Sabe, um dia acreditei que uma boa escola era a de grife. A que ostentava um nome, a que exibia números de aprovados nas melhores universidades, as que tinham uma grande estrutura física.
A Bia inclusive, frequentou uma escola assim durante alguns anos. Até que eu começasse a questionar, até eu perceber a massificação que acontecia dentro das salas de aula. Não havia espaço para improvisos, não havia tempo para que as crianças pudessem ser ouvidas, para que elas fossem capazes de formular seus próprios questionamentos.
Para o temperamento da minha filha, isso não estava dando certo. Ela ficava constantemente frustrada por não ter meios de mostrar as habilidades que possui e pelo distanciamento nas relações.
Como tudo na minha vida acontece por força do acaso, quando mudei para o bairro onde moro atualmente, forçosa foi a mudança de escola. Escrevi sobre a busca por uma nova escola AQUI e achei uma que reunia as qualidades que buscava, que se preocupa, aliás, se propõe a despertar no aluno a busca pelo conhecimento. Onde eles não são meros coadjuvantes nesse processo, ao contrário, atuam diretamente.
Tanto a Bia como o Otto se adaptaram maravilhosamente bem. E posso me incluir nessa, já que lá, encontrei parceiros. Porque de nada adianta, matricularmos nossos filhos num lugar, onde há divergência de valores.
Percebi também, como é boa a escola que não só permite a entrada dos pais, como promove uma interação com eles e entre eles. De como é bom entrar e deixar cada um na sua sala. Como é bom poder transitar pela escola, sem ter que marcar horário.
Pois bem, a turma da Bia é a mesma do ano passado. Uma turma bem pequena, a menor da escola. E há apenas duas meninas na sala. Esse ano começou confuso, com um professor novo que não atendeu às expectativas da própria escola e dos pais, que se mantiveram atentos. Somando-se a isso, ingressaram dois alunos novos. Irmãos. Gêmeos.
Aí o caldo entornou. Estão se mostrando muito difíceis e com um enorme poder de aglutinação. Palavrões, xingamentos e brigas passaram a fazer parte do relatório de fim de dia da minha filha. Tá, é normal, eu sei. Mas pra ela isso já é comum, infelizmente. Desde novinha, a xingam de gorda. Na escola antiga, um menino batia nela dia sim e outro também.
Isso a maltratava tanto, que até febre ela tinha. Tudo porque ir para aula, passou a ser uma tortura. O que esse menino tem em comum com os gêmeos, é uma crise familiar que os tira da condição de agressores e os coloca no de vítima. Toda a atenção da escola se volta para eles. Não acho errado, até porque, às vezes, se a escola não buscar fazer o resgate da auto-estima desses garotos, eles acabam por se perder. E outra, continuam sendo crianças. Precisam de apoio, de afeto e não de punições.
Mas e quem está do outro lado? Um dia, numa reunião, lá na escola antiga, enquanto a orientadora pedagógica enchia o menino de adjetivos, ressaltando a nobreza de sua família, Bia a interrompeu chorando e disse: "E EU? O que vão fazer por mim?"
Fiquei surpresa. Fiquei arrasada. Senti meu coração quebrar em mil pedaços, vendo a fragilidade da minha filha naquele momento e mesmo assim, tendo forças pra clamar por si. Não deu tempo de saber quais medidas tomariam para esse caso, a tirei de lá antes.
Nessa escola, já temos uma nova professora, que também está tendo dificuldade de lidar com a turma. Os coordenadores estão bem empenhados e até agora, tem a minha total confiança, mas ouço diariamente a mesma queixa. "Me chamaram de gorda." "Chamaram a senhora de vadia." "Quebraram meu arco" "Amassaram meu trabalho".
Nessas horas é duro pensar no bem estar desses meninos. Nessas horas, só consigo pensar no bem estar da minha filha. Enquanto as coisas não tomam, definitivamente um rumo, faço o meu papel: o de acalentá-la, tomando todo o cuidado para não usar lupa nessa situação. Embora não possa de forma alguma, minimizar o que lhe aflige. Não posso fazer de conta que nada está acontecendo.
O meu desafio é fazer com que ela descubra o seu real valor. E que na hora em que ela descobrí-lo, deixará de ser vulnerável. Não a quero coitadinha, não quero que ela sinta pena de si mesma. A quero de cabeça erguida, para que nada nem ninguém a possa diminuir.
Até onde vai o direito do outro e começa o dela? Alguém já passou por isso?
Há um limite, certo?
E na escola, continuamos de olho!!!

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