Se existe uma coisa que me parte o coração é ver uma pessoa (mulher, mãe) sendo consumida pela culpa. Principalmente porque quem padece desse mal, são justamente aquelas que fazem sempre o melhor que podem.
A maternidade é feita de fases, assim como a vida.
Num primeiro momento, grávida da minha primeira filha, consumia vorazmente toda e qualquer literatura que envolvesse a minha espera, a chegada e os cuidados com o bebê. Confesso, que nunca ousei questionar sobre as coisas que lia ou via, pois imaginava que tudo sairia perfeitamente bem, assim como na revista. Daria conta de tudo e voltaria para o meu peso de forma rápida e indolor.
Sabe a história “acontece com qualquer pessoa, menos comigo”? Então.
Hoje morro de preguiça de consumir esse tipo de material, salvo raras exceções. Porque hoje eu SEI, que na prática as coisas não são assim tão assépticas, tão bonitas, tão fáceis. Porque hoje eu SEI, o quanto é dura a adaptação a nova vida e principalmente, a nova condição, a de mãe.
Estão sempre sugerindo problemas que vc não tem, para que vc procure uma ajuda de que não necessita.
Uma coisa é certa: o leque de assuntos abordados é vasto. Falam sobre sexo, sobre desmame, sobre uso de chupeta, sobre o segundo/terceiro filho, sobre alergias, sobre adaptação na escola, sobre babá, afinal dilema é o que não falta.
As mulheres que aparecem estampando essas reportagens são sempre lindas, magras e exibem um sorriso que foi submetido a clareamento artificial. Estão sempre em locações bucólicas, quase envolta em névoa ou quando não, em camas lindas, brancas e bem arrumadas.
Engraçado…onde foram parar as olheiras, o cabelo despenteado, a pele sem viço, a barriga proeminente do pós-parto? Nos fazem buscar, ainda que inconscientemente, esse ideal.
Seria ótimo encontrar nas revistas mensais coisas do tipo:
* mulheres atenção: a primeira reação ao verem suas barrigas após o parto será de O M G!!! Sim, porque ela ficará com esse aspecto murcho e desenxabido por um bom tempo. Não há mágica, relaxe. Ela passou nove meses esticando, não é em um mês que ela voltará ao normal.
* tudo bem vc não se sentir bonita durante a gestação. Sim, em algumas mulheres, os melasmas costumam aparecer.
* ao invés de se sentir um ser divino e iluminado, vc poderá na verdade se sentir uma pata choca sendo consumida por um cansaço infinito.
* seus seios vão mudar após a gravidez e tá tudo bem. Uns caem mais outros menos, e isso acontece mesmo, não chore, nem deixe de amamentar por causa disso…
* por muitas vezes vc vai se sentir sozinha, ilhada e é algo comum a muitas mulheres. É só uma fase e vai passar.
* seus filhos irão adoecer e isso não será culpa sua. E qdo eles estiverem assim, é normal eles perderem o apetite. Se coloque no lugar dele e tudo ficará mais claro.
[ insira aqui mais milhares de dicas reais para pessoas de verdade]
Se os editoriais mostrassem fotos assim?
| imagem retirada daqui |
Sabe o que acho? Estão sempre tentando nos empurrar a culpa. Nunca somos bonitas o suficiente, nossos filhos nunca são estimulados corretamente, nunca comem o suficiente…e nossa busca para chegar ao topo parece não ter fim.
A culpa nos leva a consumir.
De produtos de beleza, a intervenções estéticas e cirúrgicas, te levam a consumir uma maternidade fantasiosa, te fazem acreditar em itens indispensáveis para a criação do teu filho, te fazem consumir medicamentos e ideias de distúrbios que provavelmente seu filho não tem, te fazem consumir uma literatura de auto-ajuda.
O sentimento de culpa só serve para te deixar insatisfeita como mulher e com o que vc tem para oferecer.
| Luana é gata e todo mundo sabe. Aqui, poucos dias após dar a luz, está mostrando uma barriguinha conhecida de todas nós, meras mortais. Alguém duvida de que vão photoshopar? Daí muitas mulheres terão a falsa ideia de que artistas emagrecem rápido e estão sempre divinos. daqui |
É bem mais vantajoso fazer com que pensemos assim, que trabalhar a ideia de aceitação da mulher para com o seu corpo; da mulher para com seu filho e da mulher para a realidade em que vive.
Mães culpadas também transformam filhos em pequenos reizinhos mandões, no afã de agradar sempre, o tempo inteiro, desmedidamente.
Num primeiro momento, me deixava consumir pela culpa sem freio. Hoje, passadas algumas fases, percebo que quanto mais nos despojamos dela, mais gostosa e intuitiva se torna a maternidade.
A maternidade não comporta a ideia de perfeição.
Porque isso é um efeito que só se consegue através de editores de imagem.
E vc não vai querer photoshopar a sua vida, vai?
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