Excitação e medo são sentimentos antagônicos e correlacionados quando falamos em mudança.
Sempre tive, desde a infância, uma queda por cabelos curtos. Acho lindo, acho sexy, acho prático. Mas sempre usei os meus bem longos, porque sempre que manifestava a minha vontade, seja pra quem fosse, ouvia sempre comentários exasperados, tentativas inconvenientes de me alertar sobre o tamanho das minhas bochechas e meu nariz, hã, batatudo. Não combina!!!! - gritavam todos.
Ficava lá, amuadinha e voltava com a minha louca vontade pra dentro da conchinha. Até que, quando estávamos prestes a mudar de cidade, resolvi não fazer a clássica pergunta "o que vc acha de..." pra ninguém. Meu marido já estava lá e eu não o via há longos quatro meses! Cheguei ao salão autoconfiante e com o cabelo perto da cintura e falei pro cabeleireiro: CORTA! Como? - perguntou educadamente. Curto. MUITO CURTO!!!!
Cortar o cabelo foi a maneira simbólica de mostrar que eu estava disposta a começar de novo. A zerar a vida. Lá ninguém iria me reconhecer na rua mesmo. E, quando vi o meu rosto emoldurado pelos cabelos curtos e bem repicados (oi, Renée!) quase grito de felicidade! Falei ainda olhando maravilhada para o espelho: "esperei a vida toda pra ter esse resultado? Pra me sentir tão bem assim?"
Por que perdi tanto tempo, ouvindo a opinião dos outros? Passei a me namorar. E, quando o marido me viu ainda no aeroporto, pude ver sua expressão de entusiasmo. Parabenizou a minha coragem e afirmou o que já sentia no íntimo: por que não cortou antes? Ficou linda!!! Win.
A mesma coisa aconteceu com a armação dos óculos de grau. Desde os quatorze anos que os uso e sempre escolhia armações clássicas, discretas...quase invisíveis, como se fosse feio usá-los. Pois bem, quando completei 30 - quando inaugurei minha fase egoica - pedi de presente ao marido uma armação vermelha. Vermelhão. As pessoas me viam entusiasmada e já diziam que seria muito estranho desfilar por aí, com um óculos assim. Que eu enjoaria. Que não ficaria legal para o meu tom de pele, com a cor dos meus olhos.
Só que dessa vez, deixei bem claro que não estava lhes pedindo opinião. Estreei meus óculos novos com toda classe e vermelhidão e constatei o quanto a cor me fez bem. Tornou viva a minha expressão naturalmente pálida. E as mesmas pessoas que foram contra, disseram que não poderia ter feito melhor escolha, mas já não me importava com a opinião delas, estava me sentindo bem - afinal, isso é o que importa. Para mudar, definitivamente, ouvidos moucos. Essas pessoas não sabem o que dizem.
Já não basta tudo ser sempre o mesmo? Nos deparamos diariamente com as mesmas notícias, com o mesmo trânsito, a mesma praça, o mesmo banco e o mesmo jardim? Por isso é bom, quando algo nos surpreende, para nos libertar desse tédio.
Cortar o cabelo, trocar a armação do óculos, mudar de casa, de cidade, de profissão, nos lembra que nada nessa vida é definitivo e que ainda estamos vivos! É bom, muito bom, combater o olhar acostumado sobre si mesmo.
A ousadia vem pra quebrar o hábito, a mesmice, pode até provocar um estranhamento, mas não é maravilhoso render-se às inúmeras possibilidades da vida?
Não tenha medo. Faça ouvidos moucos.
Mude.

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