Estava muito insegura de tornar público um capítulo tão íntimo da minha história, mas muita coisa sobre a qual escrevo, sobre o qual acredito estava diretamente ligada à essa experiência. Respeitei meu tempo e fui amadurecendo a ideia. Acredito que o que não se mostra, não se sente.
Gostaria de agradecer todos os comentários, os compartilhamentos, as mensagens e os e-mails que recebi. Muita gente estendeu a mão dando aquele apoio moral, muita gente se identificou...a todos vocês, obrigada! Vendo o texto com a perspectiva de uma leitora, percebi o meu equívoco de me reportar a essa situação como sendo um "erro meu". Não foi só meu. Não fui quem agrediu, quem humilhou, quem violentou.
Virei essa página.
Ah! algumas pessoas me perguntaram o que foi feito dessa pessoa, que fim tomou. Depois que abandonei a faculdade, que casei, nunca mais o vi. Até que, nas últimas férias, descobri que ele está morando no mesmo prédio da minha mãe. Ou seja.
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Somos fruto de tudo o que vivemos.
Toda a nossa vida pregressa acaba de certa forma, explicando o porquê de nossas atitudes, de nossos pensamentos, de nossas convicções. Cada um carrega consigo uma mala. Bom, aí o que vc escolhe levar dentro da mala são outros quinhentos.
Passei por todas aquelas experiências dolorosas, sofri o tempo necessário, juntei os pedaços para reconstruir-me. Acreditava. Acreditava que a vida era muito mais do que aquilo. Queria continuar acreditando nas pessoas, ora por que não? Queria ainda conhecer o amor, queria conhecer o mundo.
E a vida é sempre maravilhosa. A mesma que eu esculhambava, mostrou-me várias saídas. Devolveu-me o sorriso, me deu uma oportunidade. Foi então que dois anos após os tristes episódios, reencontrei o Paulinho e juntos construímos uma família.
"Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir"
Não deve ter sido fácil pra ele se relacionar com uma mulher que havia aprendido a amar errado. Cheia de manias, cheia de desconfianças, cheia de marcas. Mas sabendo que era possível ele foi lá e fez.
Desconhecia a sensação de amar com liberdade, com confiança, sem nenhuma espécie de ciúme, sem amarras. Nunca havia sentido essa liberdade de ser quem sou. De falar sem medo de ser interrompida. De não ter meus gostos questionados. Essa liberdade de falar sobre tudo o que penso e almejo. Nunca havia experimentado a sensação de flutuar...
A vontade que eu sentia era gritar: EU SABIA! Sabia que o amor era libertador, que o amor regenerava, que o amor cicatrizava. É mais eficaz que qualquer anti-inflamatório, tem força de analgésico e cura como um antibiótico. O amor que sentia, me fez tão segura que joguei fora meus tarjas pretas. Esse amor que sentia me fez amar ainda mais coisas. Amar mais pessoas. Amar mais lugares.
Estava com auto-estima em ordem.
Estava enfim, em paz!
Apesar disso, as cicatrizes eram um pouco mais profundas, mas pra isso o amor associado ao tempo é do remédio que me valho. E assim eu espero.
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Por isso e por tudo isso, sou quem eu sou hoje.
Por isso, aprendi a ter um olhar mais atento e menos inquisidor. Nem tudo é o que parece. Ter esse cuidado não é ser condescendente, é não ser covarde, é não ser superficial.
"Que sabe você das almas das outras pessoas - de suas tentações, de suas oportunidades, suas lutas?" - C.S Lewis.
Por isso, passei a ter critérios em todas as minhas escolhas. Perto de mim, mantenho as pessoas que somam. Não acredito em nenhum relacionamento que se mantém pela aparência, pela paixão, pelo sexo. Não acredito que ciúme de nenhuma natureza traga benefício pra relação.
Por isso, aprendi a me bastar, mesmo amando de forma libertadora. Aprendi que preciso ser feliz sozinha e que não posso, nem devo usar o outro como muleta pra minha felicidade. O outro não é o responsável, mas pode ser sim, um caminho.
Por isso, sou sensível a todas as causas ligadas às mulheres. Não dá pra ser indiferente a dor que um dia senti. Seria uma pessoa muito cretina se corroborasse com a desigualdade de gênero. O meu desejo é que um dia essa violência permitida tenha um fim, que nenhuma delas se sinta envergonhada o bastante para buscar ajuda. Que denunciem. Que não se calem, pois isso foge da ordem doméstica, é caso de justiça.
Por isso, tomo cuidado com os caminhos que decido seguir. Se o caminho não está bom, tomo um atalho. Se ele não me levou aonde eu queria, eu paro, peço ajuda e busco um novo caminho. O importante mesmo é nunca parar de caminhar.
"Nem a terra diminui ou perde, pois tudo o que se desfaz em outra terra renasce. Tudo o que se perde pode ser encontrado. Se procurado." - Jane Austen.
* esse texto é a continuação dessa história.
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