quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Toma que a responsabilidade também é tua!


Há poucos dias vi uma página no facebook que foi criada com o objetivo de ofertar uma criança à adoção longe da supervisão legal. A mãe da criança alegava que não estava suportando o peso da responsabilidade, que seus pais não a apoiavam e ela não tinha pra onde ir. Uma história como a de muitas mulheres que levam a gestação e o nascimento de um bebê como se sozinhas tivessem reproduzido





Antes de denunciar a página no site da Polícia Federal e antes mesmo das denúncias serem apuradas e chegarem a grande mídia - descobriram inclusive, outras páginas com o mesmo teor -, me dei ao trabalho de ler alguns comentários. A revolta expressa ali por muitas mulheres não me causou espanto visto a gravidade do ato, que é tipificado tanto no Código Penal, como no Estatuto da Criança e do Adolescente. Incorrendo na pena tanto quem vende como quem compra.



Bom, o teor dos comentários era basicamente o mesmo. Algo que variava "não soube fazer, sua p..., agora cria". Ou "pular fora é fácil, pensasse nisso antes". Ou ainda "pra abrir as pernas tu gostou, né sua v...". E foi isso que (também)  me chamou atenção nesse caso: em nenhum momento nenhuma daquelas mulheres que dispuseram do seu tempo para prestar sua indignação questionou a responsabilidade do pai. Como se a questão se restringisse única e exclusivamente à  figura feminina. Isso reflete de uma certa maneira como a sociedade encara a responsabilidade sobre a reprodução.



Não podemos simplesmente punir as mulheres pelo seu desfrute sem levar em consideração a responsabilidade masculina. A menos que elas sejam uma minhoca, que se fecunda, gesta e pari sozinha.



Por que a mulher é totalmente responsabilizada pelo controle de natalidade? Como isso repercute em nossa sociedade?



Não se pode discutir esse assunto sem levar em consideração o papel ideológico do gênero que cria uma espécie de diferenciação como se o campo da reprodução e todas a sua responsabilidade fosse essencialmente feminino, enquanto a sexualidade coubesse aos homens que são reféns (que dó!) de seus instintos sexuais. O que gera a dualidade entre natureza materna x natureza sexual que seria intrínseca a cada um de nós.



O método contraceptivo masculino é o preservativo, cujo uso precisa ser incentivado em larga escala pois eles se abstêm de usar. É desagradável, claro. Estamos em 2013 e a pílula anticoncepcional masculina ainda está em fase de teste. Percebam o grande interesse. Se os homens de um modo geral estivessem de fato preocupados com a  sua responsabilidade, tanto na reprodução quanto na criação da prole, poderiam optar pela esterilização - a vasectomia.



No Brasil, segundo o SUS, há critério para um homem realizar a cirurgia. Só pode ser realizada em homens com mais de 25 anos e que tenham no mínimo dois filhos. O número de procedimentos passou de 7,7 mil em 2001, para 34 mil em 2011. Importante ressaltar que faltam políticas públicas voltadas para o público masculino, porque é do senso comum que o controle da natalidade seja de responsabilidade da mulher.



O único programa de saúde do homem que há hoje em dia visa discutir doenças como o câncer de próstata e levá-los para os exames periódicos, sem discussão sobre a interface papel social/saúde masculina. Com relação às mulheres, há o PAISM - Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, criado na década de 80 e que tem ampliado muito o acesso das mulheres aos programas de saúde, casos de violência e planejamento familiar. Ou seja, programa de saúde do homem = impotência = virilidade e nada de planejamento familiar. Significa. (grata à Cientista pelo adendo).



Será que é por isso que, segundo o censo do IBGE realizado em 2009, haja aproximadamente 5 milhões de alunos matriculados na rede pública e privada que não tem o pai declarado em suas certidões de nascimento? Situação essa que fez com que o CNJ - Conselho Nacional de Justiça - lançasse o projeto Pai Presente que estabelece medidas a serem adotadas pelos juízes e tribunais brasileiros para reduzir o número de pessoas sem paternidade reconhecida no país, cujo objetivo é identificar os pais que não reconhecem seus filhos e garantir que assumam as suas responsabilidades, contribuindo para o bom desenvolvimento psicológico e social dos filhos.



Não sei se vcs sabem, mas meu marido optou pela esterilização para tomar parte no planejamento familiar. Segundo ele, eu já tinha feito muito e não seria justo que eu me submetesse a uma laqueadura - procedimento bem mais invasivo. Muito menos queria me condenar a pílula até que entrasse na menopausa. A vasectomia dele levou meia hora, teve aplicação de anestesia local e foi tão tranquila que ele foi e voltou sozinho e ainda por cima dirigindo.



Esse procedimento ainda é associado a  (im)potência sexual ou a diminuição do prazer, por incrível que possa parecer. Inclusive, meu marido passa por muitos desses questionamentos por parte dos amigos, dos colegas de trabalho. Estes dizem que jamais se submeteriam a vasectomia, porque se sentiriam invadidos na sua masculinidade. (!)



Mas por que eles se submeteriam, né mesmo? Há quem faça o trabalho por eles.



Em contrapartida, é no corpo feminino que recaem todos os efeitos colaterais das pílulas, as gravidezes indesejadas e o peso do julgamento de uma sociedade estritamente machista.



Claro que o panorama não é de todo ruim. Há uma geração de homens que buscam viver a paternidade ativamente e é por isso que esta deve ser mais inclusiva.



As pessoas têm que parar com essa mania de comprar a ideia do homem imbecilizado - tomando emprestado esse termo do marido, que não se sente representado pelo ideal masculino pintado pela publicidade. Incapaz de gerir uma casa, incapaz de cuidar de alguém ou de alguma coisa, incapaz de respeitar uma mulher, sempre se rendendo aos seus instintos sexuais.



Sendo urgente também a desnaturalização dessa incapacidade por nós. Porque muitas mulheres também compram essa ideia e criam seus filhos sob estes moldes, perpetuando o ciclo.






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Não os subestime. Claro que eles são capazes.

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A ideia romanceada e e finamente construída de que a relação entre mãe e filho é insubstituível acaba também por afastar o pai, pois impõe um limite ao seu envolvimento ativo. O homem não deve se sentir de fora de um processo do qual tem profunda importância e relevância.



Temos que abrir espaço para que o homem exercite a sua paternagem, tome um lugar que lhe pertence para que possa participar ativa e intensamente desde o apoio no parto e na amamentação até os cuidados com o bebê.








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Embora defenda essa participação, acho desnecessário render homenagem quando um pai solteiro assume a responsabilidade da criação de um filho que ele mesmo gerou. Com o apoio da mesma família que geralmente vira as costas para as mulheres que embucharam indevidamente. Afinal, alguém já viu uma manchete dessas: "Mulher solteira cria o filho sozinha, sem ajuda de ninguém"? Eu não.



Espero que pais como esse da reportagem passem a ser vistos com normalidade, para que possamos render homenagens a pais como esse que num momento de desespero resolve amamentar a própria filha por entender que o ato de amamentar vai além da produção de leite. É uma linguagem de amor, carinho e atenção.



Que essa paternidade sim, reverbere.







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