quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Retrospectiva e Resoluções de Ano Novo


Há uns três meses para o fim do ano, encontrei na minha gavetinha do criado mudo um papel cheio de rabiscos dobrado ao meio. É lá onde guardo as minhas receitas médicas e o estranhamento àquele papel, fez eu largar o livro na cabeceira tamanha a curiosidade.





Era a lista que fiz no final de 2011 com todas as resoluções que deveriam ser postas em prática no decorrer deste. Havia vários itens. Uns simples e outros bem complexos para serem postos em prática. O que ia requerer de mim, além de boa vontade, disciplina.





Uma coisa me chocou: não havia NENHUM item ticado. Não fiz nada do que me propus esperançosamente fazer. Fiquei com muita vergonha. Muita. Dobrei o papel ao meio e me pus a pensar. Se eu continuar assim, nesse autoboicote, onde irei parar? No que isso vai me levar?





Como já havia perdido tempo demais, desperdiçando tantos dias dos 365 dos que dispunha, peguei meus filhos pela mão, no dia seguinte e fomos à academia, sem ao menos esperar a segunda-feira. Como eles sempre gostaram de capoeira, curtiram a aula experimental, o método do professor, os matriculei. Assistir a essa aula me deixou tão feliz e antevendo esse desejo que nutro desde a adolescência, o professor anunciou-me a aula para adultos. Pensei no antigo desejo, de como gosto da música, da ginga e de toda a História por trás dessa luta, ponderei com o mico que seria para mim, com trinta e poucos, absurdamente sedentária praticar um esporte que exige tanto vigor físico e...não resisti. Me matriculei mesmo assim. Estou realizada. Estou me sentindo mais disposta, mais feliz, mais solta.







resoluções de ano novo, retrospectiva, atividade física








Enfim, um item ticado.





**********************************





No meu aniversário do ano passado, ganhei a armação no modelo aviador que tanto queria. Fui ao oftalmologista, mas nunca mandei confeccionar as lentes. Não sei se foi o medo de parecer uma hipster idiota aos trinta e poucos ou foi por pura preguiça que engavetei esse projeto.



Abri a minha gavetinha do criado mudo e resgatei dali a receita oftalmológica, catei a armação e fui à óptica mandar fazer o meu óculos novo.





Com novo visual, comemorei meus 33 anos ouvindo elogios lisonjeiros do marido. Tava merecendo essa sacudida.








**********************************





Esse ano, particularmente nesse semestre, tomei um certo distanciamento de tudo relativo ao blog. As postagens tornaram-se escassas, pensei em parar, inclusive dei-me uma pausa breve. Assisti a tudo o que se passou na blogosfera com olhos bem atentos.




Comemorei a saída das mulheres às ruas, a retomada de velhos debates, a disposição de discutir e lutar por direitos ainda não regulamentados.




A prioridade nesse semestre foi a minha faculdade. Estive muito presente nas redes sociais, onde a exigência de participação ativa é quase nula e quando exigiam essa assiduidade, simplesmente deixei passar. Tenho o meu tempo, tenho o meu jeito e além de tudo, detesto pressão de qualquer ordem, independente do propósito. Nem sempre estamos dispostos a embarcar na viagem dos outros, apesar de estarmos torcendo para que ela seja proveitosa.



Foi um ano silencioso da minha parte. Peço desculpas pelo distanciamento, mas é que para aprender é  necessário ouvir. E para ouvir, é necessário silenciar. Abstive-me, também por convicção, outras para não me desvirtuar do foco que julguei ser o principal.




resiliência, decisão










Por escolher priorizar a faculdade, deixei de ir a tantos seminários, a tantos encontros para os quais fui convidada como blogueira!!! Também sei que para algumas pessoas, a gente só vale enquanto estiver completamente disponível, servindo a seus propósitos. Ainda assim, resolvi pagar o preço.





Enfim, pude colher os frutos. Desde que retomei o meu curso, nunca havia tido um rendimento tão alto num semestre.





De uma certa maneira, esse era um dos itens da lista: pensar em mim.


E assim o fiz.





**********************************





Como sou imprevisível, resolvi fazer algo que deveria ter sido feito há pelo menos dez anos e que nem figurava na lista. A minha tatuagem.





Aprendi com essa, que de vez em quando, é bom esperar. Afinal, hoje sei que o que está grafado com tinta permanente no meu corpo, é algo que realmente tem um significado todo especial e de uma certa maneira me define.







**********************************





Resolvi expor uma parte da minha história, porque sei que hoje é a realidade da história de várias outras mulheres. Isso foi essencial no meu processo de cicatrização. 





Ademais, fui entrevistada para um jornal local, numa matéria que trata de superação. Estarei eu e mais quatro personagens com histórias incríveis. Irá ao ar no primeiro dia do ano.






