Vi a proposta dessa blogagem coletiva no Desabafo de Mãe, com base numa campanha da Unicef, que está promovendo uma campanha "Por uma infância sem racismo". A ideia desse post é antiga, mas não com essa abordagem...
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Cresci numa casa, onde moravam sete pessoas: meus avós, minha mãe e meus tios. Cada um com uma característica física diferente - dos caprichos que só a genética é capaz! Meus avós são negros e dois dos meus tios também.
A origem da minha família é muito, muito humilde. E a custo de muito trabalho, foram subindo os degraus da vida. O vovô depois de trabalhar duro, fez concurso para ocupar uma vaga de motorista de caminhão numa grande empresa. Passou e, junto com a minha avó conseguiram conduzir àquela família, ainda em formação, a degraus ainda mais altos.
Todos os meus tios estudaram e se formaram, pois passamos a vida ouvindo que pobre só consegue subir na vida estudando. O nome do degrau, segundo a minha avó, é estudo! E é aqui que entra o primeiro episódio marcante de preconceito racial, somado ao preconceito de classe, (já que morávamos no subúrbio) que marcaram minha vida, com um grande ensinamento.
Quando da formatura da minha tia, em Farmácia, meu avô pediu ao chefe um dia de folga a que tinha direito, pois precisava ir pra uma dessas solenidades dos formandos. O chefe, incrédulo, zombou: "o quê? uma filha de caminhoeiro se formando em Farmácia? ahahaha....conta outra! Quer folga pra beber cachaça, negão?" - meu avô não respondeu o que o chefe merecia ouvir, ganhou o dia de folga e esteve presente ao lado da filha, como convinha.
Uns dois anos depois, foi a vez do "caminhoneiro negão" formar o filho em Medicina. Dessa vez, orquestrou melhor a situação, pra devolver pro chefe aquilo que ele merecia ouvir. Pediu um convite a mais e foi, pessoalmente entregar. Entrou na sala e disse para o chefe que precisava falar com ele. Debochando, o chefe perguntou: "quer mais um dia de folga? Tá formando outro filho? AHAHAHA" E meu avô, calmo e sereno disse que não. Não estava pedindo mais um dia de folga e que SIM estava formando mais um filho!
Chefe: " ahhh, aí já é demais! - disse às gargalhadas. "Nem eu que sou engenheiro, formei filho, o caminhoneiro tá formando todos?" - continuou rindo. E vovô sacou do convite e disse que não poderia se estender, que havia ido lá só para convidá-lo e que fazia QUESTÃO de sua presença.
Chefe olhou pro convite, com ar de superioridade e bradou: "Medicina??? Medicina???"
Vovô saiu feliz da vida por ter esperado o momento certo de fazê-lo engolir a petulância.
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Com exemplos assim, cresci.
E, mostro, principalmente a minha filha mais velha, que nasci loira, dos olhos claros, por puro acaso, já que trago no sangue, com orgulho, uma outra genética!
Conhecer a origem é fundamental!!! Faz toda a diferença.
Hoje, ensino aos filhos a amar, a respeitar não o tom da pele, não a posição social, mas o ser humano e toda a sua bagagem de vida, que está por trás.
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E quem quiser fazer coro a essa campanha, ainda dá tempo! A blogagem coletiva vai até o dia 28 de março. Mais informações, aqui.

teu vô arrasou!não se abateu pelo preconceito e ainda deu uma resposta à altura da ofensa.o caminho é esse mesmo,superar e mostrar q é possível e assim vamos formando novos seres pra este nosso mundão...bjs!Rogéria Thompson
ResponderExcluirDani, vc tem um roteiro de filme daqueles que fazem a gente chorar doido em frente a telinha e acreditar o quanto vale a pena ter orgulho de quem somos. Sinto falta dessas histórias brasileiras. A gente só vê filmes nortemaricanos sobre essa superação. Parabéns e obrigada por partilhar sua emocionante história de vida.
ResponderExcluirExcelente post Dani!
ResponderExcluirAqui em casa, ensino os meus filhos à respeitarem todas as pessoas, independente de raça, religião. Que diferenças fazem parte da vida, e que o respeito é fundamental! Graças à Deus, meus filhos já assimilaram isso. Me sinto feliz, por ensinar coisas boas aos meus filhos!
Beijo enorme!
AI Dani!!! Adorei a história, muito nobre da parte de seu avô dar a resposta da maneira mais sutil possível, mostrou que ele mesmo não tem preconceito como acontece com alguns negros e que a diferença está apenas na cor da pele e nada mais. Realmente a educação vem de casa, e se a criança é racista, pode contar que nasceu num berço racista. Diferença de cor, religião e classe social esta longe de definir o caráter de alguem. bjssss
ResponderExcluirDani, até arrepiei com a 'reposta' do seu avô ao chefe! ADOREI!
ResponderExcluirE vc fechou com chave de ouro: temos que aprender a conhecer a bagagem de vida do ser humano pra conhecê-lo! Não é posição social, cor de pele e outras coisas que vão indicar se vale a pena ou não.
Esse chefe do seu avô... pode ser que hoje valha a pena, pq ele aprendeu uma grande lição com o seu racismo. Possivelmente ele mudou alguma coisa o seu modo de ver a vida!
Um beijo!
Lindo Dani, chorei simplesmente.
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