Quando se tem filhos em idades diferentes, temos uma perspectiva mais ampla da infância e do tempo que cada um leva para demonstrar suas habilidades.
Bia desde muito pequena parava e amava ouvir histórias. Adorava carregar os livros em pequenas bolsinhas cor de rosa. Sentava à sua mesinha e passava horas rabiscando ou fazendo minhocas com massinha.
Otto já não é assim. Veio parar sentado pra ouvir uma história depois dos 3 anos. E ainda assim exige muito da paciência do contador, pois interrompe a todo instante perguntando sobre tudo aquilo que não foi dito. Ou ainda, complementando a história com informações que já traz consigo.
Há bem pouco tempo, descobriu-se encantando com os livros. Toda semana traz um novo da escola e quer que eu o conte à exaustão. Pediu um estojo pra irmã e nele colocou todos os lápis e gizes de cera que ela não queria mais. Também ganhou um apontador que eu tive que tomar, por causa da sujeira que fazia pela casa. Até parece que não sabe o caminho da lixeira.
A única fase que coincidiu foi a curiosidade pelas letras. Ambos com quase quatro anos.
Não registrei, mas em maio, exatamente no dia das mães - no cartão que sempre ganho de presente havia uma assinatura nova, meio agarranchada. Perguntei se a Bia havia ajudado o irmão a escrever, quando ele mesmo resolve responder: "não, mãe. Eu escrevi meu nome. Olha só: O-T-T-O." Foi o melhor presente.
Vendo o interesse do irmão, Bia foi numa caixa, já meio esquecida pra fuçar atrás de um brinquedo. Sabe aquele? Em que cada bloco é uma letra? Então. Ela achou que era hora do irmão "brincar" com um. Assim que ganhou, começou:
D de dedo e de Dani.
V de verão
M de Miguel - o amiguinho
P de pai, Paulo e de pum - porque escatologia no vocabulário de um menino não poderá faltar jamais.
Faz desenhos cada vez mais elaborados. E assina todos eles, meu pequeno artista. Também anda muito musical. Canta e dança o tempo inteiro e em momentos de ócio, ainda compõe. Ainda faz rimas e ama parlendas e trava-línguas.
Anda todo orgulhoso de si, mas teimoso que só.
Quer provar para todos que já sabe "fazer tudo o que um adulto faz". O que consiste em ter autonomia sobre suas vontades. O que consiste em uma mãe que diz coisas folclóricas do tipo: "essa é a última vez que eu falo isso." --- tolinha eu.
Aprendeu a dizer não. E percebeu o quanto isso tira a todos nós do sério.
Já não cede, como fazia tempos atrás, quando percebe que está chateando. Agora deu pra olhar pra cara da gente e dizer sério: "não brigue comigo".
Lógico que estamos completamente atordoados com essa mudança, o que me faz repensar a diferença entre autoridade x autoritarismo. Preciso achar uma conduta que seja um caminho do meio, rápido antes que eu enlouqueça.
Tento lembrar de todos os conselhos sobre birra e mantenho-o ocupado com tinta, lápis e papel em branco. E é incrível como na hora da tensão, não entrar na mesma sintonia reverte todo o processo. Pena que nem sempre eu consiga, enfim...
Consolo a mim mesma por saber que dizendo não, ele está dizendo sim a figura do menino que cresce mais e mais a cada dia.
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