quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Retrospectiva e Resoluções de Ano Novo


Há uns três meses para o fim do ano, encontrei na minha gavetinha do criado mudo um papel cheio de rabiscos dobrado ao meio. É lá onde guardo as minhas receitas médicas e o estranhamento àquele papel, fez eu largar o livro na cabeceira tamanha a curiosidade.





Era a lista que fiz no final de 2011 com todas as resoluções que deveriam ser postas em prática no decorrer deste. Havia vários itens. Uns simples e outros bem complexos para serem postos em prática. O que ia requerer de mim, além de boa vontade, disciplina.





Uma coisa me chocou: não havia NENHUM item ticado. Não fiz nada do que me propus esperançosamente fazer. Fiquei com muita vergonha. Muita. Dobrei o papel ao meio e me pus a pensar. Se eu continuar assim, nesse autoboicote, onde irei parar? No que isso vai me levar?





Como já havia perdido tempo demais, desperdiçando tantos dias dos 365 dos que dispunha, peguei meus filhos pela mão, no dia seguinte e fomos à academia, sem ao menos esperar a segunda-feira. Como eles sempre gostaram de capoeira, curtiram a aula experimental, o método do professor, os matriculei. Assistir a essa aula me deixou tão feliz e antevendo esse desejo que nutro desde a adolescência, o professor anunciou-me a aula para adultos. Pensei no antigo desejo, de como gosto da música, da ginga e de toda a História por trás dessa luta, ponderei com o mico que seria para mim, com trinta e poucos, absurdamente sedentária praticar um esporte que exige tanto vigor físico e...não resisti. Me matriculei mesmo assim. Estou realizada. Estou me sentindo mais disposta, mais feliz, mais solta.







resoluções de ano novo, retrospectiva, atividade física








Enfim, um item ticado.





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No meu aniversário do ano passado, ganhei a armação no modelo aviador que tanto queria. Fui ao oftalmologista, mas nunca mandei confeccionar as lentes. Não sei se foi o medo de parecer uma hipster idiota aos trinta e poucos ou foi por pura preguiça que engavetei esse projeto.



Abri a minha gavetinha do criado mudo e resgatei dali a receita oftalmológica, catei a armação e fui à óptica mandar fazer o meu óculos novo.





Com novo visual, comemorei meus 33 anos ouvindo elogios lisonjeiros do marido. Tava merecendo essa sacudida.








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Esse ano, particularmente nesse semestre, tomei um certo distanciamento de tudo relativo ao blog. As postagens tornaram-se escassas, pensei em parar, inclusive dei-me uma pausa breve. Assisti a tudo o que se passou na blogosfera com olhos bem atentos.




Comemorei a saída das mulheres às ruas, a retomada de velhos debates, a disposição de discutir e lutar por direitos ainda não regulamentados.




A prioridade nesse semestre foi a minha faculdade. Estive muito presente nas redes sociais, onde a exigência de participação ativa é quase nula e quando exigiam essa assiduidade, simplesmente deixei passar. Tenho o meu tempo, tenho o meu jeito e além de tudo, detesto pressão de qualquer ordem, independente do propósito. Nem sempre estamos dispostos a embarcar na viagem dos outros, apesar de estarmos torcendo para que ela seja proveitosa.



Foi um ano silencioso da minha parte. Peço desculpas pelo distanciamento, mas é que para aprender é  necessário ouvir. E para ouvir, é necessário silenciar. Abstive-me, também por convicção, outras para não me desvirtuar do foco que julguei ser o principal.




resiliência, decisão










Por escolher priorizar a faculdade, deixei de ir a tantos seminários, a tantos encontros para os quais fui convidada como blogueira!!! Também sei que para algumas pessoas, a gente só vale enquanto estiver completamente disponível, servindo a seus propósitos. Ainda assim, resolvi pagar o preço.





Enfim, pude colher os frutos. Desde que retomei o meu curso, nunca havia tido um rendimento tão alto num semestre.





De uma certa maneira, esse era um dos itens da lista: pensar em mim.


E assim o fiz.





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Como sou imprevisível, resolvi fazer algo que deveria ter sido feito há pelo menos dez anos e que nem figurava na lista. A minha tatuagem.





Aprendi com essa, que de vez em quando, é bom esperar. Afinal, hoje sei que o que está grafado com tinta permanente no meu corpo, é algo que realmente tem um significado todo especial e de uma certa maneira me define.







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Resolvi expor uma parte da minha história, porque sei que hoje é a realidade da história de várias outras mulheres. Isso foi essencial no meu processo de cicatrização. 





Ademais, fui entrevistada para um jornal local, numa matéria que trata de superação. Estarei eu e mais quatro personagens com histórias incríveis. Irá ao ar no primeiro dia do ano.






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Foi muito marcante também a descoberta de uma nova forma de me relacionar com uma filha pré-adolescente. Conhecê-la para me entregar. Esse é um propósito de vida e não uma resolução de ano novo.






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Para o ano que se inicia não pretendo fazer listinha, sob o risco de deixá-la engavetada.



Como não sou acostumada a viver no improviso, preciso planejar algo, mesmo que em linhas gerais.



Vou continuar buscando aquilo que é melhor pra mim e para os meus, levar a sério esse lance de parar de fumar, deixar de tomar refrigerante, continuar na capoeira e quem sabe, começar a correr e voltar a escrever como antes, no maior estilo old school.



Além de repetir diariamente na frente do espelho: vc pode. vc consegue. vc é capaz. Só para calar aquela vozinha incômoda da insegurança. Vou mostrar quem é que manda nessa bagaça.



Dizem que se iniciou um novo ciclo. Não duvido. O mundo não é mais o mesmo. Pelo menos, não aos meus olhos. 








Escrevi sobre tudo o que aprendi nesse ano, a convite da queridíssima Mirys. Os convido a ler.



Para quem resolve seguir adiante, nada será como antes. E quando 2013 chegar, terei aprendido a mais importante lição: a de que nunca devemos esperar  para por algo em prática.



Desejo a vocês um Ano Novo repleto de realizações, conquistas, amor e respeito ao próximo.








segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Eles não imitam, nos tomam como exemplos


Fui seduzida por um livrinho fino, feio e sem graça na biblioteca da faculdade. Não havia nada nele que me chamasse a atenção, exceto o título. No alvoroço da descoberta, nem prestei atenção num detalhe: o livro foi editado pela Editora Cristã Unida. Não prejudicou em nada a leitura e o livro fala justamente sobre um período bem esquecido pela literatura: a puberdade, de crianças entre seis e doze anos.





A Bia está crescendo e quero uma literatura que acompanhe esse crescimento, pra aplacar um pouco da angústia que sinto, clarear as dúvidas que tenho. Não posso discutir sobre mamadeiras/chupetas/fraldas até ter netos...





