Na minha cidade, de tanto oferecer minha cabeleira para experimentos com profissionais desconhecidos, acabei elegendo aquele que tinha a técnica perfeita para domar meus cabelos ondulados, que, convenhamos, é o mais difícil de cortar. Sabe aquela coisa volumosa que nem é completamente liso nem completamente crespo? É o meu.
Já tive cabelo chitãozinho-xororó no começo da década de 90, franja que faria índia potira shorar de inveja, estaqueado (é o novo!) e retão estilo Irmã Zuleide. Não por escolha, vale dizer. Já fizeram muita merda com eles, que me fizeram chorar em posição fetal e sair de casa escondendo a indignidade com boné.
![]() |
| Já tive um cabelo desses. Todas se compadece. |
De tão traumatizada, fiquei muito criteriosa com a escolha do meu cabeleireiro. Não suporto aqueles que desconhecem os termos degrafilado e desfiado. Tem aqueles que só sabem desfiar as pontinhas, deixando toda a extensão do cabelo reta, sem movimento. E isso, minhas caras, me deixa com vontade de cortar....a cara deles.
Ao chegar a Floripa, sofri por quase um ano em tentativas que só faziam eu me assemelhar a um cogumelo. Isso me deprimia. Ninguém em sã consciência quer ficar parecida com a frutificação de um fungo, não é mesmo? Uma dúvida: o que leva uma pessoa que não sabe fazer um corte decente a abrir um salão? Questão profunda para refletir com calma.
![]() |
| Oi, essa sou eu tentando achar um bom profissional |
Até que cansada de ouvir meus lamentos uma amiga me apresentou a uma fada das tesouras. A mulher era massa. A mulher se garantia. Sabe aquelas que cortam com o cabelo seco e que repicam até os cabelos dos seu pentelhos se vc deixar? Pois bem. Tudo ia muito bem, estava muito feliz e radiante sempre com minhas madeixas bem cortadas, com excelente caimento quando de repente ela anuncia uma mudança.
Pensei se tratar de mais uma mudança de bairro, coisa que já havia acontecido. Reiterei minha promessa de segui-la fosse aonde fosse. Ela riu. Não gostei do tom e a olhei com uma cara amedrontada de insatisfação e dúvida. Daí ela gargalhou e revelou que estava de mudança pra São Paulo.
Por fora, parecia apenas chatiada, mas por dentro estava com cara de meu mundo caiu. Ficaria órfã outra vez? Estaria fadada a parecer um cogumelo por toda a eternidade?
Orfandade cabeleirística - não curto.
Continuei a vagar pelos vales sombrios da incerteza, até me deparar com um cara chamado Márcio. Que garantiu cortar meus cabelos do jeito que gosto e mereço. Ele tem atitude e sabe repicar, o que já aumenta as perspectivas para um relacionamento duradouro.
![]() |
| Repica René, repica. |
Com aquele medo inicial das virgens puritanas do século XVIII, pedi para que ele aparasse apenas as pontinhas, coisa que não fazia desde 2000.
Meses se passaram e continuo aparando as pontinhas, o que significa que ainda não passei das preliminares com o Márcio.
Acontece que não sou mais mulher de aparar pontinhas. Ora, me respeitem.
Por isso, tenho uma denúncia de incoerência para lhes fazer neste post: a mocinha que escreveu ESSE texto, está se pelando de medo de cortar o cabelo.
Vejam vcs, como a vida é uma eterna pegadinha.
O que fazemos com ela, afinal?
Que conselhos dariam?



Nenhum comentário:
Postar um comentário