*********************************





Foi muito marcante também a descoberta de uma nova forma de me relacionar com uma filha pré-adolescente. Conhecê-la para me entregar. Esse é um propósito de vida e não uma resolução de ano novo.






**********************************





Para o ano que se inicia não pretendo fazer listinha, sob o risco de deixá-la engavetada.



Como não sou acostumada a viver no improviso, preciso planejar algo, mesmo que em linhas gerais.



Vou continuar buscando aquilo que é melhor pra mim e para os meus, levar a sério esse lance de parar de fumar, deixar de tomar refrigerante, continuar na capoeira e quem sabe, começar a correr e voltar a escrever como antes, no maior estilo old school.



Além de repetir diariamente na frente do espelho: vc pode. vc consegue. vc é capaz. Só para calar aquela vozinha incômoda da insegurança. Vou mostrar quem é que manda nessa bagaça.



Dizem que se iniciou um novo ciclo. Não duvido. O mundo não é mais o mesmo. Pelo menos, não aos meus olhos. 








Escrevi sobre tudo o que aprendi nesse ano, a convite da queridíssima Mirys. Os convido a ler.



Para quem resolve seguir adiante, nada será como antes. E quando 2013 chegar, terei aprendido a mais importante lição: a de que nunca devemos esperar  para por algo em prática.



Desejo a vocês um Ano Novo repleto de realizações, conquistas, amor e respeito ao próximo.








segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Eles não imitam, nos tomam como exemplos


Fui seduzida por um livrinho fino, feio e sem graça na biblioteca da faculdade. Não havia nada nele que me chamasse a atenção, exceto o título. No alvoroço da descoberta, nem prestei atenção num detalhe: o livro foi editado pela Editora Cristã Unida. Não prejudicou em nada a leitura e o livro fala justamente sobre um período bem esquecido pela literatura: a puberdade, de crianças entre seis e doze anos.





A Bia está crescendo e quero uma literatura que acompanhe esse crescimento, pra aplacar um pouco da angústia que sinto, clarear as dúvidas que tenho. Não posso discutir sobre mamadeiras/chupetas/fraldas até ter netos...





O autor retrata vários estágios da puberdade e nos reconheci em quase todos eles. Havia esquecido como é boa essa identificação! Como nos faz suspirar de alívio e muitas vezes reconhecermos que estamos no caminho certo.





Aqui estamos na fase da imitação. Segundo o autor "a pré-adolescência é um estágio vívido do desenvolvimento da criança, porque ela procura imitar aqueles que admira. O desenvolvimento social, moral e espiritual da criança caminha do regulamento para a imitação".





Ele afirma que as crianças muito pequenas são mais impressionadas pelo que lhes é dito, na pré-adolescência ela é muito mais consciente sobre quem diz.





Estávamos numa fase muito louca, porque ela simplesmente não obedecia, estava apática para com suas pequenas responsabilidades diárias. Alimentar os hamsters, é um exemplo. Fora a toalha molhada em cima da cama, fora as calcinhas penduradas no box (quem nunk), fora a manutenção da ordem na sua mesa de estudo. Todo dia eu dizia a mesma coisa. Estava começando a ficar meio louca, sabe? Reproduzindo padrões....gritando ordens, dizendo que iria me poupar e gravar tudo, para apertar play to-do dia pela manhã. Essas coisas.





Atentei para o erro que estava cometendo e passei a não falar mais nada e a ser mais organizada com as coisas da casa. Passei a arrumar minhas coisas, não a tarde quando ela estava na escola, mas a noite quando estivesse presente. Começamos a observar o efeito positivo nos atos dela.





Nós podemos exercer uma profunda influência sendo um modelo transparente e atraente a ser imitado.





Há bastante tempo Bia vem pedindo para que eu criasse um blog pra ela. Sempre prometi que lhe faria um, quando ela tivesse dez anos, desde que, se interessasse pela leitura e pela escrita. Projetei pra frente, não por ser uma pessoa esquematizada, mas para ganhar tempo para pensar no que isso significa pra ela.





Não seria exposição demais? O que ela espera tendo um blog? Visitas? Seguidores? Ao longo desse ano, fomos conversando sobre todas essas questões. Deixei bem claro que caso atendesse seu pedido, ela não seria uma blogueira. Ela apenas teria um blog, o que é bem diferente - sabemos. Seria pelo prazer de escrever, de se soltar, de aprender, de compartilhar, enfim...e depois que vi isso no relatório da escola, não tive como não ceder. Será um estímulo a mais.







reunião na escola, orgulho, puberdade, como escrever bem, desenvolvimento infantil, papo de mãe, compromisso
mata mamain de orgulho, mata!