O autor retrata vários estágios da puberdade e nos reconheci em quase todos eles. Havia esquecido como é boa essa identificação! Como nos faz suspirar de alívio e muitas vezes reconhecermos que estamos no caminho certo.





Aqui estamos na fase da imitação. Segundo o autor "a pré-adolescência é um estágio vívido do desenvolvimento da criança, porque ela procura imitar aqueles que admira. O desenvolvimento social, moral e espiritual da criança caminha do regulamento para a imitação".





Ele afirma que as crianças muito pequenas são mais impressionadas pelo que lhes é dito, na pré-adolescência ela é muito mais consciente sobre quem diz.





Estávamos numa fase muito louca, porque ela simplesmente não obedecia, estava apática para com suas pequenas responsabilidades diárias. Alimentar os hamsters, é um exemplo. Fora a toalha molhada em cima da cama, fora as calcinhas penduradas no box (quem nunk), fora a manutenção da ordem na sua mesa de estudo. Todo dia eu dizia a mesma coisa. Estava começando a ficar meio louca, sabe? Reproduzindo padrões....gritando ordens, dizendo que iria me poupar e gravar tudo, para apertar play to-do dia pela manhã. Essas coisas.





Atentei para o erro que estava cometendo e passei a não falar mais nada e a ser mais organizada com as coisas da casa. Passei a arrumar minhas coisas, não a tarde quando ela estava na escola, mas a noite quando estivesse presente. Começamos a observar o efeito positivo nos atos dela.





Nós podemos exercer uma profunda influência sendo um modelo transparente e atraente a ser imitado.





Há bastante tempo Bia vem pedindo para que eu criasse um blog pra ela. Sempre prometi que lhe faria um, quando ela tivesse dez anos, desde que, se interessasse pela leitura e pela escrita. Projetei pra frente, não por ser uma pessoa esquematizada, mas para ganhar tempo para pensar no que isso significa pra ela.





Não seria exposição demais? O que ela espera tendo um blog? Visitas? Seguidores? Ao longo desse ano, fomos conversando sobre todas essas questões. Deixei bem claro que caso atendesse seu pedido, ela não seria uma blogueira. Ela apenas teria um blog, o que é bem diferente - sabemos. Seria pelo prazer de escrever, de se soltar, de aprender, de compartilhar, enfim...e depois que vi isso no relatório da escola, não tive como não ceder. Será um estímulo a mais.







reunião na escola, orgulho, puberdade, como escrever bem, desenvolvimento infantil, papo de mãe, compromisso
mata mamain de orgulho, mata!








Em janeiro completará 10 anos e como havia prometido, lhe criei um blog. O nome escolhido por ela foi Nuvem Colorê. (<3) e já tem vários textos publicados, apesar de ser privado. Condição que impus temporariamente, já que ela não vê graça em algo que não se possa compartilhar.





Soltei mais uma amarra e estou sendo constantemente surpreendida com sua desenvoltura, como nesse poema totalmente sinestésico:






Eu ouço as cores,


me alimento de nuvem,


já toquei no arco-iris,


tenho visão raio-X,


cheiro a lua.





Converso por telepatia,


me espeto com água,


vejo o vento,


Sinto o cheiro de uma flor,


 em 10.000 km de distancia.


escuto o rugido,


de um campo de dente-de-leão.












É isso. Toda criança melhora seu desempenho graças a aprovação, sucesso e realização.









sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Reunião na escola , como não curtir?


Adoro final de ano.


Aquele clima de despedida e de desejo por renovação.


É tudo tão festivo!





Ontem tivemos a reunião do encerramento do semestre na turma do Otto. Pais reunidos, professoras ansiosas pra mostrar o trabalho de um ano inteiro e pra revelar as surpresas que nos prepararam.





Houve espaço pras professoras, pro corpo diretivo e para os pais falarem sobre suas impressões. Houve vídeos, fotos e lágrimas. E o que foi mais marcante pra mim, foi o clima de gratidão generalizado. Por tudo o que nossos filhos puderam vivenciar, pelos projetos escolhidos pela professora que os manteve tão entusiasmados, tão motivados durante todo o ano!





Como a proposta da escola é pensar coletivamente, o presente escolhido para os pais foi feito pelos pequenos que durante dias pintaram um tecido que fazia às vezes de mural na própria sala de aula. Esse tecido virou uma almofada fofa que carrega a pincelada de todos e uma foto da turma.











As professoras também prepararam um portfólio caprichado que conta uma história. É tão bom ver os registros do que eles fazem longe dos nossos olhos. *.*











Depois nos dirigimos ao campo para apresentação do Boi de Mamão - uma das manifestações mais populares da ilha, que envolve dança e cantoria em torno do tema épico da morte e ressurreição do boi.











Foi tudo muito fofo e bem natural. O Otto fazia a "cabrinha", mas não contente com uma só representação, catou outro papel de um amiguinho que desistiu de última hora. Sendo assim, se apresentou como o "urso preto" também. Nas filmagens que fiz, estou rindo como uma besta. Sabe como é mãe em apresentação de filho na escola, né?





Terminou com um cafezim açoriano na agrofloresta.






Antes de a mesa estar posta, já tinha um ursinho preto que se dizia faminto se abancando pra não perder o lanche.




Adoro reuniões. <3










terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Publicidade x Gênero - como deveria ser




Desde o nascimento meninos e meninas são vítimas de construções sociais que irão moldar seus gostos, suas atitudes, valores e opiniões de acordo com o seu sexo. Os estereótipos são construídos assim: brincando.





O que esperam das meninas? Qual o universo que constroem para elas? Quais as cores mais comuns? Nasceram mesmo pra ser delicadas e estar imersas em panelinhas e num mundo onde os problemas são resolvidos com varinhas de condão?





E dos meninos? Qual o universo que constroem para eles? Por que não se estimula sentimentos de delicadeza, de amor, de amizade? Por que não promovem a brincadeira deles com as meninas?





consumismo infantilIroning

 






O Wall Street Journal informou recentemente que uma companhia sueca de brinquedos, publicou um catálogo de brinquedos de gênero neutro para as férias. Ele mostra meninos e meninas brincando com brinquedos que não são tradicionalmente associados com o seu respectivo gênero. A companhia publicou um comunicado dizendo que o catálogo reflete a maneira moderna de as crianças brincarem, sem apresentar uma imagem estereotipada deles e que melhor reflita os valores suecos.





 

consumismo infantilconsumismo infantil





{fonte}




Os brinquedos podem e devem ser agregadores, já que são excelentes meios para expressar valores e atitudes. Quebrando estereótipos e, se usado de maneira cooperativa, deixará de servir como um meio para perpetuação desses clichês sexistas.





O Brasil só vai superar esse modelo quando desconstruir essa estrutura de poder que se impõe nas relações sociais. Gostamos tanto de nos ~inspirar~ e importar hábitos de outras culturas, taí um bom exemplo a ser copiado.










segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O que vc carrega consigo?


