Não sei se um ser humano é capaz de não criar expectativas acerca do outro ou de alguma coisa. Isso pode ser muito perigoso,
Assim é a maternidade.
Umas pessoas projetam nos seus filhos tudo o que quiseram ser e não conseguiram, como se eles tivessem vindo ao mundo para dar continuidade a projetos inacabados, sonhos não concretizados. Outras querem proteger os filhos de todo e qualquer sofrimento, para que eles não passem pelo que passaram.
Há um tempo atrás quando escrevi esse post, estava com muito medo por causa dos sinais claros de que a minha filha de nove anos estava entrando na puberdade.
Cedo demais – pensei.
Cedo demais!!! – protestei.
Investiguei o quanto pude…não há escudo melhor e mais eficaz que a informação! Passamos por endocrinologistas e os sinais clínicos eram bem diferentes dos laboratoriais – estes indicavam que estava tudo bem, tudo certo, volte depois. Sem me dar por vencida, conversei com minhas tias, (uma médica e uma outra doutora em farmacologia) e lhes contei como estava revoltada com esses médicos incompetentes! Queria saber porque não receitavam logo a porra desses hormônios. Precisávamos agir rápido (como se tudo se resumisse a luta do bem contra o mal).
Depois de ouvir tudo com meu incômodo tom de revolta e lágrimas nos olhos diante de minha própria impotência, disseram que os médicos estavam certos. PAF! Que não havia necessidade de introduzirmos nenhuma medicação, que seria muito ruim para a Bia neste caso. PAF! Daí uma delas, que me conhece desde sempre, me olhou lá dentro dos olhos e perguntou: Dandan (oi, esse é meu apelido pros tios) vc está com MEDO DE QUÊ? Engoli em seco e perguntei se poderia responder depois.
SABEM LÁ DE NADA. Continuei com a minha cisma, com meu escudo e com a sensação de que ainda precisaria derrotar um inimigo, porque eu sou como a Maria, que tem a estranha mania de ter fé na vida. Daí lembrei da conversa que tive com a minha tia e fui achando as respostas.
Foi um processo muito, muito doloroso.
Só que eu precisava ter a certeza de que essa era resposta certa. Era o que mandava meu senso de responsabilidade. Daí, num ímpeto, procurei a Ligia (a Cientista que Virou Mãe) e pra formular a minha pergunta, fiz um paralelo entre essa minha insistência e o uso indiscriminado de ritalina e, consequentemente, das mães que são coniventes com isso. Estou sendo igual a elas? - foi a minha pergunta. Sim, as minhas respostas estavam certas. Tudo o que ela me falou, serviu para deixar as coisas ainda mais claras.
***
Olha como estava louca...acreditava que toda essa ansiedade, essa busca, fosse por causa da menarca, que sequer aconteceu. Imaginei que no momento da menstruação a menina sofreria uma metamorfose e se transformaria da noite para o dia, deixando pra trás a infância, os brinquedos, a ingenuidade.
***
Uma coisa que aprendi com tudo isso é que, como MÃE nunca sabemos de tudo o tempo inteiro. Quem acha que se diplomou na maternidade e pode vender seus conceitos, precisa revê-los e baixar a bola. Não temos o controle sobre nada, nem mesmo sobre nossos filhos.
Ser mãe é um eterno exercício de humildade.
Essa novidade toda: de escolher modelos confortáveis de sutiã e métodos de depilação pra uma garotinha fez com que eu encontrasse a minha própria sombra, os meus fantasmas. O medo não era só ter de comprar absorvente, era outro.
O medo era da adolescência em si, não no sentindo fisiológico, mas do que estava por trás. Descobri que estava projetando na vida da filha todas as questões não resolvidas da minha vida. O meu medo era de QUEM EU me tornaria pra ela. De que eu, mesmo sem querer a fizesse passar pelos mesmos constrangimentos, pelo mesmo sofrimento pelo qual passei.
Agora já não cabe mais a clássica pergunta: que tipo de mãe serei? NÃO. Agora a questão é: que tipo de mãe eu NÃO quero ser.
Não quero ser a mãe que aprisiona, não quero ser a mãe incapaz de acompanhar as evoluções do corpo e do pensar, não quero ensinar pela aspereza, não quero ser a mãe competitiva, não quero ser a mãe que ao invés de orientar, julga modelos de conduta que ela mesma teria que ensinar, não quero ser a mãe que afugenta ao invés de acolher, não quero ser a voz dos conflitos.
Quero ser o que não foram.
Um ser com o mínimo de sensibilidade ao ver uma flor desabrochar, a pega com cuidado, porque qualquer gesto, por menor que seja, acaba machucando as pétalas sempre muito finas e delicadas. Assim é a nova fase (adolescência). Assim que quero agir quando ela chegar.
Revivi antigas questões, mesmo que somatizando-as para, finalmente, cortar o elo e renascer. Dissociar a mãe que sou, da filha que fui. O que passou não pode ser mudado e preciso aprender a encarar isso. Já o que está por vir...isso sim, é de minha inteira responsabilidade.
Porque as coisas podem mudar, nós podemos mudar, mas o vínculo que se constrói com os filhos é para sempre.
Agora sim, me sinto preparada.
Nada de remédios, nada de intervir no curso natural da vida.
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