terça-feira, 7 de maio de 2013

O mito da caverna - o que essa alegoria tem a ver conosco?


Imagine um grupo de pessoas que habita o interior de uma caverna subterrânea. Esta é separada do mundo externo por um alto muro e que existe uma única fresta por onde passa um feixe de luz exterior. Todos que ali estão nasceram e cresceram presos por correntes, de costas para a entrada. Sem liberdade para se movimentar, sem nunca ter visto a luz do sol, sem nunca terem visto uns aos outros nem a si mesmos, eram forçados a olhar somente para a parede do fundo da caverna que é iluminada pela luz gerada por uma fogueira.



Nesta parede são projetadas sombras representando pessoas, animais, plantas e objetos - cenas e situações do dia a dia. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros acabam os associando às sombras. Os prisioneiros ali sentadinhos, no escuro, ficam dando nomes às sombras, analisando e julgando as situações. Tomam sombras por realidade e essa confusão, porém, não tem como causa a natureza dos prisioneiros e sim as condições adversas em que se encontram.











Acontece que um dos prisioneiros foi impelido a quebrar seus grilhões, inconformado que estava com aquela escuridão. Livre, decide se movimentar lentamente. A luz é tão forte que ele pouco consegue enxergar. Acostuma-se. Fica maravilhado com as cores, com os contornos precisos das coisas, com os animais, com as flores, com os sons. Fica dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Qual é a sua realidade afinal? Tudo que vê agora ou as sombras em que sempre viveu? Então, ao ver o sol brilhando no céu, ele compreende que é ele o responsável por dar vida a tudo que existe na natureza e que era, graças ao fogo da caverna que ele podia ver as sombras projetadas na parede.



Sente vontade de voltar para a caverna, onde tudo parece mais acolhedor. Mas ele precisa ver e esse aprendizado é doloroso. Superada a dor, ele se encanta e deseja nunca mais voltar para a caverna, para seus grilhões, para o mundo das sombras. Então ele começa a pensar nos outros companheiros e lastima a má sorte deles. Por fim, toma uma difícil decisão: voltaria a caverna para contar aos seus companheiros tudo o que viu e que aquelas sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade. Precisaria convencê-los a se libertarem também. Não por vaidade, mas por compaixão.









O que acontece nesse retorno?



Ninguém acredita nele. Zombam dele. Apontam para a parede e dizem que aquilo é tudo o que existe. É a única verdade. É a realidade. Por fim, acabam matando aquele que veio lhes dizer mentiras; aquele que perdeu o senso de realidade; aquele que é louco.



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O que a caverna? O mundo de aparência em que vivemos.



O que são as sombras projetadas no fundo? As coisas que percebemos.



O que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos e opiniões, nossa crença de que o que estamos percebendo é a realidade.



O que a luz do sol? A luz da verdade.



O que é o mundo iluminado pelo sol da verdade? A realidade.



Por: Marilena Chauí.



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O que a maternidade tem a ver com a alegoria mais lida no mundo filosófico? Qual a realidade que acreditamos ser imutável? Como agimos com aqueles que buscam a verdade?



Raiva.



Foi a primeira coisa que senti quando a primeira blogueira materna ousou sair da caverna, apresentando um mundo de possibilidades que escapavam às sombras que me eram tão familiares. Tudo soava tão presunçoso, tão cheio de raiva, tão intolerante, tão despeitado!



Já não me bastavam as noites insones? Já não me bastava a administração da culpa? Que tinha eu que me envolver naqueles discursos, que julgava teóricos demais para por em prática na minha vidinha doméstica?



Ao perceber que não se tratava de uma luta pessoal e que aquelas senhoras que antes trocavam fraldas não eram corruptoras da ordem vigente, resolvi sair da caverna em que me encontrava. Nunca me apeteceu o conformismo dos grilhões. Posso dizer que a luz é mesmo dolorosa. Transpor os obstáculos idem. Mas então vem o deslumbramento, que literalmente, significa ferido pela luz.



Do lado de fora é mais fácil perceber o sentido de todas as propostas e que a aceitação delas, visa tão somente o conhecimento - a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade. Entendida a premissa, não poderia me escudar na desculpa universal: de que o mundo é de determinado modo, que a realidade é essa e que nada poderemos fazer.



O que nos acorrenta é invisível.



O aprendizado é de fato, doloroso. Difícil não querer voltar pro lugar sombrio que sempre foi tão acolhedor. Como diz o Sakamoto, a ignorância é mesmo um lugar quentinho.





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"Na nossa cultura fomos treinados para nos diferenciarmos dos outros. De modo que ao olhar para uma pessoa, nossa reação imediata é inseri-la num modelo rico - pobre - preto e fazemos todas essas diferenciações dimensionais colocando-os em categorias e os tratando dessa maneira específica. Aí conclui-se que só vemos os outros separados de nós da forma em que eles estão afastados e caracterizados. E uma das mais dramáticas características da experiência de estar com outra pessoa e de repente reparar que certos aspectos são exatamente como vc, e não muito diferentes de vc, é experimentar o fato de que a essência que há em vc e a essência que há em mim, são no fundo, uma só: a compreensão que não existe um outro. Somos todos UM."



via Zeitgeist



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A vida é muito mais que as sombras projetadas.








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