Estava muito insegura de tornar público um capítulo tão íntimo da minha história, mas muita coisa sobre a qual escrevo, sobre o qual acredito estava diretamente ligada à essa experiência. Respeitei meu tempo e fui amadurecendo a ideia. Acredito que o que não se mostra, não se sente.



Gostaria de agradecer todos os comentários, os compartilhamentos, as mensagens e os e-mails que recebi. Muita gente estendeu a mão dando aquele apoio moral, muita gente se identificou...a todos vocês, obrigada! Vendo o texto com a perspectiva de uma leitora, percebi o meu equívoco de me reportar a essa situação como sendo um "erro meu". Não foi só meu. Não fui quem agrediu, quem humilhou, quem violentou.



Virei essa página.



Ah! algumas pessoas me perguntaram o que foi feito dessa pessoa, que fim tomou. Depois que abandonei a faculdade, que casei, nunca mais o vi. Até que, nas últimas férias, descobri que ele está morando no mesmo prédio da minha mãe. Ou seja.





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Somos fruto de tudo o que vivemos.




Toda a nossa vida pregressa acaba de certa forma, explicando o porquê de nossas atitudes, de nossos pensamentos, de nossas convicções. Cada um carrega consigo uma mala. Bom, aí o que vc escolhe levar dentro da mala são outros quinhentos.



Passei por todas aquelas experiências dolorosas, sofri o tempo necessário, juntei os pedaços para reconstruir-me. Acreditava. Acreditava que a vida era muito mais do que aquilo. Queria continuar acreditando nas pessoas, ora por que não? Queria ainda conhecer o amor, queria conhecer o mundo.



E a vida é sempre maravilhosa. A mesma que eu esculhambava, mostrou-me várias saídas. Devolveu-me o sorriso, me deu uma oportunidade. Foi então que dois anos após os tristes episódios, reencontrei o Paulinho e juntos construímos uma família.





"Pra você guardei o amor


Que sempre quis mostrar


O amor que vive em mim vem visitar


Sorrir, vem colorir solar


Vem esquentar


E permitir"








Não deve ter sido fácil pra ele se relacionar com uma mulher que havia aprendido a amar errado. Cheia de manias, cheia de desconfianças, cheia de marcas. Mas sabendo que era possível ele foi lá e fez.



Desconhecia a sensação de amar com liberdade, com confiança, sem nenhuma espécie de ciúme, sem amarras. Nunca havia sentido essa liberdade de ser quem sou. De falar sem medo de ser interrompida. De não ter meus gostos questionados. Essa liberdade de falar sobre tudo o que penso e almejo. Nunca havia experimentado a sensação de flutuar...



A vontade que eu sentia era gritar: EU SABIA! Sabia que o amor era libertador, que o amor regenerava, que  o amor cicatrizava. É mais eficaz que qualquer anti-inflamatório, tem força de analgésico e cura como um antibiótico. O amor que sentia, me fez tão segura que joguei fora meus tarjas pretas. Esse amor que sentia me fez amar ainda mais coisas. Amar mais pessoas. Amar mais lugares.



Estava com auto-estima em ordem.

Estava enfim, em paz!



Apesar disso, as cicatrizes eram um pouco mais profundas, mas pra isso o amor associado ao tempo é do remédio que me valho. E assim eu espero.



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Por isso e por tudo isso, sou quem eu sou hoje.



Por isso, aprendi a ter um olhar mais atento e menos inquisidor. Nem tudo é o que parece. Ter esse cuidado não é ser condescendente, é não ser covarde, é não ser superficial.





"Que sabe você das almas das outras pessoas - de suas tentações, de suas oportunidades, suas lutas?" - C.S Lewis.









Por isso, passei a ter critérios em todas as minhas escolhas. Perto de mim, mantenho as pessoas que somam. Não acredito em nenhum relacionamento que se mantém pela aparência, pela paixão, pelo sexo. Não acredito que ciúme de nenhuma natureza traga benefício pra relação.



Por isso, aprendi a me bastar, mesmo amando de forma libertadora. Aprendi que preciso ser feliz sozinha e que não posso, nem devo usar o outro como muleta pra minha felicidade. O outro não é o responsável, mas pode ser sim, um caminho.



Por isso, sou sensível a todas as causas ligadas às mulheres. Não dá pra ser indiferente a dor que um dia senti. Seria uma pessoa muito cretina se corroborasse com a desigualdade de gênero. O meu desejo é que um dia essa violência permitida tenha um fim, que nenhuma delas se sinta envergonhada o bastante para buscar ajuda. Que denunciem. Que não se calem, pois isso foge da ordem doméstica, é caso de justiça.



Por isso, tomo cuidado com os caminhos que decido seguir. Se o caminho não está bom, tomo um atalho. Se ele não me levou aonde eu queria, eu paro, peço ajuda e busco um novo caminho. O importante mesmo é nunca parar de caminhar.



"Nem a terra diminui ou perde, pois tudo o que se desfaz em outra terra renasce. Tudo o que se perde pode ser encontrado. Se procurado." - Jane Austen.



* esse texto é a continuação dessa história.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A roupa nova do blog


Olá, estimado leitor! 





Venho por meio deste, informa-lhes sobre a nova roupagem do BM. Tudo foi pensado com muito carinho e executado pelo olhar e pelas mãos habilidosas de Anne Pires. E vale ressaltar a sua paciência e seu profissionalismo. (super indico)





Com nova foto e descrição do perfil; com novos botões de compartilhamento; com nova descrição do blog.
 





Faltam alguns detalhes, que estarão acertados em breve. 





Gostaria de convidá-los a curtir a fanpage do blog, a conhecer e a seguir-me no pinterest.





Não ficou solar? 





Não ficou bonito?





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domingo, 25 de novembro de 2012

Uma história de agressão




"Às vezes, a vergonha é útil. Ela pode penetrar as defesas que ela mesma construiu.



O romancista Thomas Keneally disse uma vez: “Escrever um romance é ir nu, não importa o que você esteja escrevendo. Você sempre se revela." 




Continuação desse texto.



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Hoje compreendo o exercício de olhar-se no passado, muito comum por pessoas mais velhas. Não sou velha, mas também não sou tão nova. Gosto da minha idade, mas já gostei mais da pessoa que eu era.





Amava aquela menina questionadora e melancólica de natureza. Amava o jeito como ela lidava com os problemas dela e dos outros. Era dessas que estava sempre disposta a ajudar, apesar de manter uma certa distância emocional, que facilitava muito no apoio que ela sempre se dispunha a dar. Lembro que não gostava muito do nariz - sempre batatudo - e das bochechas cheias que convidavam ao amasso.





Ela nasceu velha, com uma maturidade que chamava a atenção. A avó sempre a convidava a viver a infância e a imaturidade natural e vigorosa da adolescência, mas ela sempre respondia que não sabia ser assim. Simplesmente não sabia. Sua alegria era verdadeira, porém comedida. Comedida também era a forma como expressava seu descontentamento. Sempre raivosa, zangada, nervosa - mas nunca, agressiva. Fazia o tipo amável, mas jamais confundida como uma pessoa meiga.





