sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Maternidade e carreira - como não conciliar essas duas coisas - BC - FemMaterna



blogagem coletiva, carreira x maternidade, desafios da mulher no mercado de trabalho





O primeiro sentimento que tive ao receber a notícia da (primeira) gravidez foi: vergonha.






A recebi como uma sentença, como uma fatalidade. "Sua vida acabou", ouvi de várias pessoas e senti o peso de cada uma dessas letras. Não era tão nova, mas sentenciada estava por ter posto meu futuro promissor em risco.





Naquele momento e no ambiente de trabalho opressor, tudo o que eu conseguia sentir era incômodo e inadequação. Sentia-me desnuda aos olhares dos outros. Minha sexualidade nunca foi tão exposta. Estava grávida e isso indicava uma vida sexualmente ativa. A gravidez veio para mim como um castigo.






Com o pouco apoio que tive no ambiente de trabalho e o apoio incondicional do meu marido, ergui a minha cabeça e decidi seguir em frente, com a gravidez inclusive. Esta seguiu tranquila e sem intercorrências que me fizessem sair do ambiente de trabalho, mas sempre que precisava me ausentar por conta das consultas de rotina do pré-natal, este afastamento devidamente justificado com atestados médicos era visto com um quê de desconfiança. E os olhares eram sempre muito pesados e jocosos.





É muito difícil ser mãe e empregada celetista. (regida pelo CLT)





Lembro do frio na barriga que senti no retorno da licença-maternidade. É sabido que muitas mulheres perdem seus empregos nesse período em que tanto precisam deles, embora a legislação garanta a estabilidade da empregada gestante a partir da confirmação de gravidez, mesmo se o contrato de experiência e de acordo com a Lei 12.812/13 que acrescentou o art. 391-A à CLT:  a empregada gestante passa a gozar de estabilidade provisória desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto, ainda que durante o aviso-prévio trabalhado ou indenizado. Felizmente nada aconteceu comigo.





Naquela época, eu tinha vínculo empregatício e meu marido não. Foi então que ele decidiu ficar em casa com a nossa filha e assumir os cuidados diários com a casa e com o bem estar da pequena. Não posso negar que para mim, foi um alívio. Evitou a ida (precoce) dela para um berçário e possibilitou minha ida para o trabalho em tranquilidade. Tive esse apoio e aquelas que não tem?









Essa tranquilidade durou poucos meses. A necessidade de dinheiro o compeliu a procurar trabalho o que mudou por completo a configuração inicial. Decidimos contratar uma empregada para que a Bia não tivesse que sair de casa, mas era muito doído sair e deixá-la sob os cuidados de uma estranha. Trabalhar deixou de ser um prazer, um objetivo de vida e passou a ser um tormento.



Era uma situação muito pouco confortável. Tinha em minha casa uma mulher que também era mãe para cuidar da minha filha para que eu pudesse trabalhar. Essa mulher por sua vez, deixava os filhos dela com outro alguém para poder, também, trabalhar e contribuir para a renda em seu lar. Ela tinha seus motivos para faltar ao trabalho. O que me levava a faltar também.



Passei a nutrir o desejo de não ter que sair de casa para trabalhar. Sentia uma necessidade enorme de estar junto com a minha filha e assumir a autonomia na minha maternagem.



Tudo mudou quando meu marido passou num concurso público federal, o que nos levou de mala e cuia para Manaus. Numa cidade estranha sem conhecer ninguém, sem o apoio de parentes ou amigos, decidimos que ficaria em casa. Sozinha e com minha cria.



Ao contrário do que apregoa o senso comum, me senti realizada por estar em casa. Absolutamente plena, o que aumentou a cobrança social. As pessoas não entendem e não acolhem as opções de vida do outro:











Nesse tempo dedicado a minha maternagem, me redescobri, planejei e pari outro filho! Nos mudamos de cidade e para ele pude me dedicar todo o tempo de que dispunha.

Todos esperavam que por eu estar em casa o tempo inteiro, sem trabalhar, todos os cuidados relativos aos filhos estariam sob minha exclusiva responsabilidade. Mais uma vez contrariamos o senso comum e meu marido passou a ouvir a seguinte pergunta no ambiente de trabalho, sempre que se ausentava (amparado na Lei 8112/90, art. 83): esses meninos não tem mãe, não?



