Há muito tempo abandonei o caráter arrogante com o qual eu encarava a literatura de entretenimento. Não lia e já achava uma porcaria. Em contrapartida, ficava completamente alienada sobre as produções literárias contemporâneas.
Quando estou muito cansada e não quero uma leitura difícil, nem nada muito profundo, me jogo nos livros da Marian Keys que me fazem rir muito, muito mesmo. Em época de escassez de blogs de entretenimento, recomendo.
O lançamento do livro Cinquenta Tons de Cinza causou um frenesi absoluto entre as leitoras de todo o mundo. Recorde de venda em vários países, é o maior fenômeno literário depois de Harry Potter. (!)
Classificado como erótico por uns e obsceno por outros, o jogo sexual que dá o tom do romance só comprova o que sempre soube. Mulheres gostam de ler sobre sexo. Mulheres gostam de sexo.
Visto o que aconteceu quando tratei desse assunto, com uma abordagem totalmente pessoal aqui no blog. É uma das postagens mais acessadas! Apesar da receptividade - e-mails e mensagens privadas, notei que o texto foi pouco compartilhado de forma individual, mas bem difundido em grupos fechados, onde talvez estariam as leitoras seguras dos olhares de reprovação - suponho. Curioso.
E taí o motivo de tanto sucesso e da antipatia de certos homens que não veem com bons olhos essa incitação à fantasia entre a classe feminina.
A histeria
"Quando Anastasia Steele entrevista o jovem empresário Christian Grey, descobre nele um homem atraente, brilhante e profundamente dominador. Ingênua e inocente, Ana se surpreende ao perceber que, a despeito da enigmática reserva de Grey, está desesperadamente atraída por ele. Incapaz de resistir à beleza discreta, à timidez e ao espírito independente de Ana, Grey admite que também a deseja."
Mulheres esvaziando prateleiras das livrarias numa correria avassaladora, lendo sem parar, escondidas dos chefes, maridos e filhos, comentando com as amigas, nas redes sociais. Igual as mocinhas do começo do século. Confesso que quando vi toda essa histeria, fiquei curiosíssima para lê-lo.
Pensei se tratar de uma história de amor, com cenas de sexo sendo descritas com riqueza de detalhes. Bom - pensei. Depois vazou a informação que o Grey era adepto do sadomasoquismo. Não curto muito essa história de submissão e humilhação como geradores do prazer mas ainda assim, movida pela curiosidade, queria ler.
Aliás, agora que se descobriu (hahaha) que gostamos de sexo, há toda uma indústria voltada para o nosso prazer. Muitas produtoras de filmes pornográficos estão adaptando a putaria para o olhar sensível das mulheres. Ai, que subversão!
O interesse acabou quando...
descobri que não se tratava só de algemas, correntes e intermináveis cenas de sexo, mas que a tortura ia além do físico, na verdade o jogo psicológico de domínio/submissão previsto inclusive em contrato, era o mote da trama e acontecia fora da cama. Perturbador.
Ela, uma jovem estudante e ingênua e imatura.
Ele, um jovem bonito e enigmático e atormentado e milionário. Um príncipe. O homem dos sonhos.
Nada consegue ser mais clichê que isso.
Ah, mas ela gosta.
Ah, tadinho...foi um trauma de infância. Espera até ler toda a trilogia.
Ah, mas com um homem desse até eu...
(dizem os entusiastas leitores)
Tudo isso soa para mim como a clássica narrativa da violência doméstica. Reforçando a mitologia de que as mulheres querem e gostam no fundo de se machucar e que cabe à nós curar este tipo de homem atormentado, aceitando alguns desmandos e amando-o de maneira satisfatória. Afinal, o amor tudo suporta. Ah, o "amor".
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Perpetua também a cultura do estupro, da qual queremos nos livrar há séculos, que se caracteriza basicamente sobre a noção de que abusar fisicamente de alguém contra a sua vontade é mais excitante, mais estimulante. A única coisa que esse casal tem em comum é dor, dizem - em um é por consentimento visando o prazer sexual e no outro é a forma totalmente repreensível de abuso e violência contra uma pessoa inocente.
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| não, né? |
Sabe essa fantasia romântica de que o homem mandar no corpo da mulher significa amor, cuidado? Depile-se. Cuide-se. Malhe. Esteja pronta, que hoje eu quero te usar --- sério mesmo que essa tutela é bem quista? Que ainda queremos um homem maravilhoso que venha ensinar tudo pra gente?
O que andam falando
Assisti ao programa Saia Justa no GNT no dia em que colocaram o livro na roda dos debates. Maria Fernanda Cândido diz que não conseguiu ler. A Waldvogel, contrariando a grande massa, diz que o livro é de um marasmo absoluto e que o primeiro beijo ocorre lá pelo oitavo capítulo. Nada é unânime nessa vida.
Num dos vídeos, foram convidadas duas jornalistas. Uma amou e outra odiou. E a fala que mais me chamou atenção foi a da Nina Lemos, onde ela diz que não precisa conferir um caráter cupcake a um livro que fale de sexo para nós. A cena para ser envolvente, basta estar bem escrita.
Segundo ela, mulher gosta de pornografia. E defende que podemos gostar de pornografia, assumidamente. Não precisamos de sexo disfarçado, o que mudam são as nuances, mas que mulher gosta é de putaria.
Não à toa, o sucesso de vendas desse livro.
Pra mim não rola, nem sob o pretexto do entretenimento.



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