Respeitava a todos e esperava o mesmo tratamento. Tinha pavor a inimizade, tramoias típicas do horário do recreio. Aproveitava seu tempo com quem gostava, não desperdiçava com quem não merecia. Não julgava, só não se misturava. 





Essa menina cresceu cheia de poucos e bons amigos e na escola, tinha o respeito e amizade de vários professores, que a tratavam como uma igual. Passou bons recreios nas salas deles, comendo cream cracker e bebendo água.





Tinha uma atração pela noite, pelos discos, por uma vida onde pudesse ser livre. A mãe sempre muito rígida, afetivamente distante, era do tipo controladora. Essa menina queria ir além, morar fora, ter namorados, mas nunca casar (tá, só às vezes). Também não gostava de criança e filhos não estavam em seus planos.





"Atraído" por esse modo de viver, por essa alegre melancolia, um dia um homem a procurou. A primeira investida foi quando ela contava com 13 anos. Um escândalo. Como de boba não tinha nada, logo avisou a quem mais confiava: a avó - que soube limar a audácia desse homem, que por sinal, nessa época, era casado.





Anos depois, foi procurada novamente. Estava naquela fase de descobrir-se mulher, estupefata com o estranho poder que poderia exercer sobre o sexo oposto. Não se pode negar, que essa sensação mexe conosco e dá uma vontade quase irresistível de brincar com isso, só pra saber se ele tem um limite.





Um dia, cedeu às investidas e ficou com ele, que tinha 14 anos a mais que ela. Presa e angustiada com a ideia de estar fazendo algo errado pela primeira vez, novamente procurou a avó, que se chocou ao saber do acontecido. Outro escândalo. Mais escandalizada ficou a mocinha, por não saber o real significado e alcance daquele seu gesto. Mas vem cá? Logo ela, que se julgava tão pé no chão? Iniciou-se um pequeno conflito interno. O primeiro de muitos que viriam.





Só depois da morte da avó, experimentando o luto e a revolta, ela resolveu se entregar a esse cara que ainda a rondava como uma mosca em cima do esterco. Iniciou-se não só um relacionamento conturbado, mas a morte daquela menina de quem tanto gostava.





Pelo luto ela chorava. E aquele caminho que estava escolhendo, a enojava e envergonhava, ao mesmo tempo que a encorajava e "fortalecia". Isso gerou uma perturbação tão grande, que passou a se navalhar no escuro do quarto. Agindo como uma nefelibata, buscava uma espécie de consolo na dor física, quando a emocional se tornava insuportável.



Queria muito ser sozinha. Optar por viver uma vida solitária é uma coisa, sentir-se sozinha, sem amparo por aqueles que deveriam te acolher e amar é outra bem diferente. 





Era um amor clandestino - isso eu aprendi com ele que tentava me convencer de que isso era muito bom! Que a vida pra valer a pena, tinha que ser vivida com intensidade. Sabia com quem estava lidando, portanto sabia o discurso que deveria empregar. A partir dali, vi e ouvi coisas que jamais pensei que existiria. Fui apresentada à maldade, ao vício e ao sexo sem sentimento. Estava entregue.





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Aos 18 anos tivemos a nossa primeira noite. Foi tudo muito forçado pra que parecesse inesquecível, afinal, uma virgem merecia uma pequena tenda para que se armasse um espetáculo. Foi tudo meio nojento e eu tentava me convencer de que estava fazendo a coisa certa a qualquer repente de lucidez.





Ele era uma criatura sem nenhum atributo especial. Era feio, magro e esquisito. Falava alto, tinha um sorriso falso e um olhar malicioso. Mas conhecia o mundo, a vida - justificava. E era aquilo que eu buscava naquele momento. Uma quebra de paradigma. Queria viver perigosamente, queria ousar, queria chocar. Enfim, queria fazer tudo aquilo que nunca havia feito. Estava negando a minha essência.





Fui iniciada no mundo do álcool e dos remédios tarja preta que ele dolosamente punha na minha boca. Dizia que era bom, que iria me acalmar, que me deixaria melhor. Experimentei embriaguezes de corpo e de alma enquanto ele ria, orgulhoso. 





Minha família preocupada com os constantes ataques, com as brigas homéricas, com as crises de choro que descambavam pra agressão, com o fato de eu me cortar, procurou um psiquiatra. O diagnóstico foi certeiro: síndrome maníaco-depressiva. Isso foi em 97, quando a bipolaridade ainda recebia essa denominação.



A fragilidade me tornava vulnerável às investidas dele. Sempre que me via assim, provocava situações até que elas descambassem para o vexame. As brigas começavam do nada, em momentos que elas não tinham porque acontecer. Isso me tirava do eixo, em estado constante de beligerância.





Tomava remédios fortíssimos e a cada crise, eu comia cartelas e mais cartelas de comprimidos. Não era pra morrer, claro, mas fazia isso sempre que queria apagar por uns dias. Funcionava.



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A pior parte, se é que podemos eleger uma, foi quando a mocinha sempre tão cheia de ideais, levou seu primeiro tapa. O estrondoso som do silêncio, do espanto. O som daquele ato ecoaria por anos. Lembro dela correndo pro espelho. Naquele momento, com a mão no rosto, já não se reconhecia. Diante do pavor do ato, viu um filme da própria vida. Viu as convicções escoar em lágrimas. Viu o olho inchar no mesmo momento em que o valentão desmoronava em cuidados e arrependimentos falsos.



Estava cheia de vergonha. Um sentimento tão forte e tão desconcertante. Já havia sentido vergonha de muitas coisas, mas nada se comparava a isso. Estava vulnerável pela primeira vez na vida e sem a avó como refúgio.



Não conseguir esconder uma marca de agressão é como estar nua em meio a uma multidão.



Chegar em casa e encarar a minha mãe foi ainda mais doloroso. Um olhar doído de pena e raiva.



Segui adiante mesmo sabendo que seria perigoso. Não podia de uma hora pra outra dar o braço a torcer e abdicar daquele que julgava ser o meu amor. Não podia olhar pra todos que me avisaram, que eles estavam sim, certos.



Enquanto hesitava, ele fazia como todos que tem esse padrão de comportamento fazem: transferia a mim a responsabilidade por seus atos. Pedia para ser salvo, dizia que ninguém me amaria daquela forma, que amor é intenso mesmo, que eu era uma menina e precisava aprender de uma vez, que era só um pobre homem atormentado sem jamais ter a intenção de ser violento.



Fui orgulhosa e paguei o preço.



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Pra que submeter-me à violência desse homem? Por que escutar e dar crédito à essas historinhas de arrependimento tão patéticas, tão manjadas? Por que dar credibilidade pra alguém que bate, humilha e vive sob efeito de álcool?



