Há uns três meses para o fim do ano, encontrei na minha gavetinha do criado mudo um papel cheio de rabiscos dobrado ao meio. É lá onde guardo as minhas receitas médicas e o estranhamento àquele papel, fez eu largar o livro na cabeceira tamanha a curiosidade.
Era a lista que fiz no final de 2011 com todas as resoluções que deveriam ser postas em prática no decorrer deste. Havia vários itens. Uns simples e outros bem complexos para serem postos em prática. O que ia requerer de mim, além de boa vontade, disciplina.
Uma coisa me chocou: não havia NENHUM item ticado. Não fiz nada do que me propus esperançosamente fazer. Fiquei com muita vergonha. Muita. Dobrei o papel ao meio e me pus a pensar. Se eu continuar assim, nesse autoboicote, onde irei parar? No que isso vai me levar?
Como já havia perdido tempo demais, desperdiçando tantos dias dos 365 dos que dispunha, peguei meus filhos pela mão, no dia seguinte e fomos à academia, sem ao menos esperar a segunda-feira. Como eles sempre gostaram de capoeira, curtiram a aula experimental, o método do professor, os matriculei. Assistir a essa aula me deixou tão feliz e antevendo esse desejo que nutro desde a adolescência, o professor anunciou-me a aula para adultos. Pensei no antigo desejo, de como gosto da música, da ginga e de toda a História por trás dessa luta, ponderei com o mico que seria para mim, com trinta e poucos, absurdamente sedentária praticar um esporte que exige tanto vigor físico e...não resisti. Me matriculei mesmo assim. Estou realizada. Estou me sentindo mais disposta, mais feliz, mais solta.
Enfim, um item ticado.
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No meu aniversário do ano passado, ganhei a armação no modelo aviador que tanto queria. Fui ao oftalmologista, mas nunca mandei confeccionar as lentes. Não sei se foi o medo de parecer uma hipster idiota aos trinta e poucos ou foi por pura preguiça que engavetei esse projeto.
Abri a minha gavetinha do criado mudo e resgatei dali a receita oftalmológica, catei a armação e fui à óptica mandar fazer o meu óculos novo.
Com novo visual, comemorei meus 33 anos ouvindo elogios lisonjeiros do marido. Tava merecendo essa sacudida.
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Esse ano, particularmente nesse semestre, tomei um certo distanciamento de tudo relativo ao blog. As postagens tornaram-se escassas, pensei em parar, inclusive dei-me uma pausa breve. Assisti a tudo o que se passou na blogosfera com olhos bem atentos.
Comemorei a saída das mulheres às ruas, a retomada de velhos debates, a disposição de discutir e lutar por direitos ainda não regulamentados.
A prioridade nesse semestre foi a minha faculdade. Estive muito presente nas redes sociais, onde a exigência de participação ativa é quase nula e quando exigiam essa assiduidade, simplesmente deixei passar. Tenho o meu tempo, tenho o meu jeito e além de tudo, detesto pressão de qualquer ordem, independente do propósito. Nem sempre estamos dispostos a embarcar na viagem dos outros, apesar de estarmos torcendo para que ela seja proveitosa.
Foi um ano silencioso da minha parte. Peço desculpas pelo distanciamento, mas é que para aprender é necessário ouvir. E para ouvir, é necessário silenciar. Abstive-me, também por convicção, outras para não me desvirtuar do foco que julguei ser o principal.
Por escolher priorizar a faculdade, deixei de ir a tantos seminários, a tantos encontros para os quais fui convidada como blogueira!!! Também sei que para algumas pessoas, a gente só vale enquanto estiver completamente disponível, servindo a seus propósitos. Ainda assim, resolvi pagar o preço.
Enfim, pude colher os frutos. Desde que retomei o meu curso, nunca havia tido um rendimento tão alto num semestre.
De uma certa maneira, esse era um dos itens da lista: pensar em mim.
E assim o fiz.
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Como sou imprevisível, resolvi fazer algo que deveria ter sido feito há pelo menos dez anos e que nem figurava na lista. A minha tatuagem.
Aprendi com essa, que de vez em quando, é bom esperar. Afinal, hoje sei que o que está grafado com tinta permanente no meu corpo, é algo que realmente tem um significado todo especial e de uma certa maneira me define.
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Resolvi expor uma parte da minha história, porque sei que hoje é a realidade da história de várias outras mulheres. Isso foi essencial no meu processo de cicatrização.
Ademais, fui entrevistada para um jornal local, numa matéria que trata de superação. Estarei eu e mais quatro personagens com histórias incríveis. Irá ao ar no primeiro dia do ano.
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Foi muito marcante também a descoberta de uma nova forma de me relacionar com uma filha pré-adolescente. Conhecê-la para me entregar. Esse é um propósito de vida e não uma resolução de ano novo.
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Para o ano que se inicia não pretendo fazer listinha, sob o risco de deixá-la engavetada.
Como não sou acostumada a viver no improviso, preciso planejar algo, mesmo que em linhas gerais.
Vou continuar buscando aquilo que é melhor pra mim e para os meus, levar a sério esse lance de parar de fumar, deixar de tomar refrigerante, continuar na capoeira e quem sabe, começar a correr e voltar a escrever como antes, no maior estilo old school.
Além de repetir diariamente na frente do espelho: vc pode. vc consegue. vc é capaz. Só para calar aquela vozinha incômoda da insegurança. Vou mostrar quem é que manda nessa bagaça.
Dizem que se iniciou um novo ciclo. Não duvido. O mundo não é mais o mesmo. Pelo menos, não aos meus olhos.
Escrevi sobre tudo o que aprendi nesse ano, a convite da queridíssima Mirys. Os convido a ler.
Para quem resolve seguir adiante, nada será como antes. E quando 2013 chegar, terei aprendido a mais importante lição: a de que nunca devemos esperar para por algo em prática.
Desejo a vocês um Ano Novo repleto de realizações, conquistas, amor e respeito ao próximo.


