contra a legalização é que ela forçaria médicos a fazer algo que vai contra seus princípios. Claro que essa argumentação quer fazer crer que toda a classe médica é contra a legalização, o que não é verdade em nenhum lugar. Em geral, médicos são pessoas racionais, que sabem que abortos acontecem clandestinamente (mais de um milhão por ano no Brasil).


Abortos clandestinos são a quarta maior causa de morte materna no Brasil (por exemplo, aborto supera câncer de mama em internações pelo SUS).


Mas já ouvi e li muita gente dizer "bem feito". Essa gente quer que mulheres morram. Essa gente não tem a menor empatia por mulheres e nem por seus filhos. A empatia é toda por um feto, algo abstrato, sem nome, que eles chamam de criança. Assim que o bebê nasce, já não é mais preocupação deles. Agora se vira, dizem eles para a mãe. Quem mandou fazer filho?


(...)


"Há dois tipos de sociedades que condenam o aborto: as que têm um poder religioso tão forte a ponto de submeter as liberdades ao dogma, como as muçulmanas, ou as democráticas porém hipócritas, como a nossa". 


(...)


E, no entanto, continuamos criticando pessoas que engravidam sem planejar, e achando que só quem aborta é menina adolescente. Não é. Só 2,5% das mulheres que abortam ficaram grávidas de uma relação eventual. A brasileira média que aborta tem 25 anos, é casada, católica, e já é mãe (pense em quem você está condenando à prisão ou à pena de morte). Mas a brasileira média que morre de aborto clandestino é pobre e negra. Aquela que não pode pagar por uma clínica com as mínimas condições de higiene.









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Imagem da página Monólogos com Deus





Menos leviandade, por favor - de Eliane Brum - um texto da época da campanha eleitoral, mas que parece que foi escrito ontem.







Existe, sim, uma questão de saúde pública que não deveria ser ignorada por nenhum candidato sério. Segundo reportagem do jornal O Globo deste domingo, o aborto ilegal mata uma brasileira a cada dois dias. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, realizada pela UnB e Anis, aos 40 anos uma em cada cinco mulheres já fez aborto, o que equivale a mais de 5 milhões de brasileiras. Segundo a mesma pesquisa, 15% das mulheres que abortam são católicas, 13% protestantes ou evangélicas, 16% de outras religiões e 18% não responderam ou não têm religião. Segundo o Ministério da Saúde, o aborto é a quarta causa de mortalidade materna no país. Em algumas regiões do Nordeste, segundo a Rede Feminista de Saúde, chega a ser a principal causa de morte.


Você pode e tem o direito assegurado pela Constituição de acreditar no que quiser, professar a fé que bem entender ou não ter fé nenhuma. O que ninguém deveria poder – seja candidato a presidente ou cidadão – é ignorar a morte de seres humanos. Todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que as mulheres mais ricas procuram boas clínicas e abortam em segurança. E todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que são as mulheres mais pobres que morrem em procedimentos clandestinos, porque não têm dinheiro para pagar as boas clínicas. Quando estas jovens mulheres morrem, deixam filhos que não podem cuidar e famílias que se desfazem pela sua ausência, provocando problemas sociais em cadeia. Esta é uma tragédia que começa com a morte de uma pessoa e vai causando muita dor pelo caminho dos que ficam. Transformar a vida destas mulheres em moeda de barganha política, como temos assistido no início deste segundo turno, é uma indignidade.

Acho curioso que algumas pessoas que se dizem religiosas acreditam ter o monopólio do discurso da vida. E que estes que acreditam terem privatizado a verdade, ao falar em nome da vida não se preocupem com a morte destas mulheres. Não se coloquem por um minuto sequer no lugar destas mulheres para tentar alcançar seu desespero e sua dor. E então, por empatia e humanidade, perceberem que ninguém deveria morrer por falta de assistência. Assusta-me a rapidez com que estes supostos religiosos julgam e condenam outros seres humanos. Acho a compaixão um sentimento profundo, redentor. E não consigo compreender a compaixão seletiva que move estes dedos em riste.


Estatuto do Nascituro: a mulher que se foda - de Clara Averbuck





"Quer dizer: se uma menina for estuprada pelo próprio pai e engravidar, ela vai ter que carregar o filho/irmão, parir, criar e ainda ter que lidar com o pai de ambos, ou colocar o filho para adoção, como se os orfanatos fossem lugares bacanérrimos, como se o processo de adoção fosse algo fácil, como se isso tudo tivesse alguma conexão com a realidade. Se uma mulher for estuprada por desconhecido, até parece que vão caçar o cara para que ele dê pensão. Não sei o que é pior, o Estado oferecer a pensão ou sugerirem que o ESTUPRADOR pague pensão. Ele deveria estar preso, não deveria? Se encontrado, o estuprador não seria preso, mas obrigado a sustentar um filho? Vão querer visita obrigatória também? É completamente fora da realidade. Completamente. É de uma falta de empatia que eu nunca vi nessa vida. Obrigar uma mulher a carregar o fruto de uma violência é acabar com a vida dela. Ou seja, mais uma vez: FODA-SE A MÃE.


É basicamente isso que diz o Estatuto do Nascituro: foda-se a mãe, foda-se a mulher que sofreu violência, foda-se a vida delas. O que importa é a vida que foi gerada. 


E isso é baseado em que, mesmo?


Crenças. Crenças de que DEUS mandou essa vida. Gente, olha só, eu sou atéia, eu não tenho DEUS ALGUM. Se você tem um deus e ele não quer que você aborte, apenas NÃO ABORTE. Mas tire as suas idéias, as suas crenças e essa violência toda do corpo das outras mulheres. 


Das mulheres. De todas as mulheres. 


O Estado não pode mandar em nossos corpos."




Estamos falando de mulheres. De seus direitos e suas responsabilidades - que, não são exclusivas. As leis são feitas e votadas por homens e onde eles entram nessa história toda? Pela primeira vez, em todos esses dias de intenso burburinho na rede, vi alguém levantar essa questão e as palavras de Ana Carolina Frazon, coeditora do Blog Parto no Brasil, vão ao cerne da questão:




"Os caras não "deixam" abortar, mas bem que gostam de exercer sua sexualidade sem se preocupar com a reprodução - além dos 114 estupros registrados diariamente país afora. Pílula, DIU e laqueadura são os métodos anticonceptivos utilizados pela absoluta maioria da população brasileira - todos efeitos adversos sob responsabilidade do corpo feminino. Depois, a falta de creches vira um problema das mães (e não da sociedade), ainda, 5 milhões de estudantes não têm pai declarado em sua ficha escolar. Por tudo isso, minha filha, minhas três irmãs, minha mãe, minha avó e eu PRECISAMOS do feminismo."









estatuto do nascituro
Imagem da página A Favor da Despenalização do Aborto







Não podemos admitir que dogmas religiosos se sobreponham a direitos coletivos. E como bem define, Roberto Lyra Filho: " O dogma, afinal, atravessa a história das ideias, como uma verdade absoluta, que se pretende erguer acima de qualquer debate; e assim, captar a adesão, a pretexto de que não cabe contestá-la ou a ela propor qualquer alternativa. Neste viés, terá, sempre, uma tendência a cristalizar as ideologias, mascarando interesses e conveniências dos grupos, que se instalam nos aparelhos do controle social, para ditarem as normas em seu próprio benefício."





Assine também a petição.



Como disse o Min. Ayres Britto, o grau de civilização de uma sociedade, se mede pelo grau de liberdade da mulher.