A ação violenta trata o ser dominado como objeto. Como sujeito, é silenciado e torna-se dependente e passivo. Perde sua autonomia, sua liberdade e sua capacidade de autodeterminação para pensar, querer, sentir e agir.



Quão fundo é o poço?



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Houve outras agressões, verbais e físicas. Sempre imaginei a dor que mulheres sentiam em situações como aquela...mas senti-la foi infinitamente pior. Vulnerável estava sob o verniz perigoso de um fetiche. Fiquei deformada por uns dias. Qualquer movimento era doloroso, e causava medo (e nojo) de olhar o meu próprio corpo.



Nesse momento, decidi levar a minha vida adiante. Estudava quase 12h por dia pra conseguir passar no vestibular. Passei aos 19. Logo no primeiro semestre, consegui um emprego no fórum. Todas essas conquistas o deixaram ameaçado. Afinal, estava, sim, me sentindo mais autoconfiante, retomando as rédeas, assumindo o controle. Sentia-me capaz e experimentava o gostinho doce da autoestima.



Lembro nitidamente da última vez em que fui agredida, pois foi a última.



Sentindo que estava perdendo terreno, ele me convidou para almoçar num dos restaurantes mais badalados na cidade. Característica muito comum de homens com esse perfil: se fiam em coisas para demonstrar sentimentos, para barganhar perdão e mostrar arrependimento.



Do nada, iniciou-se uma pequena discussão. De repente um acesso de fúria. Dizia que eu era ingrata e que agora que estava na faculdade iria facilmente me interessar por um garotão ou na pior das hipóteses, me tornar uma daquelas acadêmicas chatas e estudiosas que ninguém iria querer comer. Sim, minha gente, esse tipo de homem é extremamente, estupidamente machista.



Saí de lá não puxada pela mão, mas arrastada por um carro em movimento por quase 200m. Infelizmente tenho uma cicatriz pra lembrar desse dia. As pessoas que viram aquele ato covarde nada fizeram. E posso até imaginar o que pensaram, afinal, com o machismo se condena a vítima, nunca o agressor. Vai ver pensaram, "ela mereceu". O espetáculo continuou em seu apartamento. Naquele dia saí de lá, com a certeza de que jamais voltaria.



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O que é mais perigoso nesse tipo de homem-violento-atormentado-coitadinho é que eles não sabem, ou não querem, ouvir um não como resposta. Não aceitam que suas vítimas deem um basta às agressões. Não aceitam. Simplesmente não aceitam.



A minha vida se tornou um inferno. As ligações eram constantes, era surpreendida por ele em todos os lugares para onde ia, era seguida, vigiada. Fui procurada inclusive no trabalho. Foi tudo arquitetado com o sentido de me desabonar, de acabar com o moral, de achincalhar-me em público. Ele não me procurou na secretaria onde trabalhava. Fui pega na porta de entrada do fórum, no horário pleno de funcionamento. Estava lotado. Ele tentou conversar e quando disse educadamente que  não tínhamos mais nada para falar, que fazia votos de que ele fosse feliz e....armou-se o maior escândalo do universo.



Gri-ta-va que já tinha me comido tanto que eu não tinha mais serventia alguma; que eu era uma pobre suburbana a quem ele havia transformado; que não queria mais me comer...comer...comer...essa palavra foi repetida infinitas vezes em tom de deboche, de escárnio, de desprezo. Coisificada - era assim que estava. Saiu de lá algemado dentro de um camburão.



Passei por mais alguns episódios dessa natureza, com o mesmo propósito. Onde era "achada" nos lugares e execrada na frente de todos. Conseguiu inclusive entrar na faculdade. Na ocasião, foi ao Rio de Janeiro fazer vestibular para entrar como transferido, sem prestar vestibular - era prática comum nessa época.



Não esqueço o primeiro dia de aula do semestre que dei de cara com aquela expressão cínica, sorrindo pra mim. Desde então, perdi a paz. Ele não assistia às aulas dele, só para ficar na frente da minha sala, me encarando. Era uma espécie de pressão psicológica. Ia atrás de mim o tempo inteiro. Um dia, tentou conversar, mas pedi que ele me deixasse em paz e seguisse sua vida. Na hora do intervalo, com todos os alunos fora de sala, entrando e saindo do bloco, ele deu mais um show. Escondi-me no banheiro. Ele gritava da porta, que por eu ser uma vagabunda ele não iria querer mais nada comigo (inverter toda a situação é especialidade desse tipo); que eu parasse de persegui-lo, que ele estava cansado de dizer que não me queria mais, vejam vocês....sentada num vaso sanitário, eu chorava. Saímos de lá e fomos ao Reitor que providenciou que este saísse de lá, direto pra uma delegacia. Nessa ocasião, minha mãe me defendeu. Sentia-me menos pior, apesar de toda a fragilidade em que me encontrava.




culpabilização da vítima, machismo, cultura machista, agressão, feminismo, gênero, reconstrução, superação, lei maria da penha, agressor, misoginia



Abrimos um TCO, fomos a audiência no Juizado Especial e experimentei o gosto amargo do desamparo de quem espera por justiça. No sistema penal brasileiro, não se pune a intenção (ameaça), mas o crime consumado. Ou seja.



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Cansada de tanto terror psicológico, de andar me escondendo pelo campus e de ser ameaçada de morte, tranquei a faculdade e um pouco de mim morria naquele momento.



Só pra ilustrar e situar vcs no tempo. Passei quase três anos com esse cara, nem sei ao certo. Parece que foi em outra vida. A perseguição na faculdade se deu exatamente um ano após o término.



Os homens violentos, machistas, misóginos - eles não tem limites.



Portanto, tenham cuidado ao menor sinal de desrespeito. Não aceitem. Não se calem. Não confiem. Não queiram consertá-los. Não achem que o amor regenera esse tipo de gente. Não tome essa responsabilidade como sua. Não se intimidem.



Senti vergonha por tudo isso, senti um nojo de mim, impossível de descrever.

Até perceber de uma vez por todas, que esses eventos não precisavam ser negados, apagados na memória e que não era eu quem deveria se envergonhar. 

Também não poderia fazer de conta que eles não existiram, mas incorporá-los a minha vida.

Pois tudo isso que aconteceu, fez de mim a mulher que sou hoje.

Norteou as escolhas da minha vida.



Hoje, liberto-me dos fantasmas, dos pudores.



{continua}




segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O não entregar-se e a reconstrução do feminino


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Nunca fui metade.


Nunca fui de meios-termos.


Sou dessas que ou é ou não é.





Como também ninguém consegue manter-se linear, tudo isso um dia mudou. A vida que era tão certinha, caretinha, um dia deixou de ser assim. Não simplesmente deixou de ser. Eu quis deixar de ser. Quis me jogar num abismo. Fiz escolhas erradas e como não poderia deixar de ser, paguei o preço disso.





