segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O medo do divórcio e uma historinha




Basta que falemos um pouquinho mais alto, pra que ela pare tudo o que está fazendo para nos olhar com uma expressão aflita.





Dia desses, certa que estavam todos dormindo, Paulinho e eu engrenamos numa discussão. Nem lembro qual o motivo. só que eu estava certa. Dissemos tudo o que tinha a ser dito, quando abri a porta do quarto para pegar mais um dos milhares de copos de água que bebo antes de dormir, quando ouvi um choro abafado.





Chamei o Paulinho e subimos pro quarto da Bia, rápidos como nunca imaginávamos que fosse possível. Nos contou que não estava dormindo coisíssima nenhuma e que ouviu to-da a nossa briga. Paulinho riu. Fiquei em dúvida sobre o que a tinha levado a chorar e enquanto a consolava, assuntava o porquê do choro.





Antes que ela pudesse me dizer qualquer coisa, fui logo tirando a suja e explicando que todo casal discute. E que há uma enorme diferença entre briga e discussão. Daí ela desandou a falar.





Chorou porque sabe que casais que brigam se separam. E que ela nunca, nunquinha quer me ver longe do pai dela. Ou melhor, que não quer o pai dela longe de casa, longe deles. Que o maior medo que ela tem na vida é que um dia a gente se separe.





Ué, mas de onde vc tirou isso? - perguntei mais uma vez. Explicou que quase todos os amigos da escola tem pais separados e que ouvindo as conversas deles, não se imagina tendo duas casas, não se imagina ter que ver o pai apenas nos finais de semana. Na cabecinha dela, família feliz é aquela indissolúvel.





A confortamos. A beijamos. A cobrimos e saímos ensimesmados.





No dia seguinte, com ela mais calma, retomei o assunto.






papo de mãe, divórcio, dissolução da família tradicional, coisas que devem ser ditas, liberdade, luta feminista
via







Até onde sei, os pais dos amigos dela se dão super bem, mesmo com a separação. São presentes e convivem em harmonia com os novos parceiros de suas ex, inclusive. Daí lhe contei uma historinha.





"Era uma vez, um reino muito autoritário onde as mulheres eram vistas como mercadorias. Os casamentos eram barganhados e não cabia à mulher escolher com quem iria casar. Isso era visto como uma bobagem e elas, uma moeda de troca! Amor era um conceito tolo. Até falavam na época, que amar se aprendia amando. As mulheres eram muitas vezes obrigadas a casar com homens que mal conheciam, que cheiravam mal, que só a queriam para procriar. E aí delas se não tivessem filhos...Os maridos eram autoritários e a eles, deviam submissão. Mesmo sendo mal tratadas, as mulheres - coitadinhas - não podiam pedir divórcio. Isso era tido como algo antinatural.





Falavam muito mal daquelas que tinham coragem para fugir. A sociedade as renegava. Depois de muitos anos de opressão, só em 1977 - praticamente, ontem, é que as mulheres tiveram o direito de escolher se permaneceriam casadas ou não. De modos, que o divórcio não precisa ser visto como um vilão, mas uma conquista daqueles que querem permanecer juntos pelo afeto e não por obrigação social. Só assim poderiam viver felizes para sempre. Fim."





Entendeu, filha? Não podemos demonizar o divórcio, muitas vezes, significa liberdade ao casal, apesar de que todo fim é sim, triste. Afinal, ninguém casa para separar.





"Ahhh, mãe. Entendi tudinho agora. Bom mesmo que as pessoas já são livres pra escolher, né?" - e em tom de deboche quase acusador complementa: "mas promete que vcs nunca, jamais vão se separar?"







OMG!










Nenhum comentário:

Postar um comentário