Em janeiro completará 10 anos e como havia prometido, lhe criei um blog. O nome escolhido por ela foi Nuvem Colorê. (<3) e já tem vários textos publicados, apesar de ser privado. Condição que impus temporariamente, já que ela não vê graça em algo que não se possa compartilhar.





Soltei mais uma amarra e estou sendo constantemente surpreendida com sua desenvoltura, como nesse poema totalmente sinestésico:






Eu ouço as cores,


me alimento de nuvem,


já toquei no arco-iris,


tenho visão raio-X,


cheiro a lua.





Converso por telepatia,


me espeto com água,


vejo o vento,


Sinto o cheiro de uma flor,


 em 10.000 km de distancia.


escuto o rugido,


de um campo de dente-de-leão.












É isso. Toda criança melhora seu desempenho graças a aprovação, sucesso e realização.









sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Reunião na escola , como não curtir?


Adoro final de ano.


Aquele clima de despedida e de desejo por renovação.


É tudo tão festivo!





Ontem tivemos a reunião do encerramento do semestre na turma do Otto. Pais reunidos, professoras ansiosas pra mostrar o trabalho de um ano inteiro e pra revelar as surpresas que nos prepararam.





Houve espaço pras professoras, pro corpo diretivo e para os pais falarem sobre suas impressões. Houve vídeos, fotos e lágrimas. E o que foi mais marcante pra mim, foi o clima de gratidão generalizado. Por tudo o que nossos filhos puderam vivenciar, pelos projetos escolhidos pela professora que os manteve tão entusiasmados, tão motivados durante todo o ano!





Como a proposta da escola é pensar coletivamente, o presente escolhido para os pais foi feito pelos pequenos que durante dias pintaram um tecido que fazia às vezes de mural na própria sala de aula. Esse tecido virou uma almofada fofa que carrega a pincelada de todos e uma foto da turma.











As professoras também prepararam um portfólio caprichado que conta uma história. É tão bom ver os registros do que eles fazem longe dos nossos olhos. *.*











Depois nos dirigimos ao campo para apresentação do Boi de Mamão - uma das manifestações mais populares da ilha, que envolve dança e cantoria em torno do tema épico da morte e ressurreição do boi.











Foi tudo muito fofo e bem natural. O Otto fazia a "cabrinha", mas não contente com uma só representação, catou outro papel de um amiguinho que desistiu de última hora. Sendo assim, se apresentou como o "urso preto" também. Nas filmagens que fiz, estou rindo como uma besta. Sabe como é mãe em apresentação de filho na escola, né?





Terminou com um cafezim açoriano na agrofloresta.






Antes de a mesa estar posta, já tinha um ursinho preto que se dizia faminto se abancando pra não perder o lanche.




Adoro reuniões. <3










terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Publicidade x Gênero - como deveria ser




Desde o nascimento meninos e meninas são vítimas de construções sociais que irão moldar seus gostos, suas atitudes, valores e opiniões de acordo com o seu sexo. Os estereótipos são construídos assim: brincando.





O que esperam das meninas? Qual o universo que constroem para elas? Quais as cores mais comuns? Nasceram mesmo pra ser delicadas e estar imersas em panelinhas e num mundo onde os problemas são resolvidos com varinhas de condão?





E dos meninos? Qual o universo que constroem para eles? Por que não se estimula sentimentos de delicadeza, de amor, de amizade? Por que não promovem a brincadeira deles com as meninas?





consumismo infantilIroning

 






O Wall Street Journal informou recentemente que uma companhia sueca de brinquedos, publicou um catálogo de brinquedos de gênero neutro para as férias. Ele mostra meninos e meninas brincando com brinquedos que não são tradicionalmente associados com o seu respectivo gênero. A companhia publicou um comunicado dizendo que o catálogo reflete a maneira moderna de as crianças brincarem, sem apresentar uma imagem estereotipada deles e que melhor reflita os valores suecos.





 

consumismo infantilconsumismo infantil





{fonte}




Os brinquedos podem e devem ser agregadores, já que são excelentes meios para expressar valores e atitudes. Quebrando estereótipos e, se usado de maneira cooperativa, deixará de servir como um meio para perpetuação desses clichês sexistas.





O Brasil só vai superar esse modelo quando desconstruir essa estrutura de poder que se impõe nas relações sociais. Gostamos tanto de nos ~inspirar~ e importar hábitos de outras culturas, taí um bom exemplo a ser copiado.










segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O que vc carrega consigo?


Estava muito insegura de tornar público um capítulo tão íntimo da minha história, mas muita coisa sobre a qual escrevo, sobre o qual acredito estava diretamente ligada à essa experiência. Respeitei meu tempo e fui amadurecendo a ideia. Acredito que o que não se mostra, não se sente.



