Gostaria de ter começado a escrever anos atrás, para deixar registrado tudo de bom e ruim que marcou a minha trajetória. Acredito, que escrever tem o poder de eternizar momentos, sentimentos, sensações. Vou revirar o baú atrás dos retalhos mais bonitos e alinhavar minhas lembranças para ter a certeza de que não ficarão esquecidas em algum lugar da memória.
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Comentei
aqui, que engravidei aos vinte e dois anos. E tudo aconteceu de repente não mais que de repente. Engravidar nessa idade não é fácil, pois inverte-se a ordem natural das coisas. E com coragem
(nem tanta assim, convenhamos), resolvi caminhar na contramão.
Descobri a gravidez aos três meses. Já estava enjoando todos os cheiros a minha volta e comendo como nunca havia comido na minha vida. Não estranhei o atraso, pois era "normal" essa irregularidade.
Para ser bem honesta, nunca havia pensado/desejado ser mãe. Era tudo muito novo pra mim! Eu TINHA que começar a amar aquele bebezinho que estava na minha barriga....mas no começo, eu só o culpava, pois me achava incapaz de dar conta de tamanha responsabilidade.
Nesse momento, contei com o apoio do Paulinho, que começou a ser pai, antes mesmo de eu me sentir mãe. Agindo como quem não quer nada, ele foi me mostrando como amar...e nessa hora tive a certeza do quão parceiro ele seria nessa empreitada.
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Não vi glamour nenhum nessa gestação. Não entendia esse clima mágico, essa sensação super de estar carregando aquele barrigão...meus cabelos não ficaram bonitos e eu me sentia cada vez mais feia.
A barriga estava lá, linda e bela. Grande, redonda.
E eu, comendo sem parar. Chorava de fome. Enjoei toda e qualquer coisa cheirosa até o final da gravidez.
Um simples banho era um suplício. Trocava de xampu toda semana, em vão.
Engordei 22 kg. Tirei pouquíssimas fotos.
Minha pressão era baixíssima e eu, tinha que comer coisas mais salgadinhas.
Desmaiei duas vezes.
Minhas roupas eram horrorosas.
Apesar disso tudo, cantava e conversava sempre com ela. Foi assim que consegui estabeler um laço tão forte...comecei a sentir um amor tão grande, que foi me transformando.....em mulher, em mãe!
Escolhi o nome e comprei todo o enxoval de menina, sem ao menos ter tido a confirmação da ultrassonografia, que só foi acontecer no sétimo mês.
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O parto foi um parto.
Fiz todo o meu pré-natal em consultório particular, com meu gineco dos tempos de outrora, mas essa relação de confiança e amizade não pagaria a conta da maternidade. Como não tinha grana pra firulas, fui bater num hospital público mesmo.
Gente, tive o parto mais desumanizado da história.
Caráleeeooo, como doeram aquelas contrações. Por mais que eu ouvisse falar, não estava preparada praquilo. Não deixaram o Paulinho me acompanhar e, desumanamente me jogaram num quartinho carinhosamente apelidado de "sofredouro" e fiquei lá, chorando e gemendo num vale de lágrimas.
Ao invés de abrir, eu fechava as pernas....é que dá uma certa vontade de fazer cocô, gente. E ninguém tinha me dito isso! Puta merda, era o que eu conseguia pensar! Bateu uma catarse e eu me perguntava porque diabos eu tinha inventado aquilo. A toda hora queria que fizessem o "toque" na esperança de ver meu martírio no final. A dilatação não acompanhava o ritmo louco das horas que teimavam em passar....
Vendo o dia clarear, uma puta enfermeira, que tinha passado a madrugada me vendo chorar, veio me oferecer um pouco de conforto. Deu banho quente, massagem e finalmente fui levada para sala de parto. Não tinha mais forças para fazer força e me aconselharam a ficar de cócoras. Mais inteligente, né? Também achei. Vieram uma, duas, três contrações e a médica super preparada começou a bater nas minhas pernas, dizendo de forma plácida e gentil, que se eu não conseguisse na próxima contração, eu seria a culpada da asfixia da minha filha! Ok, nesses termos, vamos lá!
Apesar de tudo, naquele momento do nascimento em si, abstraí e ouvi sinos tocando...e aquela sensação de ter minha filha saindo de mim, iria perdurar por toda a vida! Muito massa!!! Daí minha boneca veio para os meus braços, totalmente diferente do que havia imaginado....não pude contemplar muito, pois ela precisou de meia horinha no oxigênio.
Era linda...tão tranquila, tão serena...
Naquele momento, esqueci do dia em que me senti insegura. Ali, segurando aquele ser, já havia nascido uma mãe, que renasce todo dia, a cada fase.
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Essa história não acaba aqui...continua sempre.
Ainda há muitos retalhos no baú.