terça-feira, 11 de março de 2014

Escola pública - por que a classe média a teme?




por que a classe média teme a escola pública?
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Sabendo que o ano passou seria o último da Bia por só atenderem crianças até o 5° ano, andava inquieta à procura de uma escola que atendesse aos meus critérios e que também fosse financeiramente viável. Procurei bastante, recebi muitas indicações e me deparei com instituições de ensino que sequer mereciam uma visita.





Nessa busca deparei-me com escolas que possuem espaço externo ínfimo forçando seus alunos a consumirem porcarias no que chamam de "praça de alimentação" em nada comparado ao espaço que tinham antes; que oferecem uma infinidade de aulas extras pra justificar o preço absurdo das mensalidades; sem contar o esquema de segurança, vigilância e controle através de câmeras de monitoramento. Para não mencionar o conteúdo livresco ou apostilado com base em exames, provas e reprovações - únicas medidas de desempenho dos alunos em grande parte delas.





Em nenhuma dessas escolas - financeiramente viáveis para minha família, diga-se - o conhecimento é trabalhado de forma a valorizar as relações humanas, a convivência entre diferentes, a transformação dos valores para alcançarmos a tão sonhada igualdade. Ao contrário, as escolas vêm se constituindo num espaço de reprodução de ideologias das mais diversas, das mais perversas, reproduzindo a exclusão através de práticas pedagógicas.





Como todas são absolutamente similares, a sociedade como um todo parece não se importar e aceita tudo como natural e vamos nos adaptando e submetendo nossos filhos a essas instituições sem nenhum tipo de questionamento. 





O que tem acontecido com as escolas, afinal?





Em meio as minhas buscas frustradas, recebemos a notícia que vamos mudar de cidade. Continuaremos em Santa Catarina e nos mudaremos até o meio do ano. Os impactos dessa notícia no cotidiano dessa casa virou um texto no blog Dadadá. Foi uma notícia recebida com alegria e medo. Como se não bastasse a mudança de cidade, meu marido sugeriu uma outra que nos pareceu ainda mais dramática. "Esse ano nossos filhos estudarão em uma escola pública". Segundo ele, não compensaria arcar com os custos de todo-começo-de-ano-letivo para em seguida nos mudarmos e pagar-tudo-de-novo a uma outra instituição. 





Parece-me justo mas confesso que não aceitei essa notícia sem ranger de dentes. Não queria meus filhos estudando numa escola pública. Não queria meus filhos lanchando uma comida servida em refeitórios que nem sei como são higienizados. Não queria meus filhos na companhia de qualquer um. Não queria meus filhos ali. Meus filhos.





Em uma discussão muito dramática, meu marido ouvia tudo calmamente. Depois que usei o pronome possessivo incontáveis vezes, ele simplesmente respondeu: "Que estranho! Não é você que luta por um mundo sem preconceitos? Não é você quem diz que para preconceitos não existem ressalvas? Por que teus filhos são diferentes dos filhos dos outros? Por que os outros não merecem a oportunidade de conviver com teus filhos? Somos tão especiais assim?"





Que confronto! 





Após uma catarse básica veio a aceitação. Com ela, uma vontade de entender por que nós que compomos a classe média temos tanta ojeriza pela escola pública. Em que momento renegamos um direito social para assumir o papel de consumidor. 





Bem verdade que observamos um dualismo perverso entre a escola particular (de conhecimento) para ricos e escola pública (acolhimento social) para os pobres. O que faz com que as escolas particulares sejam vistas como instituições que verdadeiramente possibilitem o aprendizado e as públicas como um espaço que favorece a delinquência. Esse pensamento dualista serve ou não serve para manter desigualdades sociais?





Pelas leituras que fiz sobre a historiografia da educação podemos dizer que o sistema educacional sempre esteve a serviço de diferentes interesses. Quais interesses sociais estão envolvidos nesse processo?





A cultura escolar foi criada na República, pois até então era inexistente. O avanço da industrialização apelava por uma mão de obra qualificada, gerando a necessidade de escolas para formação do futuro operário. A elite brasileira só estava preocupada com a organização do sistema capitalista. Foi implementada uma pedagogia higiênica que era sinônimo de disciplina do hábito e tinha como princípios norteadores a nação e pátria. Surgiu então a escolarização em massa, cuja concepção era de que a desigualdade é fruto natural da evolução dos indivíduos e não resultante de uma estrutura econômica. Olá, meritocracia!





A implantação da escolarização foi um fenômeno urbano, porque porque naquele período ainda imperavam formas arcaicas de produção, havia mão de obra abundante e baixa urbanização. Como foi (ou continua sendo?) um fenômeno urbano, acabaram ficando de fora os pobres e os negros. (!!!) 





Se o ensino era público por que não atendeu aos interesses do povo? Ora, ao Estado cabe a manutenção das relações de poder.





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A escola pública se mantém em declínio há pelo menos 30 anos e a única coisa que fazemos é bradar "por uma escola pública de qualidade e gratuita para a toda a população". A classe média sempre se acovarda na hora de exigir o cumprimento de seus direitos por tratar a tudo como mercadoria e a quem reduz tudo a uma questão de dinheiro. 





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Algumas considerações sobre a minha experiência:







  1. Não tive que acampar na porta da escola nem pegar fila para ter garantida uma vaga para meus filhos. É tudo informatizado.

  2. Não é um lugar para pessoas verdadeiramente pobres. Nas escolas públicas da ilha, há um público de classe média bastante expressivo. Tanto que o meu é o carro mais velho na porta das escolas.

  3. Na escola dos meninos não há problemas de instalações físicas. São muito bonitas e arejadas. A do Otto inclusive, é nova. 

  4. Todos os profissionais são engajados além de educados. Muito mais do que nas escolas onde meus filhos estudaram, diga-se.

  5. Nas reuniões que participei noto o engajamento de algumas famílias através de eleições para a Associação de Pais e Professores em detrimento a escusa de algumas que se eximem de quaisquer participação e envolvimento "porque isso é obrigação do governo".  Em tempo: a escola é municipal. O nosso olhar para a escola, principalmente a pública, não deve ser de desesperança. Por trás de cada professor sem plano de carreira definido, existe uma vontade enorme de fazer a coisa acontecer. E nossa participação é essencial nesse processo.

  6. Bia se adaptou muitíssimo bem. Otto estranhou o estilo "escolinha".






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Por fim, vejo como positiva essa mudança de espaço para dar fim a minha projeção de êxito sobre meus filhos.





Acredito que educação também seja estar em contato com pessoas de níveis socioculturais diferentes num ambiente não seletivo para compartilhar vivências, ter contato com outras realidades e aprender mais sobre solidariedade entre as pessoas.





Essa não deveria ser a função precípua da escola?













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