sexta-feira, 19 de julho de 2013

Síndrome do zigoto errado


Antes de começar esse post, devo dizer que esse texto não trata da obra de Elisabeth Badinter, que aborda o tema no livro "Um Amor Conquistado - o Mito do Amor Materno", que acreditem, ainda não li. Embora traga alguns elementos não só dessa obra, como da síndrome do zigoto errado, abordado por Clarissa Pinkola Estés.







síndrome do zigoto errado
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A relação fusional mãe-filho, nesse modelo de amor materno tal como o conhecemos surgiu no século XIX - em termos históricos, isso significa ontem. Pinta a mãe como uma pessoa pura a quem são atribuídos sentimentos dos mais nobres.





Até bem pouco tempo atrás, duvidava que o amor materno - instintivo, fosse de fato um mito. Hoje não duvido mais. 





É possível, aliás, é bem comum que aconteça de você não se sentir adequada à sua família de origem. Estranhamento de ambos os lados. Dos pais com relação a vc, de vc com relação a seus pais. Às vezes, a parecença é só no nível genético, mas em temperamento, nos gostos, nas aspirações, vc pertença a um outro grupo. Tal como na história do Patinho Feio contada por Hans  Christian Andersen, que sugere que vc que é diferente aguente, até encontrar a sua própria turma. É a síndrome do zigoto errado, mencionada mais acima.





Essa sensação de não pertencimento com a sua família, gera uma série de inconvenientes. Gera culpa. Gera vergonha. Sofrimento em ambos os lados. Eles se perguntam: mas por que meu filho é tão diferente? (com uma conotação bem negativa) Vc se pergunta: por que eles são tão insensíveis? Não há respeito pela sua natureza inata. É como se nada se encaixasse. 





Vc é a tese e sua família a antítese. Eles querem coerência. Querem que vc seja hoje exatamente do jeito que foi ontem. O dinamismo da sua natureza lhes parece impalpável.





Tudo o que vc quer é amor. Tudo o que eles querem é paz.





Esse sentimento de inadequação faz com que os pais se sintam ofendidos o tempo inteiro, enquanto vc tem a sensação de que não vai conseguir agradar nunca. Vc faz o que faz, pensa da forma que pensa porque segue a sua natureza, está apenas sendo. Isso parece irritá-los profundamente, apesar de essa não ser sua intenção. Não adianta.





Então, apesar de pertencerem a mesma família, estarem sob o mesmo signo relacional, o sentimento parece não fluir. Uma relação entre pais e filhos para dar certo, deve funcionar da mesma maneira que em todas as outras. Há que haver respeito e admiração.





Se vc é mãe/pai e usa sua condição para exercer poder de controle e se emitir da posse de vida do seu filho, vc definitivamente não o ama. Mesmo usando sua condição para legitimar esse controle, o famoso "é para o seu bem." Se vc determina quando e como devem ser iniciados os ciclos de desenvolvimento, vc deve ser um tipo de deus, menos mãe/pai. Se vc humilha, torna menor, o faz conviver numa eterna situação de inconveniência, sente uma necessidade incrível de ser consultado em todas as instâncias, desculpe, mas vc definitivamente não ama seu filho.





É difícil passar anos a fio na companhia de quem não pode nos ajudar a florescer. Isso funciona para os dois lados. Isso nos limita, reduz nossa energia, nos tira a potência de vida. Falando em português claro: investir numa relação falida é perda de tempo. Investir nessa relação em nome da manutenção dos laços pode causar além de dor, frustração. Chega um momento na vida, talvez até por instinto de sobrevivência, que devemos nos cercar de pessoas com quem nos sintamos bem, uma espécie de família psíquica.





Uma relação de parentesco não garante amor. Uma relação de parentesco não pode ser usada como instrumento de controle, não garante a posse nem pode condenar a um erro perpétuo. Porque existem pessoas que sabem amar e outras que simplesmente não sabem.





O amor é portanto, construído.


Amor é libertador, é acolhedor, sobretudo nas diferenças.


Permite o crescimento.


Deixa vicejar.











* título do post vem de um conto do livro Mulheres que Correm com os Lobos, cuja inspiração vai além.




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