Gostaria de agradecer todos os comentários, os compartilhamentos, as mensagens e os e-mails que recebi. Muita gente estendeu a mão dando aquele apoio moral, muita gente se identificou...a todos vocês, obrigada! Vendo o texto com a perspectiva de uma leitora, percebi o meu equívoco de me reportar a essa situação como sendo um "erro meu". Não foi só meu. Não fui quem agrediu, quem humilhou, quem violentou.



Virei essa página.



Ah! algumas pessoas me perguntaram o que foi feito dessa pessoa, que fim tomou. Depois que abandonei a faculdade, que casei, nunca mais o vi. Até que, nas últimas férias, descobri que ele está morando no mesmo prédio da minha mãe. Ou seja.





**********************************



Somos fruto de tudo o que vivemos.




Toda a nossa vida pregressa acaba de certa forma, explicando o porquê de nossas atitudes, de nossos pensamentos, de nossas convicções. Cada um carrega consigo uma mala. Bom, aí o que vc escolhe levar dentro da mala são outros quinhentos.



Passei por todas aquelas experiências dolorosas, sofri o tempo necessário, juntei os pedaços para reconstruir-me. Acreditava. Acreditava que a vida era muito mais do que aquilo. Queria continuar acreditando nas pessoas, ora por que não? Queria ainda conhecer o amor, queria conhecer o mundo.



E a vida é sempre maravilhosa. A mesma que eu esculhambava, mostrou-me várias saídas. Devolveu-me o sorriso, me deu uma oportunidade. Foi então que dois anos após os tristes episódios, reencontrei o Paulinho e juntos construímos uma família.





"Pra você guardei o amor


Que sempre quis mostrar


O amor que vive em mim vem visitar


Sorrir, vem colorir solar


Vem esquentar


E permitir"








Não deve ter sido fácil pra ele se relacionar com uma mulher que havia aprendido a amar errado. Cheia de manias, cheia de desconfianças, cheia de marcas. Mas sabendo que era possível ele foi lá e fez.



Desconhecia a sensação de amar com liberdade, com confiança, sem nenhuma espécie de ciúme, sem amarras. Nunca havia sentido essa liberdade de ser quem sou. De falar sem medo de ser interrompida. De não ter meus gostos questionados. Essa liberdade de falar sobre tudo o que penso e almejo. Nunca havia experimentado a sensação de flutuar...



A vontade que eu sentia era gritar: EU SABIA! Sabia que o amor era libertador, que o amor regenerava, que  o amor cicatrizava. É mais eficaz que qualquer anti-inflamatório, tem força de analgésico e cura como um antibiótico. O amor que sentia, me fez tão segura que joguei fora meus tarjas pretas. Esse amor que sentia me fez amar ainda mais coisas. Amar mais pessoas. Amar mais lugares.



Estava com auto-estima em ordem.

Estava enfim, em paz!



Apesar disso, as cicatrizes eram um pouco mais profundas, mas pra isso o amor associado ao tempo é do remédio que me valho. E assim eu espero.



**********************************



Por isso e por tudo isso, sou quem eu sou hoje.



Por isso, aprendi a ter um olhar mais atento e menos inquisidor. Nem tudo é o que parece. Ter esse cuidado não é ser condescendente, é não ser covarde, é não ser superficial.





"Que sabe você das almas das outras pessoas - de suas tentações, de suas oportunidades, suas lutas?" - C.S Lewis.









Por isso, passei a ter critérios em todas as minhas escolhas. Perto de mim, mantenho as pessoas que somam. Não acredito em nenhum relacionamento que se mantém pela aparência, pela paixão, pelo sexo. Não acredito que ciúme de nenhuma natureza traga benefício pra relação.



Por isso, aprendi a me bastar, mesmo amando de forma libertadora. Aprendi que preciso ser feliz sozinha e que não posso, nem devo usar o outro como muleta pra minha felicidade. O outro não é o responsável, mas pode ser sim, um caminho.



Por isso, sou sensível a todas as causas ligadas às mulheres. Não dá pra ser indiferente a dor que um dia senti. Seria uma pessoa muito cretina se corroborasse com a desigualdade de gênero. O meu desejo é que um dia essa violência permitida tenha um fim, que nenhuma delas se sinta envergonhada o bastante para buscar ajuda. Que denunciem. Que não se calem, pois isso foge da ordem doméstica, é caso de justiça.



Por isso, tomo cuidado com os caminhos que decido seguir. Se o caminho não está bom, tomo um atalho. Se ele não me levou aonde eu queria, eu paro, peço ajuda e busco um novo caminho. O importante mesmo é nunca parar de caminhar.



"Nem a terra diminui ou perde, pois tudo o que se desfaz em outra terra renasce. Tudo o que se perde pode ser encontrado. Se procurado." - Jane Austen.



* esse texto é a continuação dessa história.