Nesse sentido Iara Domingos questiona:





O FILHO DA MÃE! Da mãe que trabalha!!!








"Como Conciliar o trabalho( os afazeres domésticos) e o filho dentro de um relacionamento "igualitário"? Essa resposta eu não tenho, aliás até onde vai a igualdade das relações MATERNA/PATERNA com a cria? talvez ela não exista e o tal mito do "instinto materno", seja realmente verídico e alimentado pela sociedade patriarcal, afinal de contas, que chefe irá enxergar com bons olhos e romantismo a falta do seu empregado para o acompanhamento de uma consulta médica do filho, O FILHO É DA MÃE oras. Quantas mães tem que se desdobrar para deixar o filho a com a avó, em creches com o peito apertado para enfrentar mais um dia de trabalho? será que é o mesmo drama do pai ao cruzar a porta para mais um dia de trabalho? Sou estatutária, professora (ou seja péssimo salário, mas estabilidade trabalhista) abri mão de dar aula em mais de uma escola, de uma renda extra para poder criar e educar meu filho, mas e o pai será que faria o mesmo? Não, não faria e meu drama é até onde eu consegui implantar minhas ideologias feministas na maternagem e onde deixei de ser feminista para maternar?"




Sempre considerei o meu afastamento do mercado de trabalho como um tempo e não como algo cristalizado, imutável. Senti necessidade de voltar para a minha graduação, que não foi deixada de lado por conta da maternidade. O motivo foi outro. Voltar a estudar naquele momento, com meus filhos mais crescidos e com o apoio do meu marido foi reparador.



Mas enquanto escrevia esse texto, percebi os desafios que também me acompanham no ambiente acadêmico. Agora que estou no turno da noite, sou obrigada a faltar mais do que gostaria. E por que sou "obrigada"? Porque meu marido tem viajado muito e passa a semana fora, como essa por exemplo. Com quem deixar meus filhos? Embora eles já fiquem sozinhos, tem dias que simplesmente não consigo cruzar aquela porta. E falto aula. Alguns professores que não sabem da minha história, nem teriam como saber o caminho que cada aluno precisa percorrer pra estar "presente", me olham torto, me julgam. Faltar significa que me falta comprometimento. Olha, até poderia ir (como vou muitas vezes) mas deixar meus filhos sozinhos durante uma semana inteira é uma responsabilidade muito grande que jogo na Bia, então prefiro deixar meu coração falar mais alto e optar pela tranquilidade.



Este foi o comentário da Dany Santos, que ilustra bem essa pressão no meio acadêmico:









Gostaria muito de voltar a trabalhar, mas não tenho como assumir uma jornada de 8h diárias. Até o estágio deixou de ser uma saída, visto a carga horária de 6h + deslocamento, torna essa opção inviável. Por que não nos possibilitam uma jornada mais flexível, mais curta com salário proporcional? Isso permite a manutenção dos homens no âmbito público e as mulheres no privado.



O home office tem sido uma saída para que muitas mulheres reconfigurem a organização familiar e possam estar ao lado dos filhos mas funciona para todas as mulheres, em todas as famílias, em todas as áreas?









E para aquelas que como eu, não tem vocação para empreender? Que não possuem habilidades manuais? Que não são jornalistas ou publicitárias - geralmente duas áreas que permitem o trabalho nesse formato?



Muitas mulheres se sentem acuadas pelo sistema que nos cobra sucesso profissional e excelência na criação de filhos.



Desculpa, sociedade, mas muitas mulheres não veem saída a não ser renunciar por um tempo suas vidas profissionais em favor dos filhos e por que não de si mesmas. Existem diferentes formas de realização e para sermos completas não necessitamos necessariamente de uma carreia.



É que a ambição de "ser alguém" deixa de ser a coisa mais importante nas nossas vidas. Sinto-me muito mais empoderada para estabelecer prioridades na minha vida, que podem mudar com o tempo.



















*** Esse texto faz parte da blogagem coletiva proposta com o FemMaterna cujo objetivo é refletir sobre o que podemos fazer, como coletivo, para acolher as demandas das mães. No meu caso, mais perguntas que propostas. Sigo na tentativa de uma recolocação que respeite uma jornada flexível e minhas aptidões.





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