Houve um momento na minha meninice em que esperava ansiosamente pela menarca. Das amigas da escola, fui retardatária. Aconteceu aos 11 anos, no dia 11 de novembro. Lembro como se fosse hoje. Julgava que estava preparada para ocasião.
Afinal, já sabia para que servia um absorvente, como e onde (importante isso) usá-lo. Sabia também que a cada mês sangraria por uns cinco dias e não morreria. Sabia ainda, que nunca deveria alardear quando estivesse "naqueles dias", que esse assunto deveria ser tratado entre sussurros. Para isso colecionam-se vários eufemismos. Ah! também aprendi que nunca, em hipótese alguma, deveríamos tratar disso com nenhum homem. Não pegava bem - diziam.
Estava pronta. Sabia o que fazer no momento em que fosse surpreendida pelo sangue mensal: deveria fingir incômodo social, nunca encarar esse assunto com naturalidade, como um evento fisiológico e ter sempre um sobressalente na mochila, em caso de vazamentos.
Quando menstruei a minha mãe não estava em casa. Fui até o armário, peguei a embalagem de absorvente e apesar de me julgar preparada, o posicionei de forma errada na calcinha. Gritei o nome da empregada, contei o que havia acontecido. Pacientemente ela me ensinou a cuidar da higiene, ensinou como eu deveria descartar aquele absorvente de modo a manter total discrição sobre o Chico. (péssimo, eu sei. Mas estamos em 1991.)
Surgiram outras dúvidas: gostaria de saber qual o impacto que este incômodo teria sobre a minha vida. Antes de sair do banheiro, ela me disse em tom profético: "pronto, minha filha. Agora você vai começar a sentir o peso do mundo." Sentindo que cumprira sua missão, me deixou sozinha.
Neste natal, tivemos um amigo secreto bacanudo aqui em casa e ganhei de presente um livrinho que desejava há tempos, mas que acabou perdido na lista gigante de interesses. Chama Meu livrinho vermelho que compila histórias sobre a primeira menstruação e reflexões pessoais de mulheres ao redor do mundo e através dos tempos.
A autora pergunta ainda no prefácio: " por que tão pouca comemoração do acontecimento? O que a experiência da primeira menstruação de uma mulher revela a respeito de seu caráter?
E segue com boas informações (grifo meu):
Com muita frequência a menarca identifica uma ocasião sombria. Em sua história "Perda e Ganho de responsabilidade", Zannete Lewis escreve que a menarca historicamente assinalava a idade em que uma escrava podia ser vendida como mulher. Em " Os arreios", Deo Robbins descreve como se sentiu humilhada quando usou pela primeira vez a toalhinha higiênica de sua mãe. Várias histórias recontam a dor de ser esbofeteada no momento de dar a notícia.
Infelizmente o tabu da menstruação está embutido em nossas religiões, nossas culturas e nossa história. O Alcorão (2:222) declara que mulheres menstruadas "são impuras" e ordena que os homens "fiquem longe das mulheres durante a menstruação e não se aproximem delas até que estejam limpas." As mulheres judias são proibidas de fazer sexo. As donas de casa francesas não podem fazer maionese e, como Shobha Sharma descreve em sua história "Trancada em um quarto com dosai", as mulheres indianas são exiladas de suas próprias casas. (...)
Os problemas vão muito além de receber ordem para ficar de fora da aula de ginástica. No Paquistão, 87% das meninas não ouviram falar de menstruação antes de seu primeiro ciclo. Na África, a falta de suprimentos de higiene costuma forçar as meninas a ficar em casa e não ir à escola durante seus períodos menstruais, privando-as assim de quase um quarto de sua educação legítima. E então existem as várias tribos africanas que marcam a primeira menstruação de uma menina como a data para a mutilação genital.
Há uma cultura que comemora a ocasião: os Navajo. Kinaalda, a comemoração da primeira menstruação de uma mulher, é uma das cerimônias mais importantes. O ritual de quatro dias de duração é cheio de cantos e danças alegres.
Se os homens ficassem menstruados, podem apostar que iriam comemorar. Esse é o foco do ensaio clássico de Gloria Steinem " Se os homens menstruassem", no qual ela imagina como os homens iriam glorificar seus ciclos menstruais.
Menstruação é mesmo uma coisa poderosa! E como diz a Erica Jong "a fonte da minha inspiração se encontra no fato de eu nunca esquecer o quanto tenho em comum com outras mulheres, de quantas maneiras estamos similarmente ligadas."
Qual a lembrança que vc carrega da sua primeira menstruação? Foi comemorada de alguma maneira? Ou foi educada a sentir-se inadequada?
Não é perigoso fazê-las acreditar desde cedo nessa imagem negativa a respeito de seus corpos, por puro reflexo da cultura em que vivemos?
Tem filha? Como lidou ou como pretende lidar com esse evento tão importante na vida de uma mulher?
Seria tão bom se passássemos a educar uma nova geração de meninas-mulheres! Acreditando e aceitando seu corpo por inteiro, que pode amamentar, fazer amor, dançar, dar à luz e sangrar sem morrer.

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