Jurava que seria mais fácil, que esse preço fosse tipo os de loja de departamento, que coubesse no meu bolso. Depois de tudo o que vi e vivi, jurei que poderia esquecer. Fiz algumas muitas sessões de terapia, troquei muito de médico, investi na medicação, desisti delas. Não queria me libertar de uma coisa e me aprisionar em outra. Isso não fazia sentido algum. Nunca fez.





Enquanto tentava esquecer e corria pra por a minha vida nos trilhos novamente, tinha noites e mais noites de pesadelos vívidos. Aqueles que nos fazem acordar com uma sensação de abandono, tristeza e amargura por ter revivido no inconsciente tudo aquilo que se faz força pra deixar no passado. 





O problema talvez fosse esse...o de querer a todo custo esquecer. Um amigo meu, me disse à época que eu deveria incorporar aqueles tristes acontecimentos à minha vida. Não daria pra apagar. Aceitando-os e os encarando de frente, eu conseguiria suplantá-los. Isso exigia de mim maturidade. E ser madura, minha gente, dói.





O tempo passou. Eu casei. Tive filhos. Esqueci.


Relembrar já não me causa dor, só uma sensação de estranhamento. Mas tudo o que aconteceu durante três anos da minha vida, me fez ser como sou hoje. Não sou pior, nem melhor. Sou diferente. Fiquei diferente. Por muito tempo isso me incomodava, mas não entendia o porquê.





Agora é diferente. Não dá mais pra continuar a ser essa criatura disfarçada. Desenvolvi um medo de envolver-me com pessoas, com o que elas propõem, limitando tudo o que posso dar e receber delas. Desenvolvi um medo de sair de casa, de me aventurar em locais que não conheço, de tentar, de me expor. Isso tem me prejudicado muito, porque a cada dia que passa, sinto que o mundo cobra mais de mim, que sei que posso fazer - mas ainda assim, insisto em me manter na concha. Naquela onde me sinto protegida.





Por que falei tantas coisas sem nada dizer? Porque creio que esse seja um primeiro passo. Porque sei que na hora em que eu decidir falar abertamente sobre algo que me machucou tanto, poderei finalmente me ver livre. Porque vou construir o que foi desconstruído.





Venho sentindo essas mudanças há algum tempo e amadurecendo aos poucos. Nesse meio-tempo li sobre a medicalização da vida e sobre como ceder à diagnósticos nos desconstroem, nos enfraquecem. A pessoa que escreveu esse texto anos atrás, não é a mesma de hoje.





Então, a leitura da noite me revela isso:





" Quais os sintomas associados aos sentimentos de um relacionamento interrompido com a força selvagem da psique? Sentir, pensar ou agir segundo qualquer um dos seguintes exemplos representa ter um relacionamento parcialmente prejudicado ou inteiramente perdido com a psique instintiva profunda. Usando-se exclusivamente a linguagem das mulheres, trata-se de sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, sem significado, envergonhada, com uma fúria crônica, instável, amarrada, sem criatividade, reprimida, transtornada.





Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade para os outros, escolhendo parceiros, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, superproteora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites.





(...)





Recear aventurar-se ou revelar-se, temer procurar um mentor, pai, mãe, temer exibir a própria obra antes que esteja perfeita, temer iniciar uma viagem, recear gostar de alguém ou dos outros, (...), perder a energia diante de projetos criativos, encolher-se, humilhar-se, ter angústia, entorpecimento, ansiedade." 





(trecho do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés)








Diante de tantos sintomas negativos, não me senti mal. Foi incrível a identificação com cada um deles. Saber que é possível recuperar-me é alentador.





E é pra isso que quero viver.


Para entregar-me.










sábado, 10 de novembro de 2012

A festa do pijama, a mãe estressada e as não-fantasias

















Estudei em escola Marista por quase toda a minha vida escolar. Tenho excelentes lembranças das vivências de grupo acontecidas fora desse ambiente. Porque existem coisas que não se aprendem em cartilhas.



Todo ano o nível de estresse nessa casa bate a estratosfera e a culpa é da festa do pijama - um evento escolar anual.





Segundo a escola, é um momento especial, que vai além de brincar e se divertir. É também um momento pedagógico que valoriza a autonomia, a coragem e a organização das crianças, bem como o prazer de estarem perto dos amigos.



Ano passado foi a primeira vez que dormiram longe de mim e acabei não fazendo o registro no blog, nem sei bem por que.  Funcionou. Voltaram maravilhados com a rica experiência. Isso explica toda a ansiedade que sentem nos dias que antecedem essa festa.



Professores e alunos se mobilizam nos projetos de decoração da sala, eles participam de tudo, o envolvimento é total. Cada série escolhe um tema de decoração. Esse ano teve até castelo medieval, com ponte levadiça! e uma sala oriental, com muitos dragões chineses e tendas em voil.



Há teatro, há baile à fantasia, jantar, fogueira, caça ao tesouro e por fim, a preparação para dormir.



Esse ano, meus queridos filhinhos quase me enlouqueceram no quesito fantasia. Mudavam de ideia quase que diariamente. Ficava ali, refém da indecisão deles. Até que na antevéspera, não tínhamos nada decidido. Bia queria ir de mexicana, com uma pintura no estilo dia de los muertos, mas Otto quis ir de gambá a falcão pelegrino. Difícil essa vida de mãe.



Até que me emputeci.



Disse que EU escolheria a fantasia dele. Saí, inclusive para comprar uma, mas desanimei ao ver o preço das bichinhas à venda. Oitenta contos num pedaço de tecido feio e ruim? No, thanks. Nem é esse o propósito da escola, muito menos dessa festa.



Então, arregacei as mangas e pedi que confiassem na mamain. Fiz todo o trabalho de pesquisa e planejamento e coloquei o marido pra executar. Sou esperta, bate!



Olha o resultado:










Oi, sou uma muminha feliz, filho de uma mulher pão-dura, que encarna e se diverte com o

personagem. Foi a não-fantasia mais comentada da escola. Todos comemora.





E minha guapíssima catrina ficou assim:






Marido prendado + vestido bordado + tiara florida essa coisa que parece

um xale = uma mexicana bem linda!










Ainda dei um jeito de borrar a maquiagem. Fuen.






Foram alegres e muito felizes para a grande noite do ano.





Paulinho e eu aproveitamos para assistir ao filme Gonzaga de Pai para Filho no cinema com um casal de amigos e depois aproveitamos a folga inédita para tomar uns tragos noite afora. Sensação estranha de que estava sempre esquecendo algo ou alguém.





O momento de buscar as crianças se transforma numa grande confraternização. Famílias reunidas em torno de mesas fartas de café da manhã. Um grande coletivo comemorando as conquistas dos seus pequenos. Nenhuma criança pede pra voltar pra casa. Sinal de segurança e acolhimento.



