Foi assim: ao meio-dia ele reclamava de um cheiro estranho, muito estranho que só ele estava sentindo. Não sabia dizer como era, dizia apenas que era forte, muito forte.
Liguei as antenas com aquele sensor disponível apenas no modelo mãe.
De toda forma, os arrumei e levei para a escola. Quando os fui pegar, não relataram nada de novo. O pequeno passou o dia todo numa boa. Chegando em casa, ele reclamou de uma dor muito forte bem aqui, no meio das sobrancelhas.
O alarme disparou. Sabia que ele havia inserido alguma coisa dentro do nariz. Mas o quê? Como? Em que horário?
A sessão começa agora.
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| só choro escondido no banheiro |
O levei para o banho, momento em que ele fica relaxadão. Empregando técnicas refinadas e avançadíssimas, comecei o interrogatório, que não se aprende em nenhuma universidade do mundo, cabendo somente às mães a sua efetiva aplicabilidade.
- Otto eu sei que vc colocou alguma coisa dentro do nariz. Diga agora o que foi.
Ele nega com veemência.
Depois de muita insistência, ele se declara culpado. Precisava saber o principal: que tipo de objeto estava a lhe subir os seios paranasais. Até que consegui, em parte, a confissão:
- Mamãe foi um remédio.
Neste exato momento, minhas pernas bambeiam, meu coração acelera e sinto a minha língua grudar no meu céu da boca. Não adiantava me desesperar, era preciso frieza. Continuei com minha técnica, agora de negociação, para saber da verdade, de toda a verdade.
- Filho, que tipo de remédio? Onde vc encontrou esse remédio?
- Ah, mãe. Encontrei em São Paulo, ao lado do viaduto Pompéia.
Maldita televisão. Ele tava tirando uma com a minha cara. Até que aumentei em alguns decibéis o meu tom de voz. Cadê a frieza que estava aqui?
- MENINO, PELAMOR DE DEUS, ONDE VC ENCONTROU ESSE REMÉDIO? - enquanto o levava escada acima. - ME MOSTRA AGORA.
Enquanto examinava a caixa de remédio, pude enfim saber se desmaiava, se ligava para o centro de informação antiveneno , para o pediatra ou para a minha mãe.
Foi assim: ele encontrou na cabeceira da minha cama umas pastilhas para garganta. Colocou na boca, chupou e mastigou quebrando em vários pedaços. Não contente, pegou estes pedacinhos e os inseriu no nariz. Queria aliviar a alergia dele e de quebra, sentir um frescor narina adentro. Ok.
Nessa hora fiz o que toda pessoa madura faz nessas ocasiões: liguei para o marido de dentro do banheiro. Chorando, of course. E depois pra pediatra, só pra garantir.
Como é um remédio que pode ser ingerido, lavei com bastante soro enquanto ouvia seu choro arrependido. Ainda dizia em lamento que iria sentir muito minha falta quando morresse. Dramático?
Disso uma lição: nunca, mas nunca mesmo, deixar qualquer remédio ao alcance de pequenas mãos, por mais inofensivo que possa parecer.

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