segunda-feira, 17 de junho de 2013

Faces da Maternidade: Mães que lutam contra o consumismo


Um dia, não faz muito tempo, cheguei a acreditar que a publicidade dirigida para crianças, era um problema dos pais. Olha como soa óbvio: se não está contente, se não te agrega nada, se é contra, desligue a televisão. 





E é assim que pensam os defensores da televisão, os anunciantes e os publicitários, como preconiza Sergio Sinay, eles se escudam em uma desculpa cínica e universal, segundo a qual a culpa é de quem liga a televisão. Basta desligá-la para evitar tudo isso, dizem, com hipocrisia. Como qualquer sofisma, soa lógico. Mas atenta contra o valor da responsabilidade. O conteúdo dos anúncios destinados a captar consumidores infantis é psíquica e moralmente venenoso.





Felizmente existem pessoas que defendem causas, que pensam na coletividade, que se interessam pelos outros, que compram brigas e nos fazem enxergar. Confesso que até processar todas essas informações e as sutilezas do mercado publicitário, levei um tempo. Sofri e ainda estudo um bocado! 





Hoje li uma frase da Gloria Steinem que ilustra muito bem o meu período de dúvida: "A verdade te liberta mas primeiro ela vai te enfurecer."











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Antes mesmo de engravidar, decidi que eu faria diversas regulações para evitar que meus filhos tivessem pouco contato com conteúdos inadequados. Nós - eu e meu marido - decidimos que nossos filhos não assistiriam propaganda na televisão. Sou publicitária e sempre soube dos prejuízos da propaganda e de determinados conteúdos audiovisuais para o desenvolvimento saudável das crianças. E, naturalmente, individualmente e sem alarde, selecionamos DVDs adequados para a idade e com eles preenchíamos os momentos de ócio infantil na frente do aparelho de tv e assim mantivemos a nossa resolução de mater-paternidade.






Apenas em 2011, eu descobri que tinha mais gente preocupada com isso. E mais, descobri que existe uma rede de entidades ocupadas em construir uma marco legal para a publicidade dirigida à crianças. Em meados de 2011, o Conar, no qual por muitos anos achei adequado e suficiente para proteção das relações do mercado publicitário, proferiu um parecer contrário a uma destas entidades - o Instituto Alana. Um texto digno de ser um folheto! Escrito por um publicitário em egotrip o parecer me acordou para a realidade: o Conar não é suficiente para regular as relações do mercado, não a relação com os consumidores, especialmente quando são crianças. O Conar protege a publicidade, e só!






Naquela época, a minha voz era o blog e uma conta no Facebook e outra no twitter. E foi com estes instrumentos que me posicionei contra aquilo que eu achava absurdo: meus filhos estavam sendo de alguma forma protegidos, mas a minha blindagem nunca tinha sido suficiente. Eu me achei na obrigação de me posicionar publicamente. E comecei uma série de postagens sobre o tema. E este é o ponto que começa o ativismo. 






Fui reconhecida pelo Instituto Alana como uma das blogueiras capazes de advogar a causa, e num encontro em São Paulo junto com algumas das mulheres mais admiráveis da internet, conversamos muito sobre o tema e saímos de lá sem saber direito como ajudar. Mas eu decidi que iria ajudar falando, ou melhor, escrevendo, e compartilhando tudo que eu soubesse sobre o tema. Mal sabia que eu faria parte de um grupo que faria muito mais. 






Assim que voltei para casa, fui adicionada num grupo de discussão no facebook que eu acompanhava sem a devida disciplina. De repente começou um buzz no facebook inteiro sobre o apoio do Palavra Cantada a uma iniciativa do mercado para convencer a opinião pública que autorregulação é suficiente e impedir que a lei sobre publicidade infantil avançasse no congresso - sinto muito mais não vou linkar aqui, quem quiser vai ter que pesquisar mais um pouco. 






A polêmica no mural migrou para o grupo, e do tópico nasceu um grupo de trabalho, composto por gente do Brasil e do mundo inteiro. Colegas de encontro, colegas digitais e amigos dos amigos. Rapidamente escolhemos nome, cor e meu companheirão criou na pressão uma logomarca e as primeiras peças da identidade visual. Em março de 2012, começaram as atividades do Movimento Infância Livre de Consumismo . Ao mesmo tempo estávamos presente na página do 'concorrente' debatendo, recebendo grosseria e vendo colegas sendo banidas. E de repente uma coluna na Folha de São Paulo aparece colocando os publicitários sob ataque de trollers.






Gente chegou, gente foi embora. Brigamos muito, amamos muito. Choramos muito, gargalhamos muito. E já se somam 15 meses de trabalho intenso e mudanças drásticas na vida de todas que participam da empreitada. 2012  foi um ano muito intenso: chegamos onde nunca imaginamos chegar: estivemos três vezes no Congresso Nacional, uma no Ministério Público Federal, fora uma infinidade de eventos locais, sempre dando voz aos pais, às mães, expondo os nossos limites e elaborando demandas. 






Do ponto de vista prático, acho que os avanços legais são muito pequenos, somos frágeis diante do lobby que corre solto nos corredores das casas que fazem as leis, somos poucas diante dos apelos publicitários e editorias que fragilizam o poder materno e quase sempre consegue nos colocar mães contra mães. Do ponto de vista simbólico, conseguimos muitas coisas: primeiro mudamos nós mesmas, pois todas as que fazem parte do grupo continuam num processo de aprendizado e mudança; segundo porque crescemos tanto e tão rápido, recebemos tantos apoios importantes, realizamos tantas ações que chegaram à grande mídia e, o melhor, as mães começaram a entender que são mais poderosas do que as propagandas da tevê e os editoriais das revistas nos querem convencer. 






Hoje tenho minha turma nos bites e nos átomos. Por causa do MILC, conheci pessoas fantásticas que me ajudam a melhorar como mãe, mulher, ativista e cidadã. Por conta das ações locais do MILC, contruí ou reconstruí vínculos com pessoas da minha terra que vibram na nesta sintonia de priorização da infância. E - estou certa disso - se o ativismo que hoje pratico não servir para mudar o mundo todo, estou certa que mudará o nosso.





***  Mariana Sá, é publicitária e mestra em políticas públicas. É mãe de dois e escreve no blog Viciados em Colo e co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo.










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