A palavra nos priva do mundo.
Um discurso muitas vezes causa menos impacto que as imagens. Neste projeto, as imagens mostram apenas parte dos corpos das mulheres violentadas e seus relatos vêm como uma tatuagem, simbolizando a marca das dores e o rompimento do silêncio.
Por que 1:4? No Brasil 1 em cada 4 mulheres sofrem algum tipo de violência durante o atendimento ao parto.
Eu adoro quando a vida vem com uma coisa que se combina com outras tantas que aconteceram lá atrás e essa mistura produz algo maior. Minha vida é cheia disso.
No dia em que eu acessei uma conta de e-mail que nem uso
mais para procurar um contato antigo, aconteceu de novo. Eu achei uma mensagem
da Caroline Ferreira, uma amiga que eu amo e que é meio desastrada e escreveu para
esse endereço antigo – olha a vida aí: eu poderia nunca ter lido essa mensagem.
Ela citava um projeto sobre violência sexual na infância e arrematava com a
pergunta: “você nunca pensou em fazer algo assim sobre a violência obstétrica?”.
E então a epifania toda aconteceu. Minha boca ficou aberta
por vários segundos enquanto eu visualizava o que eu queria fazer. Era
totalmente diferente do projeto que ela citou, mas era incrível. Quando meu
queixo voltou para o lugar, eu não conseguia parar na cadeira, porque o que eu
vi era algo que eu já procurava há algum tempo.
Quer ver a vida aí de novo? Eu tive um filho no começo de
2011 – eu, que dizia que não queria ter filhos “nunca nessa vida”, engravidei
sem planejar. Abracei isso pra mim e comecei a me envolver com os grupos de
apoio ao parto humanizado. Tive um parto respeitoso, em casa, do qual eu tenho
saudade de cada minuto. Isso mudou tanto a minha vida que eu investi em algo
que já me atraía muito, a fotografia, e logo depois mudei de carreira: sou
fotógrafa de partos humanizados –e com isso pago minhas contas, sou feliz pra
caramba e faço minha militância mostrando pro mundo uma referência desse evento
que ainda é muito nova por aqui: o parto pode ser lindo, desejável,
fotografável, pode ter risadas, carinho, respeito, cachorro de estimação, mãe
que dança com o pai, pai que pega o filho, pai que pari junto com a mãe.
Desde que eu comecei a fotografar de verdade, já havia
pensado em ter um projeto fotográfico, mas só olhava para a fotografia de
partos, e ela não sustentava isso. A mensagem da Carol causou um eureca!: eu
olhei para o outro lado, para a outra ponta do processo. Meu engajamento pela
humanização podia ir por esse caminho também: eu luto a favor de partos
humanizados e contra os partos violentos.
Voltando ao momento em que meu queixo voltou para o lugar:
eu precisava ver aquilo pronto, executado. Eu já conseguia imaginar as fotos, a
logo do projeto, tudo. Sei que parece clichê, mas ali eu vi que eu podia e
precisava colocar o que sei fazer a serviço de um mundo melhor, mais de acordo
com o que eu acredito. E olha a vida aí de novo: a Carol foi vítima de várias
violências obstétricas durante o trabalho de parto. Estava feito, eu tinha alguém
para o piloto do projeto. E também tinha alguém pra me ajudar, caso a coisa
crescesse muito.
Passamos algumas semanas buscando mais algumas mulheres que
foram vítimas e tentando explicar o que era o projeto e como seriam as fotos e
buscando a melhor solução para escrever as histórias nos corpos das mulheres.
Semanas de frustração, fazendo testes com coisas que nem existem mais, como
papel hectográfico e desodorante em bastão. Enquanto isso, eu desenhava a logo
e deixava a página pronta. E o projeto foi lançado em 8 de março.
![]() |
| Projeto 1:4 Retratos da Violência Obstétrica por Carla Raiter |
O que veio depois foi um furacão. Temos recebido relatos de
mulheres de todas as regiões do Brasil. Relatos tristes, que nos fazem chorar
de soluçar, relatos revoltantes de corpos invadidos e de partos roubados, de
mulheres que, de tão traumatizadas, decidiram após o primeiro parto não ter
outros filhos. As sessões de fotos nunca são só uma sessão de fotos: são
conversas com mulheres que se abrem porque sabem que são compreendidas;
mulheres que querem usar sua história para ajudar outras mulheres a não passar
pelo mesmo, ou que veem no processo de participar um jeito de virar a página.
E o 1:4 está aí, Nós pensamos num projeto de denúncia, e
sabíamos que o alcance disso era limitado. Mas, de repente – e olha a vida aí
de novo –, vimos que além da denúncia e das fotos, ganhamos uma missão mais
importante e, talvez, mais eficaz: ajudar a curar feridas.
*** 1:4 é um projeto fotográfico, idealizado por Carla Raiter e Caroline Ferreira, que busca materializar as marcas invisíveis deixadas por esse tipo de violência e traz à luz uma reflexão sobre a condição de nascimento no Brasil e as intervenções desnecessárias que ocorrem no momento do parto.


Nenhum comentário:
Postar um comentário