Deixar algo de bom para trás, imprimir algo de bom em alguém a ponto de modificá-la é uma das nossas missões - assim, acredito.
Tive uma amiga nos tempos de colégio que era uma graça. Ela era praticamente uma Pollyana. Se dava bem com todo mundo, apesar de não ser a garota mais popular da escola. Estava sempre sorrindo e sempre tinha algo de bom e sensato para dizer a quem quer que fosse. Com ela dividi a responsabilidade de comandar o departamento jornalístico do Grêmio estudantil.
Nessa época eu tinha uma mania feia, muito feia. Ao contrário dela, só conseguia enxergar defeitos em quer que fosse. Sabe quando vc olha ao redor e só abre a boca para externar o desagrado? Era assim: "aff! tá vendo o jeito que aquela menina se comporta?" "não sei como fulana, conseguiu sair de casa com esse cabelo!" "como toca música ruim nesse recreio? alguém já foi reclamar com o pessoal do grêmio?" "que criatura magra!" "que criatura gorda" ad infinitum.
Percebendo isso, sentou-se distraidamente ao meu lado na hora do recreio. Olhando nos meus olhos, com toda a sinceridade que possuía, disse que aquilo - a longo prazo - não me faria bem. Sugeriu então, que ao invés de reparar nos defeitos das pessoas, eu reparasse nas qualidades que elas tinham. Falou do poder positivo de um elogio sincero e de como aquilo fazia bem, também a quem o dizia. Experimenta - ela disse. Nesse momento, ela cumpriu sua missão.
Confesso que fiquei com uma vergonha absurda pelo meu comportamento. Tive o feedback de como estava me tornando uma pessoa desagradável, mas ela disse tudo com tanta propriedade, que essa verdade não doeu. Apesar da vergonha, agradeci e terminamos essa conversa com um forte abraço. Tínhamos 16 anos.
Fiz a tarefa de casa e fui mudando lentamente, tentando perceber o outro e extrair de tudo o lado bom. E quando não via nada de bom, calava.
Antepenúltimo dia do ano, foi ao ar no Fantástico uma matéria que perguntava Há quanto tempo vc não faz um elogio? e convidava pessoas a elogiar outras do seu convívio e receber destas um elogio de volta. Parei de fazer o que estava fazendo e fiquei intrigada ao assistir a reportagem.
Todas as pessoas alegaram a correria do dia a dia como desculpa para não externar o que sentem. Credito isso também a educação que recebíamos, que fazia crer que expressar sentimentos nos enfraqueceria, nos tornaria menor aos olhos do outro.
Imagina o desgaste numa relação onde não se recebe um elogio sincero, onde não se escuta o quão importante somos. Mãe e filha estavam entre as pessoas convidadas a participar dessa brincadeira. Na sua vez de falar, a filha a olhava com um olhar curioso. O que ouviria dela que afirmou só dar broncas?
A mãe disse que no fundo no fundo, sentia orgulho pela filha ter passado de ano com boas notas, mas não externava, não a congratulou a tempo, simplesmente por achar que aquela seria uma obrigação a ser cumprida. Será que ela sentiria sua autoridade de mãe diminuída se reconhecesse o esforço da filha? Lembrei das vezes em que chegava em casa com uma prova na mão, ostentando uma nota máxima e ouvia dos pais um seco: "não fez mais do que sua obrigação." Poxa! :(
Dar um elogio sincero faz uma enorme diferença em quem o recebe. Elogiar é, além de perceber o outro, valorizá-lo. Nenhum resultado positivo é isento de esforço. Quantas vezes deixamos de investir em habilidades por pura falta de crédito, por pura falta de incentivo? Elogie. Incentive.
Obrigada Halana, por ter-me ensinado isso há quase 17 anos!
E então, há quanto tempo não faz um elogio?
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