segunda-feira, 11 de abril de 2011

A majestade - o ponto de vista de quem ganha um irmãozinho


Estávamos jantando, quando a Bia chegou com um livro na mão, querendo ler um texto. A carinha era de quem havia se identificado...daí, ela com um sorriso malicioso e me olhando de canto de olho, começa a leitura:





" Intrometido! Chegou faz tão pouco tempo e já é o rei da casa. Manda e desmanda, sem nem falar. É só chorar um pouquinho e pronto. Todo mundo querendo adivinhar o que a majestade deseja. E, como majestade está sempre querendo a mesma coisa, todo dia, toda hora, todo minuto, não sobra tempo pra mais nada. E para mais ninguém, claro.





Clara ficou na cama um tempão. Agarrada no travesseiro, chorando. De dor e de raiva. Tudo misturado numa coisa só. A mãe não apareceu pra dar bronca. Nem isso! Na certa, estava ocupada, medindo a febre do bebê.





Era tão bom. Bom, nada. Era maravilhoso quando o pai chegava em casa de noitinha e corria atrás dela. Corriam os dois em volta da mesinha da sala, até caírem no sofá. Língua de fora e coração aos pulos. Depois, no colo do pai, Clara ia contando para ele o que tinha feito naquele dia. As brincadeiras que tinha inventado, as novidades da escola, as chateações, tudo de tudo.





Domingo de manhã também tinha colo. Em dose dupla! Do pai e da mãe. Quer dizer, não era bem colo, mas a gostosura era a mesma. Ia todo mundo lá pra sala. Aí eles ficavam esparramados no tapete, no meio das almofadas. O pai e a mãe liam o jornal. E Clara mergulhava gostoso numa porção de livros. Histórias incríveis. De vez em quando ela perguntava alguma coisa. Queria saber o significado de uma palavra ou de um pedaço da história que não tinha ficado bem entendido. A mãe explicava. Ou o pai. Às vezes até os dois juntos. Era bom demais!





Depois o chato do irmão apareceu e estragou tudo. Nada de colo, nada de corrida em volta da mesinha da sala, nada de manhã gostosa de domingo, nada de nada!





Só ele que podia tudo. A mãe corria pra trocar a fralda, sem nem reclamar. Nos últimos dias, então, não desgrudava dele. Toda hora com o termômetro na mão, querendo saber se o bebê estava com febre. Nem aí pra Clara.





O bebê adoeceu e ficou internado em um hospital. Clara se sentiu culpada, pois  havia desejado que ele não existisse. Quando o bebê voltou para casa, Clara se aproximou dele e percebeu que ele era frágil e pequenino. O coração de Clara ficou cheio de ternura pelo irmãozinho e a convivência dela com os pais voltou ao normal. "


(Sônia Barros. O que é que eu faço, Afonso? - trechos selecionados In: Adson Vasconcelos. Aprender Juntos. São Paulo: Edições SM.)





**************





Quando terminou de ler, ela disse que tinha achado tão parecido com a vida dela, que TINHA que nos mostrar. A diferença, ela salientou, foi que não sentiu ciúmes a ponto de ter raiva do irmãozinho.





Disse que só sentiu e ainda sente a nossa falta.


Saudade do trio que formamos um dia.







Imagem: We heart it










14 comentários:

  1. Nossa!
    Fiquei emocionada.
    Eu tenho uma irmã mais nova mas como nossa diferença é de um ano e meio, nunca passei por nenhuma crise. Foi algo absolutamente natural na minha vida. Mas entendo essa melancolia dela em relação a um momento da vida que não volta mais. Tão novinha pra expressar essas coisas, né?

    Um beijo, Dani!

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  2. Dani
    Passa, e fica tão divertido.
    Tem briga, tem confusão, mas tem amizade, cuidado, carinho, e uma mistura de emoções. E quer ver que coisa linda eles conversando depois da escola.
    Eu adoro ler e relembrar...
    Bjs
    Patricia
    Patipins.blogspot.com

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  3. Oi Dani, meu Gabriel também sofreu muito com a chegada do irmão. Sofreu mais pq eu tive uma pequena depressão e rejeitei ele. Não gosto de falar nisso pq tenho vontade de morrer sempre que me lembro e choro.
    Hoje, tento suprir de todas as formas tudo o que provoquei. Engraçado, ontem eu tive uma dessas crises de carência do meu filho e fiz um post sobre isso. Não é fácil, não mesmo!
    Bjos

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  4. tenho uma irmã mais nova nossa diferença de idade é de 8 anos...aceitei bem, talvez porque minha mãe pulou a parte da gravidez, minha irmã é adotiva qdo fomos buscá-la pensei que seria uma bonquinha pra eu cuidar e adorei a ideia hehehe Tive um momento de ciumes pedindo pra mamar na mamadeira e me deitava no berço com ela hehehe

    babidorafa.blogspot.com

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  5. Nossa que lindo Dani. A Mel regrediu muito qdo o Gu nasceu mas aos poucos foi melhorando eu acho? Ontem Mel foi num passeio com a escola e Gu de tão sozinho me ocupou a manhã toda, sentiu muita falta (ele não admiti saudade). Ainda bem que tive mais de um, assim um sempre sentirá saudade do outro, embora as vezes queiram ficar longe, entende né?
    Bjs querida

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  6. Ai meldels! Assim vc parte meu coração! Que lindo!

    Sabe que Stella tá fazendo acompanhamento psicológico p/reslver essa questõa interna entre ela e o irmão!? O engraçado é que aqui as coisas foram atrasadas, o ciúme surgiu depois de 2 anos, quase 3. É uma relação de amor e ódio, tapas e beiios eternos.

    Bjo grande e obrigada por compartilhar!

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  7. é por isto que alguns psicólogos recomendam um dia do mÊs exclusivo pra cada filho: assim ele pode escolher o que comer, onde ir, do que brincar e conversar com os pais como se fosse único e sem irmãos pra chamar atenção ;-)

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  8. Dani, é a primeira vez que passo por aqui e estou adorando! Que texto lindo, nossa, como isso acontece!!!

    Obrigada por compartilhar um texto tão intenso e verdadeiro!

    Bjos, e voltarei aqui mais vezes!

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  9. Ah, que lindo e delicado! Sabe que penso muito nisso? Como pedro reagirá? Ele vai cuidar e amar o irmãozinho? E as brigas, vão ter.... pq né, irmãos brigam!
    Eu quero que seja bacana. Eu esperei 26 anos para ouvir meu irmão dizer "eu te amo, irmã". Mas continua sendo bom!

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  10. Como ela é sensivel e ultra inteligente né? Que querida, que lindo flor...tão bom quando os filhos conseguem colocar as máguas, pensamentos, angustias, alegriasm tristezas pra fora né? Assim os pais sabem como lidar, o que fazer, onde e como agir..que querida..fiquei emocionada com o texto. Beijos familia linda! Re

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  11. Sou fã do Otto e da Bia. Que duplinha hein, Dani?

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  12. Oi Dani,
    Nossa a última frase desse post apertou o meu coração. Eu acabei de ter o meu primeiro filho e o que eu mais penso é o quando ele vai sentir quando vier o(s) próximo(s). Mas quero muito ter mais filhos, pois sou filha única por parte de mãe e sei a falta que faz um irmão(ã).
    Obrigada pelas visitas ao Baby Boom. Volte sempre que quiser!
    Beijo

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