Soube de fonte segura que ano passado o propósito da fogueira era fazer com que cada criança ali presente, escrevesse tudo de ruim que havia lhes acontecido para que jogassem na fogueira. Era uma espécie de purificação.





Esse ano, eles alimentaram a fogueira com tudo de bom que havia acontecido e que eles queriam que acontecesse. Alimentaram o fogo com desejos. Foi mágico.





Soube ainda que ao ouvir um amiguinho comemorando algo que foi encontrado na caça ao tesouros, Otto diz em tom profético: não, não...o tesouro mesmo é a nossa amizade!!!





Aprendizado em grupo. Histórias pra contar. Brilho nos olhos. Reforço da autonomia e da segurança deles, enquanto indivíduos.



Fico feliz de que eles possam construir esse aprendizado que nasce do coletivo na infância - aquele momento único, que merece ser muito bem vivido. <3




Filhos felizes.

Pais idem.








quarta-feira, 31 de outubro de 2012

À espera da reforma


Por mais que goste de sua casa ou de um canto particular, de tempos em tempos é bom reformar. Sentimos essa necessidade, de mudar de ares, de mudar as cores - renovar o astral.





Estou com as postagens irregulares há bastante tempo. Enquanto eu pensava em melhorias,  concomitantemente pensava em parar. Não que houvesse um motivo especial para isso, prefiro acreditar que isso é comum entre as blogueiras.





Numa casa em reforma, não fica bem receber visitas. Não fica bem, porque só convidamos aqueles que nos são especiais e não podemos recebê-los de qualquer jeito, no improviso. Há que se ter o mínimo de conforto e algum capricho, certo?





Por isso não tenho conseguido postar com tanta frequência. Confesso também que me perco pensando em inovações. Afinal, pelo que se percebe é que a maneira de blogar mudou. A sistemática é outra. Também tenho medo de inovar demais e destoar, sabe? Ficar fora de contexto. Como quando vc veste alguma coisa só porque está na moda, mas não se sente nada confortável nela. Alcançou o padrão, mesmo sem se encaixar nele.





Enfim...





Posso adiantar uma única coisinha, que é a cartela de cores:





reforma, layout novo, grey and yellow, cinza, amarelo, anne pires, blog novo











Totalmente diferente da atual...mas é que ultimamente ando alucinada pelo amarelo.


Ele traz o sol, a vida pra qualquer ambiente.


Inclusive o virtual.


Agora é controlar a ansiedade para ver a casa em ordem e recebê-los como merecem. =)


Gostaram?




quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Tão longe e Tão perto


Existem fases do desenvolvimento do indivíduo que são amplamente explorados, como exemplo: a primeira infância e a adolescência. E quem fica nesse intervalo - crianças de 6 a 12 anos - não merecem atenção? É como se não existissem. Há pouca literatura com enfoque nessa faixa etária, que compreende a pré-adolescência.





Talvez por ser uma fase de relativa calmaria, por não demandarem tantos cuidados, por já terem certa autonomia, sendo incentivados a fazer muitas coisas sozinhos, negligenciemos a educação e o olhar amoroso tão essenciais na fase que está por vir.





Sempre tive medo do modelo da adolescente rebelde, que se tranca no quarto e que faz dele o seu mundo. Que já não enxerga pai e mãe como aqueles seres dotados de super poderes, em quem já não pode ou não quer confiar, encontrando nos pares a solução para seus problemas, aprendendo na rua o que poderia e deveria ser ensinado em casa, com amor, respeito e compreensão.



Bem boba, sempre fiz a Bia prometer que não seria assim. Que nossa relação seria diferente. Que conversaríamos sobre todo e qualquer problema. Que seríamos eu e o pai os condutores dos seus passos inseguros pelo mundo afora.



Sem que eu me desse conta, esse distanciamento já estava acontecendo aqui em casa. Embora estivesse incomodada com ele, não fazia, nem sabia fazer nada que pudesse evitá-lo. A única coisa que deixava claro é que os queria sempre perto de mim, nunca isolados em seus quartos.



Sempre vejo ótimos exemplos aqui mesmo na blogosfera de mães que instituíram com sucesso o dia do filho único. Fazem programas juntos e assim, mantem estreita a relação.



Até fiz isso várias vezes, era muito bom, mas ainda não era tudo. Não sentia a mágica acontecendo.



A oportunidade chegou em forma de um compromisso bem chato. Teria que levar a Bia toda semana, às vezes até duas vezes por semana ao dentista por causa do tratamento ortodôntico que ela está fazendo.



Poxa, ter que me deslocar atéééé o centro? - que merda, pensei. Moramos distantes quase 30 km e só é viável a ida até lá de ônibus, por causa da chatice que é achar um estacionamento.



Encarei, não tinha escolha.

O primeiro dia foi ótimo. Pra falar a verdade, nem sabia andar no centro, mesmo morando aqui há cinco anos. Na real, essa foi a minha primeira ida sozinha. Foi ela que me incentivou a perder o medo das ruas, a buscar e se perder. Voltei a ter autoconfiança.



Rodamos todas as ruas do centro. Entramos em todas as lojinhas que achamos interessante. Conhecemos várias livrarias que não fazia ideia da existência e nossa parada obrigatória era na melhor padaria da ilha. Conversávamos em todo o trajeto, andávamos de mãos dadas o tempo todo e na volta, revisitávamos os melhores achados e lamentávamos não ter tido tempo de fazer mais e mais coisa.



A mágica estava acontecendo.

Em casa esses momentos de encantamento continuava.

Nos tornamos tão próximas quanto sonhei um dia.



Não sei se o fato de eu me sentir responsável por sua segurança de novo pelas ruas da cidade - aquele sentimento de posse e proteção bem conhecido de todas nós - ou se o fato de eu a estar redescobrindo como um serzinho que pensa, dialoga, questiona, ajudou nessa reaproximação.



Sim, ela está crescendo. Está perdendo as feições de criança, tem o corpo de uma moça e percebi que não devo me apavorar com isso. Foi só a vida me mostrando mais uma vez, que não temos o controle sobre ela. Que as coisas acontecem de forma bem diferente do que imaginamos. Filho, vida, desenvolvimento... estão contidos na imprevisibilidade do tempo.



Constatei que ela é uma ótima companhia, que estar ao seu lado me faz um bem enorme....tirando de mim o peso que a maternidade me obriga. E era isso que eu buscava.



Estar com eles, fazer coisas com eles é minha rotina. Faço sempre. Queria mesmo era sentir o prazer de estar junto.



Passamos quase dois meses nessa rotina e posso dizer com uma felicidade que não cabe no peito, que nós nos redescobrimos. Nem posso dizer que esse é o começo de uma parceria, porque na verdade, essa parceria nos estava predestinada há quase dez anos.



Agora, quando a olho, a vejo.



