quinta-feira, 27 de março de 2014

Tolerância à violência contra as mulheres - estamos todos cegos




luta feminismo, violência de gênero,
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Um estudo divulgado hoje pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelou que:







  • 58% dos brasileiros acreditam que "se as mulheres soubesse se comportar haveria menos estupros";

  • 65,1% concordam total ou parcialmente que as mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas;

  • 64% concordam com a ideia que "os homens devem ser a cabeça do lar";

  • 63% concordaram que "casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família";

  • 89% afirmaram que "roupa suja deve ser lavada em casa";

  • 82% dos entrevistados concordam que "em briga de marido e mulher não se mete a colher";








A violência é mesmo um assunto muito indigesto, é incômodo, dá náusea e causa cegueira. A cegueira se manifesta através da omissão, da covardia. Apesar de estar por todos os lugares e se apresentar em suas diversas formas: psicológica, simbólica, física, sexual, patrimonial, estatal, institucional, ninguém a vê. Ninguém quer ver.





Os noticiários apresentam as vítimas de um machismo escancarado e bem articulado, ora chamando-as pelo nome ora as apresentado como mera estatística. Mas ninguém quer falar sobre. É chato. A verdade é que estamos todos cegos. Padecemos de uma cegueira voluntária e seletiva.





Para o abusador/agressor a culpa é da vítima. Eles nem sabem mas essa é uma técnica de neutralização da culpa e faz parte de uma lógica funcional da submissão de uns sobre os outros. 





Homens submetem mulheres. Os adultos submetem as crianças. Os novos submetem os velhos. O rico submete o pobre. O branco submete o preto. E Joaquim amava Lili que não amava ninguém.





O abusador/agressor justifica sua conduta desviante dizendo que isso é algo que lhe acontece, afinal é um ser dotado de instintos. Como um bode. Ou seja, não é algo que ele faz, sobre ele não restando nenhuma culpa. Se sente autorizado, pois percebe o consentimento da vítima, pelo simples fato de ela existir e estar ali - dentro de um metrô ou andando na rua ou dentro de um escritório. Como se o desejo sexual masculino fosse algo incontrolável e o corpo feminino fosse território masculino.





O abusador/agressor é pautado por uma moral religiosa que desde sempre categorizou as mulheres em honestas e desonestas e o sistema se encarrega de abandonar aquelas que não seguem esse padrão de moralidade imposto pelo patriarcado. Nós mulheres somos reduzidas ao nosso corpo, como se estivéssemos expostas permanentemente às suas classificações vulgares. Técnica esta, passada de geração em geração, aprendida desde a mais tenra infância e a execução faz parte de um rito masculino de passagem.





O abusador/agressor considera a violência uma forma de correção. 





A naturalização das desigualdades de gênero legitimam a violência e a dominação do homem. Num mundo justo, as mulheres jamais poderiam internalizar a culpa pela violência que sofrem ou justificá-la como própria da natureza masculina.





O abusador/agressor é protegido pelo silêncio de toda uma sociedade que optou pela cegueira, mesmo diante de casos que contam com uma regulação normativa. Isso só é possível porque toda a atenção recai nas pessoas - autor e vítima - e não sobre o crime cometido.





Com relação aos crimes sexuais, o sistema penal promove uma verdadeira inversão do ônus da prova e no momento da denúncia a vítima se vê novamente exposta ao julgamento da versão masculina da lei e de seus operadores, restando a ela provar que é uma vítima real. O senso comum policial e judicial não diferem do senso comum social. É brutal. É burro.





"O sistema penal existe sobretudo para controlar a hiperatividade do cara e manter a coisa (mulher) em seu lugar (passivo)". 


Vera Regina Pereira de Andrade. 








Diante desse panorama assustador, responda olhando nos meus olhos: feminismo pra quê?













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