"E rimos juntas, com esse riso das mulheres que nasce da cumplicidade." - Isabel Allende.








criação com afeto, desenvolvimento infantil, puberdade, papo de mãe, isabel allende, riso das mulheres, aniversário
toda linda no aniversário do filho de uma amiga














terça-feira, 16 de outubro de 2012

Blogagem Coletiva - É da nossa conta! Trabalho infantil e adolescente #semtrabalhoinfantil


Quando era criança, via muitas outras crianças em condições bem diferentes das minhas, que não tinha nenhuma obrigação a não ser ir para escola. Era comum famílias "buscarem" no sertão, aquelas meninas para trabalhar em casa de família, prometendo uma vida bem mais digna que a que elas levavam naquela aridez.





Prometiam roupas, escola e comida. Só esqueciam de avisar que a jornada de trabalho delas era estafante, que não teriam folgas semanais e que estariam a disposição para servir àquela família a qualquer hora do dia e da noite. E outra: exigiam dela a mais pura e sincera gratidão. Casos comuns que recentemente foram retratados numa novela global. Atitudes como essas são consideradas crime e devem ser denunciadas.













A legislação procura tutelar o trabalho do menor de forma a garantir seu desenvolvimento saudável, tanto sob  o aspecto físico quanto psicológico, para evitar que o menor seja privado do tempo necessário aos estudos e à formação cultural, para que ele não seja exposto a locais prejudiciais a sua formação moral e ainda para que ele fique longe das duras consequências dos acidentes de trabalho e para isso estabelece uma série de restrições ao seu trabalho.





Menor - para fins da relação de emprego -  é o trabalhador com idade entre 14 e 18 anos incompletos. Portanto, pela previsão legal, é proibido qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos.





Talvez alguém conheça uma família de carpinteiros. Não é difícil de encontrar. Trabalham nessa oficina pai, mãe e seus quatro filhos, sendo dois deles menores de idade. O que a lei diz sobre esse trabalho?





De acordo com o disposto no art. 402, da CLT, em seu parágrafo único: "o trabalho do menor reger-se-á pelas disposições do presente Capítulo, exceto no serviço em oficinas em que trabalhem exclusivamente pessoas da família do menor e esteja este sob direção do pai, mãe ou tutor, (...)"





Devendo guardar-se as devidas proporções, vale dizer. Tomemos como exemplo uma reportagem em que foi mostrada crianças trabalhando no matadouro que pertence ao pai - ambiente totalmente insalubre, que punha as crianças em risco. Neste caso, cabe a denúncia.





Ok. Mas e as crianças que trabalham na televisão atuando? Apresentando programas infantis? 





Admite-se excepcionalmente a atividade com amparo na garantia de manifestação do direito fundamental da liberdade de expressão, desde que ausente qualquer prejuízo ao menor. E por ser, também, por essência considerada atividade artística e não um emprego.





E em atividades circenses? É permitido? Totalmente proibido?





Nestes casos, o Juiz da Infância e da Juventude pode autorizar o trabalho do menor, desde que, a representação tenha finalidade educativa e não seja prejudicial à sua formação moral, bem como seja a remuneração do trabalho indispensável à subsistência do menor ou de seus pais, avós ou irmãos.





Criança que trabalha perde a infância.





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É da nossa conta.



Denuncie.



As denúncias podem ser feitas nos Conselhos Tutelares, pelo Juizado da Infância e Juventude, pelo Disque 100 ou diretamente ao Ministério Público.



* Esta postagem faz parte da campanha da Fundação Telefônica realizada em conjunto com o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho) 



Mais informações:



Fan Page Pró-Menino: http://www.facebook.com/redepromenino

Twitter: @promenino

Site: promenino.org.br



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

19 coisas que devem ser ditas ao seu filho




Buscando o presente perfeito para esse dia das crianças, fico me perguntando: o que uma criança quer? do que ela mais precisa? o que a deixa feliz?






Acabei encontrando esse artigo, cujo original está em inglês, e o adaptei pra vcs e pra minha vida. 


Com uma vida que às vezes nos atropela, acabamos esquecendo de priorizar o que de fato mais importa: o contato com o outro, o respeito a quem amamos. Esquecemos que presença é bem diferente de estar presente. E que presente também difere de presença. Ao lembrar disso, a busca acabou.












criação com afeto, cumplicidade, maternidade real, papo de mãe, vínculo, união
via








1 - Eu te amo! Não há nada que possa acontecer que vá mudar esse meu sentimento por você. Nada do que vc fizer ou disser vai mudar isso.





2 - Você é incrível! Olho pra vc com admiração! Não apenas pelo o que vc pode fazer, mas por ser quem vc é. Não há ninguém como vc. Ninguém.





3 - Tudo bem se vc chorar. As pessoas choram por muitos motivos: quando estão feridos, tristes, felizes ou preocupadas; quando estão com raiva, com medo ou se sentindo solitárias. Gente grande chora também. Eu choro.





4 - Vc cometeu um erro. Isso não está certo, mas as pessoas cometem erros. Eu os cometo. É algo que podemos corrigir? Então, está tudo bem. Vc pode começar de novo. Sei que vc está arrependido. Eu te perdoo.





5 - Vc fez a coisa certa. Pode ter sido assustador ou difícil, mas mesmo não sendo fácil, vc foi lá e fez. Estou orgulhosa de vc. Sinta-se orgulhoso também.





6 - Sinto muito. Perdoe-me. Errei.





7 - Vc pode mudar de opinião. É bom ser decidido, mas também é muito bom mudar.





8 - Que ideia maravilhosa! Como é que vc me sai com uma dessas? Como vc é esperto!





9 - Sua atitude foi bacana. Vc fez algo útil e generoso para alguém. Vc deve se sentir bem por isso. Obrigada.





10 - Tenho uma surpresa pra vc! Nem é seu aniversário, nem nenhuma data especial. Apenas uma pequena surpresa.





11 - Posso esperar, tenho tempo pra vc





12 - O que vc gostaria de fazer? É a sua vez de escolher. Vc sempre tem grande ideias. E também é importante segui-las.





13 - Conte-me a respeito. Quero ouvir mais. E então, o que aconteceu? Estou aqui para te ouvir.





14 - Estou bem aqui. Não vou sair sem te dizer tchau. Estou te olhando, estou te ouvindo.





15 - Por favor e obrigada - são palavras muito importantes. Se eu esquecer de usá-las, vc poderia me lembrar?





16 - Senti sua falta. Penso muito em vc quando não estamos juntos.





17 - Tente. Apenas um pouco. Dê uma provadinha. Vc vai gostar. 





18 - Vou te ajudar. Ouvi vc me chamar, estou bem aqui. Como posso te ajudar? Se nós dois fizermos juntos, poderemos conseguir. Sei que pode fazer sozinho, mas estou feliz em poder te ajudar, já que vc me chamou.





19 - O que vc deseja? É muito bom ouvir o que vc deseja, o que espera e com que sonha.








* adaptado daqui